Jason Moran entende a história como uma conversa inacabada, como um conjunto de possibilidades em aberto. Foi isso que aconteceu esta última segunda-feira, 13 de Julho, na Casa da Música, no Porto – e, certamente, ontem mesmo, no CCB, em Lisboa, a segunda data a solo do pianista neste regresso ao nosso país. Durante cerca de hora e meia, nas suas mãos, Duke Ellington deixou de ser uma figura histórica preservada no âmbar da reverência museológica para voltar a ocupar um lugar no presente pela força de uma música que continua disponível para ser interrogada, contrariada e prolongada.
A capa de Jason Moran Plays Duke Ellington oferece uma primeira pista. Em vez do retrato inevitável de Ellington, vemos um pé impecavelmente calçado pousado sobre os pedais de um piano de concerto. A referência à elegância lendária do compositor é evidente, mas a imagem diz mais do que isso. Moran parece querer lembrar-nos de que, por detrás do líder de orquestra visionário e do artista que Ralph J. Gleason descreveu como “o mais importante compositor americano”, existia também um pianista muito sério. Um músico cuja relação com o instrumento era simultaneamente elegante e física, delicada e violenta. Esse é o Ellington que foi invocado por Moran nestas duas datas.
O que o pianista de 51 anos natural de Houston procura preservar não é um estilo pianístico, mas uma forma de imaginar a música. O que Moran apresenta nesta sua vénia a Ellington é um projecto sobre a possibilidade de continuar a conversar com esse passado sem o reduzir a objecto de veneração. Ao invés eleva-o ao presente e deixa claro que o celebrado compositor americano é, também, um tesouro vivo, um património do futuro. Logo no início do concerto, Moran recordou a primeira vez que tocou na Casa da Música, em 2007, integrado no quarteto de Charles Lloyd. Disse guardar a memória de um concerto tão especial que acabaria editado em disco. É provável que quase duas décadas tenham misturado datas e lugares e que estivesse, afinal, a pensar em Rabo de Nube, gravado poucos dias depois, em Basileia. A pequena imprecisão acabaria, contudo, por adquirir um significado inesperado. A memória, parecia dizer-nos Moran, raramente se organiza cronologicamente. Organiza-se através dos sons.
Ao longo da noite, Moran falou mais do piano do que de si próprio. Um piano, recordou, tem oitenta e oito teclas. Mas foi às quinze mais graves que regressou sucessivamente. É aí, garantiu, que permanece “o tumulto da vida e da História”, um território onde continuam a ressoar oceanos, florestas, migrações, perdas e encontros. A formulação até poderia parecer excessivamente metafórica e poética não fosse a forma como imediatamente foi traduzida em música de intensidade máxima. Moran foi regressando obsessivamente a esse extremo do teclado, de onde foi fazendo nascer drones densos, telúricos, que alteraram a percepção do tempo e da própria acústica da sala. Mais do que tocar notas, Moran pareceu interessado em esculpir frequências.
Tudo começa, afinal de contas, no toque. Poucos pianistas contemporâneos possuem uma sonoridade tão imediatamente reconhecível. Nas mãos de Moran, o ataque pode ser seco, quase brutal, mas a nota nunca perde profundidade nem cor. Mesmo nos momentos de maior violência física existe uma atenção permanente à ressonância, como se cada som devesse continuar a transformar-se muito depois de ter sido produzido. Moran pensa menos em acordes do que em vibrações; menos em progressões harmónicas do que na maneira como o som ocupa um espaço e modifica o corpo de quem escuta. Foi isso que tornou “Black and Tan Fantasy” um dos momentos mais impressionantes da noite.
Moran chegou a usar a mão direita em forma de cutelo, desferindo golpes verticais sobre o teclado com uma violência cuidadosamente controlada. O gesto impressiona pela fisicalidade, mas nunca procura o efeito cénico. É simplesmente a continuação lógica da música. O refinamento de Ellington nunca excluiu o peso, o atrito ou a resistência. Moran faz questão de tornar essa tensão visível e audível. Mas o que mais impressiona continua a ser a forma como manipula o tempo. O virtuosismo está sempre presente, embora nunca seja gratuitamente exibido. As pausas tornam-se matéria musical. Certas frases permanecem suspensas durante largos segundos antes de encontrarem uma resolução inesperada, obrigando-nos a escutar também aquilo que acontece entre as notas. Mesmo nos momentos em que o discurso se aproxima da abstracção sonora, permanece uma pulsação subterrânea, um swing quase invisível que impede a música de perder contacto com o corpo. É uma liberdade profundamente disciplinada.
Depois de “I’ve Got It Bad and That Ain’t Good” e “Melancholia”, o concerto encontrou o seu centro emocional quando Moran chamou Susana Santos Silva ao palco para interpretar “Single Petal of a Rose”, um tema que Duke Ellington escreveu para a Rainha de Inglaterra e que originalmente existiu apenas num único acetate, permanecendo um tesouro privado da monarca. Horas antes, encontramos a trompetista portuguesa casualmente no café da Casa da Música. Com um sorriso discreto, limitou-se a dizer que iria tocar “uma cantiga” com Jason Moran. O pianista acabaria por contar ao público que o convite nascera apenas uma semana antes, em Copenhaga, depois de um encontro fortuito entre ambos. Nada poderia ilustrar melhor a sua forma de entender o jazz. Ao longo do concerto, Moran falou repetidamente da comunidade que rodeava Duke Ellington: Billy Strayhorn, Johnny Hodges, músicos, bailarinos, médicos, cabeleireiros, gente de excelência que fazia parte do seu universo criativo. A presença de Susana Santos Silva não surgiu, por isso, como uma participação especial. O convite de Moran pode ser entendido como a continuação natural dessa ideia de comunidade. A tradição a deixar de ser património para voltar a produzir relações.
A interpretação foi extraordinária. Moran colocou-se deliberadamente num plano de suporte, deixando que Susana Santos Silva conduzisse a narrativa. A trompetista começou por recorrer pontualmente à surdina, explorando um timbre contido, antes de deixar que o som natural do instrumento se expandisse plenamente. Na longa secção final, já mais enredada na melodia, rodeando-a em vez de a afirmar, foi pacientemente desenhando um discurso de enorme subtileza tímbrica e rara inteligência melódica. “A legend of the trumpet”, apresentou-a Moran. O elogio poderia soar excessivo noutras circunstâncias. Ali pareceu apenas a descrição de um encontro artístico absolutamente improvável e plenamente conseguido. Susana também assomou ao microfone e explicou que assistira com máxima atenção à primeira parte da actuação a partir da lateral do palco, incapaz de desviar a atenção de uma música de uma beleza tão intensa que quase se tornava dolorosa.
Apesar da densidade conceptual do programa, Moran nunca permitiu que o concerto se transformasse numa lição. Houve humor nas histórias que contou, prazer evidente na comunicação com o público e uma leveza que impediu a música de resvalar para a solenidade. Também isso pertence à herança de Ellington. O encore acabou por revelar aquilo que talvez tenha sido a verdadeira linha condutora de toda a performance. Antes de interpretar “Dancers in Love”, Moran descreveu o piano como uma máquina de tensões, feita de madeira, ferro e cordas permanentemente sob pressão, e pediu ao público que participasse através de um simples estalar de dedos. Pouco depois evocaria Jaki Byard, outro dos seus mestres, e a ideia de que o piano é um lugar onde diferentes compositores e diferentes épocas podem coexistir. Fazia então todo o sentido terminar com a peça dupla “Wig Wise/South Side Digging”, a primeira de Duke, a outra da sua própria autoria, uma afirmação de continuidade, ligação e dependência entre espíritos e eras. Debruçado sobre o interior do piano, manipulando directamente as cordas enquanto fazia pulsar obstinadamente o registo grave numa cadência quase techno, Moran fechou o círculo iniciado com Ellington. E demonstrava que a história continua viva sempre que alguém lhe acrescenta novas possibilidades.
Já depois do final, no lobby da Casa da Música, Susana Santos Silva revelou que Moran gravara a interpretação conjunta e lhe dissera que tinham de voltar a tocar. Esperemos que sim. Estes momentos precisam de ser documentados para que gerações futuras os possam escutar e prosseguir elas mesmas com histórias iniciadas muito tempo antes, em lugares distantes, por gente diferente. Porque a história que começa em Duke Ellington continua viva e com sede de futuro.