COLÓNIA CALÚNIA // [caixa]

[TEXTO] Rui Miguel Abreu

Qual é a cor do céu da boca de um Estrumpfe? A que soa um Bar Mitzvah em Auschwitz? Pah, pa pa pá.. dum da ta, scha da ta ta… Anda tanta gente preocupada com os recados que outra gente nem está assim tão interessada em receber que às vezes todos se esquecem que a arte precisa de quem não pense em mais nada a não ser nela mesma. Na arte, bem entendido. Na rima pela rima. Na ginástica verbal mesmo sem campeonato do mundo por perto e medalhas de ouro em jogo. Na batida pela batida, com samples que não adoçam o ouvido, nem abanam a anca, mas que se fazem de ruído que obriga a pensar, que desarruma o pensamento e faz comichão na pele do pescoço.

É essa a proposta da mais recente aventura com carimbo COLÓNIA CALÚNIA: Metamorfiko a deixar claro que a batida pode ser abrasiva e ainda assim musicalmente interessante e, até mais importante, ritmicamente desafiante; e Secta a escolher as palavras num momento em que abunda gente a falar merda à toa. As palavras são dele, mas é difícil não concordar. Sobretudo quando as palavras são embrulhadas em flows que procuram o espaço fora da caixa, tentando trocar as voltas ao familiar e investindo em fórmulas pouco testadas.

[caixa] exige atenção. Cospe na cara, chuta nos tomates, grita nos ouvidos. Não admite distracções. Não dá para ouvir a fazer o jantar ou enquanto se está de olhar perdido na janela que desenrola o caminho que falta para chegar a casa, ao sofá. Escutar no escuro, sem estímulos externos, é a melhor maneira de entrar neste labirinto de sons, de sílabas, de ideias, de nós de sentido, de pequenas torturas ao pensamento. Dói, mas é bom. Custa, mas é de borla.

São discos como [caixa] que nos obrigam a concluir que há vida (ou morte, ou sombra, ou lá o que é…) para lá do like e da visualização, para lá da playlist e do festival de Verão, para lá do que os outros putos do bairro bombam na coluna que é uma espécie de fogueira dos tempos modernos. A música que vive dessas coisas – dos likes e das visualizações, que existe nas colunas e nos grandes palcos – pode ser incrível, mas existe (subsiste?…) muito presa a um momento, a uma prática social. É sazonal, se quiserem. Mas esta música que Metamorfiko e Secta nos oferecem (presente envenenado, é certo, mas saboroso na mesma…) só faz sentido neste plano mano a mano. São eles e nós, os ouvintes que decidam arriscar e que façam play na coisa. São eles e o nosso dedo indicador a fazer rewind no player de forma a que o nosso cérebro atordoado consiga descodificar mais uma multie, mais um murro no estômago da nossa cultura pobre, mais um sample carregado de névoa digital, só porque assim faz mais (ou menos…) sentido.

 



Em “ɅTVTɅ”, Secta até dispensa a cama de pregos de Metamorfiko enquanto pergunta se “hip hop ‘tá morto ou vivo” (ou será “morto ao vivo”?…) e garante que “não queria tar na tua pele” porque “é murder que coleccionou um mar de facas que roubou a turcos”. O que é que isto tudo quer dizer? O que é que um Rothko quer dizer? O que é que o John Cage quer dizer? O que significa uma pancada de Vhils no estuque de uma parede? Um destruidor de documentos na ponta de um Banksy? Nem tudo tem que ter uma “mensagem”. Ou o meio pode ser a mensagem, como dizia o senhor Marshall (não é o dos amplificadores). E a mensagem aqui parece-me óbvia: nada de mal em quem faz pelo bairro, pelos likes e pelo cachet, nada de mal em quem faz porque quer pagar a renda, meter os filhos no colégio ou pendurar ouro no pescoço. Mas também é fixe fazer porque sim, porque a arte pede. Ou até mesmo quando ela não pede, mas há quem queira oferecer. O paraíso também nasce da boa vontade. Ou das enxaquecas. Ainda bem que existe quem queira perder noites para que nós possamos ganhar luz. Ou sombra, porque esta [caixa] é pouco iluminada.

Porque, porra, estes discos são injecções. Directas ao sistema nervoso central. Ou periférico. Mas nervoso decerto como o sacana que se deixa prender no cordão “Umbilical” em que Secta garante que o que diz “não se escreve em cima do joelho”, com Nerve a responder que fica “pobretanas uma semana após o gig”. Viver não custa, mas custa viver de acordo com o que se quer mesmo fazer. L-Ali também nos espeta uma “Caneta” no cérebro (e é das de aparo) feita de “dicas pesadas”, blindada e capaz de furar mentes. Dói, mas é (mesmo) bom.

E na “esponja_c” é Tilt que faz flip flops no nosso discernimento enquanto joga ao lado de Secta por cima de um beat que depois do intervalo faz entrar em cena um break eterno do grande “Nautilus” que o Bob nos ofereceu em ’74, mesmo tempo da revolução. Tão bonito, porra. A cidade gentrificada não se consegue evitar. É o que é. Por isso às vezes circular pelos subterrâneos é mesmo a melhor maneira de nos reencontrarmos. Nem sempre ser “enterrado vivo” é mau, como o Secta explica no “Caixão”.

Este é o melhor disco do ano que quase ninguém vai ouvir. Mas a árvore que cai na floresta mesmo sem alguém por perto para ouvir a queda também rende uma boa fogueira se houver quem lhe chegue um fósforo… é só abrir a [caixa].

 


Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
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