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Fotografia: SARA HAWK
Publicado a: 16/07/2026

Um dos melhores concertos de hip hop com banda a que já assistimos.

Loyle Carner no Ageas Cooljazz’26: quando o rap é vulnerável

Fotografia: SARA HAWK
Publicado a: 16/07/2026

O rap sempre teve e continua a ter, ao longo das suas várias eras e sub-movimentos, múltiplas facetas como parte de um universo artístico em constante expansão. Numa época sobretudo marcada por letras que afirmam o estatuto, o poder ou a dureza do MC — e que continue a haver espaço para tal, até porque também pode ser libertador, motivacional e quiçá político —, por sons pujantes, densos e preenchidos, Loyle Carner oferece precisamente o oposto ao agarrar-se às virtudes da vulnerabilidade, da humildade e da contenção.

Embora o Hipódromo Manuel Possolo, em Cascais, estivesse a meio gás — o que não é propriamente surpreendente, tendo em conta a dimensão do local, do público português e o facto de Carner não ser um gigante artista de massas — saímos do recinto com a sensação de termos assistido a um dos melhores (e mais acarinhados) concertos do ano. 

Acompanhado por uma talentosa banda onde militam a portuguesa Raquel Martins (guitarra), Richard Spaven (bateria), Finn Carter (teclas), Aviram Barath (sintetizadores) e Yves Fernandez (baixo), Loyle Carner até poderia sentir-se frustrado com a derrota da selecção nacional inglesa frente à equipa da Argentina nas meias-finais do Mundial de futebol, jogo que tinha acabado de acontecer e que o próprio evocou ao longo da noite, mas trouxe para cima do palco um banho de amor, generosidade e afecto.

Revelando estar há uma semana em Cascais, um dos sítios mais “bonitos, delicados e simples” em que já esteve, a energia de carinho entre artista e plateia era palpável. “Sempre que venho cá [a Portugal], sou surpreendido pelo vosso amor”, declarou durante o concerto. 

Com uma instrumentação orgânica e fluida (ideia sonora central no seu mais recente disco, hopefully !) que ainda assim não está demasiado distante do groove clássico do hip hop — o jazz rap nova-iorquino sempre foi uma referência associada a Loyle Carner, ainda que certamente haja influências britânicas determinantes, dos cantautores nacionais à spoken-word — foi, sem margem para dúvidas, um dos melhores concertos de rap com banda a que já assistimos. Aliás, nem o quereríamos de outra forma.

A banda, de tons jazzísticos e neo-soul, soa natural e perfeitamente harmonizada com o flow de Loyle Carner. Mais uma vez, a diferença: não há aqui um gesto de afirmar ou forçar uma postura performática. Loyle Carner rima como se estivesse a ter uma conversa, a desabafar com amigos, a escrever um diário. Isso é notório em disco, mas também se reflecte no palco. Obviamente, não é só a forma — as letras do rapper londrino, íntimas mas universais, incidem em temas essenciais e intrínsecos à condição humana mas que pouco aparecem retratados no rap contemporâneo.

Loyle Carner, muito naturalmente, escreve e rima sobre o mais importante da sua vida: a família, os filhos que ama, a mãe cuidadora, o padrasto que o criou e que partiu cedo demais, o pai biológico com que se reencontrou, a ansiedade e a saúde mental, as inquietudes da paternidade e da carreira artística, os desafios da vida moderna… Quando se fala da figura do rapper como poeta da sociedade contemporânea, Carner é um óptimo exemplo de um artesão da palavra que transforma pequenas histórias ou detalhes do quotidiano em grandes canções. E fá-lo da melhor (e única) maneira possível, que é sendo vulnerável, expondo as suas feridas mais profundas, as suas reflexões mais densas, os seus medos mais angustiantes, o que exige uma valente dose de coragem.

“Still”, que descreveu mesmo como a sua música “favorita”, foi a faixa que teve mais receio de lançar por tratar da ansiedade no contexto da masculinidade tóxica, escrita depois de muitas introspecções por não se rever no arquétipo masculino que era o padrão ao crescer. Aos 31 anos, Loyle Carner parece ter desconstruído uma infindável série de preceitos e atingido uma admirável maturidade. 

Em “Homerton”, o tema que tem como título o nome do hospital onde os filhos nasceram (e que motivou uma saudação ao NHS, o sistema nacional de saúde britânico), fala precisamente da sua prole. A interpretação de “Lion” foi o momento em que mais se comoveu e encolheu no palco, pedindo ao público — que acedeu — a acompanhá-lo nesta canção enternecedora que canta para os filhos e que escreveu para oferecer a uma artista que acabou por nunca lhe dar feedback. Afinal, era mesmo um tema para expandir o seu repertório e mostrar do que Loyle Carner (também) é feito. 

O pequeno encore, que pareceu genuinamente motivado pela ligação construída com a audiência ao longo de uma hora, mesmo que já o tenha repetido em actuações passadas, aconteceu com o artista sozinho em palco, já sem a sua banda, para declamar um poema introspectivo que se debruça sobre as adversidades da vida e a luta por as superar. Loyle Carner está claramente num óptimo caminho e a contribuir para encaminhar tantos outros pela mesma bonança. Nem sempre um excelente músico é uma excelente pessoa; e vice-versa. Neste caso, não temos qualquer dúvida.

A abertura por Ana Lua Caiano

Não tendo propriamente uma ligação musical evidente à obra de Loyle Carner — outros nomes mais aproximados poderiam ter estado na calha — Ana Lua Caiano é uma das artistas mais entusiasmantes a aparecer nos últimos anos na música portuguesa. Em palco, a cantautora-produtora, de referências de música tradicional e electrónica, também impressiona pela forma como manipula ao vivo a sua voz, grava as percussões e vai disparando o som das suas máquinas. É um verdadeiro one-woman-show.

Foi interpretando os temas que tem lançado nos últimos anos, sobretudo os do álbum Vou Ficar Neste Quadrado (2024), que tem sucessor prometido para breve. O primeiro avanço, desvendado recentemente e também tocado no Hipódromo Manuel Possolo, é “Uma Vida a Menos”, uma crítica particularmente directa — como quem incita uma revolução — à vida laboral contemporânea, e à falta de tempo livre e para o ócio, da sociedade capitalista moderna. Musicalmente, Ana Lua Caiano mantém o registo, numa canção com um piano cortante, os uivos das gaitas de foles, percussões electrónicas possantes e experimentação no que toca à voz e aos coros. Aguardamos ansiosamente pelo disco.

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