Poucos corpos suportam o peso de uma sala como a do Theatro Circo com a elegância de um Steinway. E talvez ainda menos o façam com a naturalidade e a leveza de Mário Laginha. Neste derradeiro fim de semana do Julho é de Jazz, em Braga, Laginha subiu ao palco com Retorno ao piano solo. O álbum editado em Fevereiro era um desejo adiado por um percurso repleto de colaborações e desafios incessantes. Ainda assim urgente. Retornar é regressar a casa; a esse lugar que nos espera desde que partimos.
Mário sentou-se ao piano como gosta: sem saber o que vai tocar. “Às vezes vou para um lado. Outras, vou para o outro”. Levanta a âncora e deixa-se levar. É o piano que o afina. O improviso com que sempre abre os concertos a solo funciona como convite para a intimidade do seu universo. Abre-nos a porta de casa enquanto ajusta a frequência colectiva e recoloca os pensamentos e as palavras no lugar, ou seja, fora dali.
O alinhamento reordenou quase todos os temas do álbum com a excepção dos improvisos. A admiração e estima pelo artista fez-se de silêncio total e escuta atenta numa sala completa. Em relação ao concerto de apresentação em Março, no auditório de Espinho, notámos que não havia partituras. A música pertence agora ao corpo de Mário Laginha. “A música está mais de cor. Está quase toda de cor. Há uma sequência do ‘FUGATO’ que eu, apesar de tudo, me sinto melhor com aquilo à frente. Mas de uma maneira geral, já está de cor. Os concertos, mesmo tocando a mesma música, nunca são iguais, os sons não são iguais.” E este não foi igual. Essa incorporação cria um som novo. Cada tecla parece abrir possibilidades que não existiam em Março.
Em Mário Laginha há um domínio absoluto da melodia. O controlo de volume do som, o tratamento da nota e o jogo de pedal são irrepreensíveis. “Eu já me sinto mais dentro da música. Tenho tocado e isso, aliás, até me dá gozo. Quando uma pessoa não tem que se preocupar quando vai tocar, começa a ser uma sensação de maior liberdade e isso é bom para tocar.” É essa a sensação que cai do palco. Sem esquemas previsíveis, a liberdade, o desprendimento e a naturalidade atravessaram todo o concerto.
No tema “A ROTINA TEM QUALQUER COISA DE ETERNIDADE”, o pianista mostrou que a mesma nota pode ser tocada até ao infinito sem nos cansar. Da mesma forma que não nos cansa a beleza de um céu sempre azul. De algum modo, este tema conversa conceptualmente com essa ideia de retorno e de casa. Foi, mais uma vez, nessa viagem atlântica entre o Brasil (“FUGATO BAIÃO”), Açores (“SANTO AMARO”) e Cabo Verde (“BATUQUE”) que nos sentimos sem pé e submersos na imensidão oceânica. Nessa afinidade misteriosa entre as notas.
“BATUQUE” capta a essência das batucadeiras. Constrói-se de um dinamismo rítmico impressionante e transforma o piano em instrumento de percussão. Impele-nos ao movimento, à dança. É um tema extraordinário. A subtileza com que os seus dedos terminavam as músicas deixava-nos familiarizados com o silêncio. A estética de Mário Laginha nasce algures entre Bill Evans e Keith Jarrett mas a sua verdadeira assinatura surge quando integra elementos da música clássica, do fado e dos ritmos atlânticos.
O público levantou-se para o aplaudir demoradamente. Mário agradeceu, saiu de cena e voltou para um último tema. “Tanto espaço”, do álbum de 2007 Espaço, apareceu reconstruído e, naturalmente, sem bateria e contrabaixo. Foi nesse preciso momento que assentou a poeira dos batuques, sentimos o espírito regressar ao corpo e os pensamentos voltaram. No final, os discos e os livros de pautas esgotaram na mesa de venda e Laginha colocou-se ao alcance do seu público para conversas, autógrafos e fotografias.