À partida, é de todo curioso que Bardino apontem no álbum Memórias da Pedra Mãe (Jazzego) a registos únicos da geologia portuguesa — caso das Pedras Parideiras da Serra da Freita (Arouca) — e tragam por inerência essa sua carga geológico-musical até Loulé. Entre os dois territórios há uma figura patrimonial socio-natural em comum. Tanto Arouca como Loulé são zonas inscritas na figura de geoparques — Arouca Geopark e Geoparque Algarvensis, respectivamente. Isto a propósito de fazer pontes inesperadas entre a música, a memória, o chão que pisamos e a paisagem, novos (velhos) rumos em perspectiva. Bardino como trio de vanguarda nos novos campos do jazz são: Rui Martins nos teclados e programação, Nuno Flugêncio na bateria e Diogo Silva no baixo. Referem no seu longa-duração “a importância da memória colectiva para a coesão e a identidade das comunidades, e para o processo de criação de novas memórias, um processo que é simultaneamente natural e conflituoso, uma vez que reflete uma tensão entre o passado, o presente e o futuro”. Fica assumido ao que vêm.
A vinda ao Auditório do Solar da Música Nova, no ciclo “Ilustres Desconhecidos”, neste último dia de Maio (31), revela-se de redobradas afirmações. Esta (nova) sala acústica da cidade de Loulé surge adoçada ao vetusto Solar Azevedo e Silva, de outrora funções de casa burguesa de gentes da cidade. Hoje, e bem recuperado, é a casa do ensino e formação musical local — Conservatório de Música Francisco Rosado. O Auditório associado é uma sala para apresentação de música dos novos, e nela a nova também se faz representar, assumido como um espaço polivalente, com uma utilização multiusos. O Cineteatro Louletano, como programador do espaço, faz-lhe casa para propostas, e justamente, da nova música.
Indo a essa primeira compilação Granito (Jazzego, 2022), com que a editora portuense Jazzego mostrava a diversidade que marca os novos campos do (velho) jazz, “pedrada no charco da nova música portuguesa” — como descrevem —, encontramos Bardino com “Kintsugi”. Passando ao segundo volume em Granito II (2025), renovam-se nomes na mostra, e entre eles está o saxofonista norte-americano Brian Blaker, radicado em Portugal e que com “Steadfast”, aponta a uma “reflexão sobre adaptação e resiliência” como melhor a apresenta. Ora Bardino aterram neste ciclo “Ilustres Desconhecidos” empoderados na passagem de trio a quarteto, convidando Blaker para os saxofones soprano e tenor.
Blaker havia entrado em Memórias da Pedra Mãe num par de temas, em “Memória” e “Balck Mica”. No palco do Auditório do Solar, a sua presença é em todos os temas, alternando o sopro entre o tenor — onde mais frequentemente o vemos actuar no seio da Orquestra de Jazz de Espinho — e o soprano. Há um frente-a-frente no palco, entre os teclados e a bateria, entre Martins e Flugêncio, um sinal de que é sobretudo dessas mãos que a memória se projecta renovada neste presente. O baixo de Silva demonstra-se como fio (bem robusto) condutor. A Blaker cabe o lirismo dos sopros e mesmo um pulsar cíclico, trazendo cadência dançante, mesmo antes que essa matriz seja impressa nas baquetas.
Começo com “Bernardo”, tema dos 10 que inscreveram na banda sonora para A Traição do Padre Martinho da realizadora Ana Cunha, uma das histórias do projecto RTP “Contado por Mulheres”. Uma sonoridade que remete para o longínquo, no tempo e espaço, ajustando ao filme que parte do texto de Bernardo Santareno, e que se desenrola numa aldeia portuguesa nos anos 60, quando um jovem padre é expulso pelo patriarcado depois de tomar o partido da sua população. E o grande piano arremetido no canto do palco teria sido tão bem empregue nesta peça… um primeiro harpejo da sonoridade Bardino, num confronto entre o outrora e o devir.
Em “Giesta”, Blaker assume o soprano para o seu sopro primordial, e nesse sulcar insistente com que arranca o tema, navega-se como que entre ramagens de florações amarelas. É como se víssemos uma alcateia de lobos a mordiscar as flores — imagem por certo aqui imaginada mas que em tudo tem de real em giestais do Gerês. Porque esta música em Bardino remete para paisagens que nos tocam na ancestralidade, sem deixar de apontar ao desconhecido futuro. É na voz de Martins que melhor se entende o que nos querem transmitir nessa passagem por “O Semeador”. Tema em que se ouve que diz ter ouvido um cantar, que “o remoto lugar deve ser o tempo a gritar”. Essa toada entre adufes emulados e tilintares de novo jazz, que faz do ontem uma história trazida na urgência para o amanhã.
E porque Bardino não estão a cristalizar um passado ou menos ainda interessados em processos meramente etnomusicais, fazem da sua própria música um espaço efémero e mutável. Como prova disso, no final de 2025 editaram MPM Reimagined Vol. 1 (Jazzego). Uma reformulação, em modo de remisturas, dadas a outras mãos e mentes criativas. Uma delas foi ao australiano Alexander Flood, renomado baterista e que pegou em “Black Mica” e reinterpretou-a. Um jogo de vai e vem, que nem boomerang, para em palco voltarem “os donos” da música a fazer da remix a sua música novamente. Flood não estava na bateria — era Flugêncio —, mas era como se o quarteto virasse por um tema a quinteto. Bem dançáveis se tornaram as cadeiras do Auditório do Solar nesta matiné. Soube ao desprender mago das pedras paridas vindas das parideiras, e a mica preta a ficar colada (nas mãos).
Nesse EP de remisturas entram duas outras: “Giesta” com Lana Gasparøtti a assinar a odisseia dos sons tornados mais etéreos — a música de Bardino na ligação ao Algarve, como referiram — e “Punctum nº2” a cargo de Miguel Couto.
Para desfecho servem coalescidas “Memórias” e “Pedra Mãe”, temas de grande identidade deste trio (quarteto de palco) e que mesmo não havendo ali Minus & MRDolly, existiu um sopro em Blaker para debitar a voz omnipotente. Importa evocar-lhe as palavras como o MC deixou em disco — “Vivemos desta pedra mãe / comemos desta massa mãe / colhemos o que mora à superfície” — que ainda pairam em modo recordatório.