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Fotografia: Jorge Gomes
Publicado a: 02/06/2026

O conjunto belga que canta em português passou pelo Algarve a convite do MED.

Ão no Cineteatro Louletano: uma deliciosa amostra do que aí vem

Fotografia: Jorge Gomes
Publicado a: 02/06/2026

O concerto dos Ão encerrou o evento de apresentação da edição de 2026 do Festival MED, no Cineteatro Louletano, no passado dia 23 de Maio. Terminados os discursos, as homenagens e as revelações o pano subiu e acendeu-se o palco para a banda belga que canta em português. Abriram com “Me Condena” — primeiro tema do mais recente álbum Malandra — para nos estender a mão e convidar a partir. Um vínculo inicial que ali se estabeleceu e permaneceu inquebrável até à última nota. Brenda resgatou o português às suas origens moçambicanas e portuguesas como quem desvenda o segredo de um mapa antigo e guardado. 

O convite é feito ao corpo e à memória nele gravada pelas heranças cruzadas, com o amor e o desejo, que precedem a existência particular de cada um nós. Expõem-nos diante a fragilidade do tempo, dos gestos e dos actos para nos convencer a dançar, ou de outra beleza qualquer. A sonoridade africana — em “Sofrimento”, “Cinza”, “Mulher” — parecia surgir da percussão eclética e minimalista de Bert Peyffers, que sentada sobre um cajón tateava os pratos, mas também da mesa electrónica e dos sintetizadores de Jolan Decaestecker. 

Da guitarra, ora acústica ora eléctrica, de Siebe Chau, ou mesmo quando usava o baixo de pé, derivavam laivos latinos, um flamenco suave e, por vezes, pareciam aproximar-se da música brasileira. As raízes sonoras espalhavam-se e multiplicavam a cada canção. Ouvindo o disco é possível que nos escape alguma da dimensão corpórea do som novo e orgânico dos Ão com que nos deparamos ao vivo.

A crítica de João Mineiro, aqui no Rimas e Batidas, ao disco Malandra, desperta-nos para a “capacidade de fazer as canções falarem com verdade, num constante jogo de espelhos emocionais onde se decide partilhar o que fascina tanto quanto aquilo que assusta.” Esse jogo de espelhos emocionais, a verdade das canções e o fascínio pela coragem e o medo, afirmam-se na actuação ao vivo. Sobretudo nessa voz que contém multidões — whitmaniana — de Brenda Corijn. Da sua voz suave etérea e limpa, surgia, por vezes, a voz de um monstro acordado à força pelos fios eléctricos. Uma metamorfose permanente que se estendia pelos outros músicos — sempre insatisfeitos em manter uma só posição em palco ou tocar apenas um instrumento.

Parece ser precisamente a metamorfose — a necessidade de movimento — que é exaltada na dança de Brenda e na música dos Ão. Como se nos mostrassem um processo intimo, a história de influências e desvios que os guiaram até ao presente. A ideia de fusão não serve completamente a descrição da sua música, que parece fazer-se antes de afinidades e experimentação de vários “eus” que se agrupam sem diluições. Camadas sobre camadas. Corpo sobre espírito. Histórias sobre histórias que criam um novo chão comum, angustiante e alegre, anterior e futuro. É provavelmente aí que reside a novidade e a originalidade da banda. É ainda possível escutarmos ecos de um fado por entre as suas cordas vocais, despertados por uma certa dor ou forma de cantar.

O movimento incessante de dentro para fora, do individuo para o outro, da história para o futuro, é o que parecem demonstrar, como forma honesta e urgente de habitar o presente. Identidades que se aproximam sem se anularem. O assunto é sério, mas quase sempre desafiado pela malandrice cómica das palavras e a ousadia de Brenda Corijin. O deslocamento do centro ou a sua multiplicação permitiam ao público vários pontos de vista possíveis — vários eixos ou, em última análise, nenhum. O concerto terminou com aplausos em pé. Se a tradição se cumprir, poderemos voltar a vê-los no MED em 2027.


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