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Fotografia: Letícia Diniz
Publicado a: 01/06/2026

Um novo ensemble de quatro “griots”.

Black Earth SWAY no Teatro do Bairro Alto: entre nós, a esperança

Fotografia: Letícia Diniz
Publicado a: 01/06/2026

“A realidade conhecida (dos factos frios e concretos, do que se sabe) é considerada ‘superior’ ao mistério (o imensurável, desconhecido); a lógica é considerada ‘superior’ à emoção/intuição; a religião e a espiritualidade são consideradas ‘inferiores’ à ciência”, citação da ampla e representativa visão e pensamento de Nicole Mitchell no seu livro-manifesto The Mandorla Letters. Nicole que em 2022 refez dos anteriores ensembles Black Earth o novo SWAY, num balanceado e representativo agrupamento de vozes e músicas do negro feminino. Colectivo que reune, para além de Mitchell na flauta e electrónica, Coco Elysses no diddley bow — lá iremos mais adiante — e nas congas; JoVia Armstrong no cajon, pratos e electrónica; e Zahili Gonzales Zamora no piano e sintetizador. 

A estreia nacional aconteceu no passado dia 28 de Maio no Teatro do Bairro Alto (TBA), que na entrada, em tons liláses, assume uma frase em propósito, como que anunciando uma peça em cena, ou um filme em exibição — “A possível alegria de cuidar em conjunto”. Um espaço que recebe também outros e outras que vêm para cuidar, procurando nisso mais quem. Tudo conjugado quando “Savvy” é o primeiro dos temas de SWAY no chão palco, precisamente apresentado como dedicado e narrado acerca da neurodivergência. “Sintam-se todos eles e elas incluídos” lidera a palavra Coco Elysses. Ela torna-se o primeiro manifesto em modo “griot” a contar a história. Como nos havia contado Mitchell em entrevista, em SWAY criam-se novas mitologias, do passado ao futuro, que se as tornem capazes neste presente. Elysses tem dois poderes: o da voz e o do instrumento de uma só corda — diddley bow, um cordofone de uma corda só, amplificado por uma lata. Um rudimento musical provindo da costa ocidental africana e encontrado junto das comunidades escravas do sul dos estados-unidos, nas décadas de 1930, sobretudo utilizado por crianças. O diddley bow de Coco é vistosíssimo, ornamentações coloridas na caixa de ressonância fazem-lhe aumentar o poder, escondendo bem a carga de miséria social a que esteve (está) associado. Mas este tema primeiro de SWAY faz-nos pensar nos exemplos bem próximos de artistas neurodivergentes na música: Cremalheira do Apocalipse (de Rio Tinto), Ligados às Máquinas ou 5ª Punkada (de Coimbra) ou ainda A Viagem d’Os Heróis Indianos Romanos Africanos (da Associação Nós, no Barreiro). O que importa é incluir, não apartar. E fazer em conjunto e escutar de perto, dando valor, sabendo integrar essas outras visões — há lugares e outros mundos ínfimos neste que vamos habitando juntos. O som do diddley bow mostra-se tão a preceito, pejado de efeitos no pedal de wah-wah.

O palco-chão do TBA fica-lhe bem. Não há pedestais, nem lugares de primazia em relação à plateia. É até por isso mesmo que após poucos temas decorridos do concerto pedem para terem mais luz — não de palco, mas para verem melhor para quem comunicam. Já a música havia passado por uma rumba tomada por notas azuis e lampejos de um flautismo tão ao jeito de Mitchell. E logo de seguida trouxe uma conjugação densa e luminosa vinda do teclado sobre o piano tocado por Zahili. Uma sonoridade acrescida pela flauta e pelo cordofone, em modo surrealista, trabalhado em pedais. É o momento de JoVia ser a “griot” em funções, numa contadora de histórias em voz modelada e de efeito robotizado — fazendo recordar no estilo esse verão de 2022, quando Damon Locks esteve imbuído do espírito de William Burroughs na palavra da Exploding Star Orchestra de Rob Mazurek. Uma mão na baqueta dos metais e outra no cajón, a voz debitando “again, again, and again music”, num modo de present tense, em alternativa à mitologia dessoutro tempo — tendente à glorificação de um passado tantas vezes feito de miséria humana. Aqui reinventa-se um presente, apelando ao futuro, alicerçado na esperança — afirmando “I am a music witch”.

Uma presença em concerto que se recebe como um passeio a pedal pelas avenidas — daqueles em que se vai de peito feito ao presente, “Quando o amor é bom / Anda de bicicleta de mãos na cabeça e pés no guidon” como nos canta A garota não. Quem aqui nos canta, dizendo sobre a história de um  rapaz na sua volta de bicicleta contada à sua mãe, é de novo Coco, desta feita entre um par de congas. Um todo servido com um tapete de base bluesiano — “Do ride! Do ride!”, força nos pedais. E quando se sente a presença metafísica de alguém? É a isso que se refere Nicole para apresentar “Black Butterfly”, tema sobre o amor presente a uma pessoa — embora não em presença física — que está por perto. A flauta espacializa o tempo, esvoaça como num bater de asas de borboleta. E sob a luz de um dos projectores há mesmo uma qualquer entidade alada a mostrar a sua presença. Um tema swingado, projectado sob a voz frágil, mas no efeito é poderosa. “Thank you for being you / Thank you / for being free / Free, free!” remata Nicole como a quarta voz “griot”. 

Zahili vira pianista “griot” em “Lighthouse”, acerca de uma lição que se aprende de uma desgosto, de um coração partido. Nele habita um cajon que se desprende junto a uma flauta inter-galáctica e que chama a um coro que se ensaia em tempo-real na plateia. Nicole modela o som da flauta através dos comandos de um telemóvel ao passo que há um lamelofone-kalimba nas mãos de Coco a perfumar o ar. Passos de magas a ligarem-nos ao que se escuta em seguida, “she saying…”, para melhor nos darmos conta que delas há um saber em curso “we build foundations”, referem a uma só voz, entre toadas de um acid jazz onde o diddley bow foi preponderante. 

Tal como nos havia dito previamente Nicole foi cada música a trazer as suas próprias composições para o SWAY, num ambiente muito mais livre. Em Black Earth SWAY sabem-se estabelecer diálogos onde até se prescinde da palavra, como quiseram mostrar ao voltar à cena para um derradeiro tema. Todo ele instrumental, em improviso, em que entre nós e as palavras se deixou um rasto de esperança para usar nos dias que correm, e que nos fazem correr atrás deles. Vida longa a SWAY!


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