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Fotografia: Direitos Reservados
Publicado a: 21/05/2026

Uma voz entre quatro imprescindíveis.

Nicole Mitchell de Black Earth SWAY: “Criamos novas mitologias, do passado ao futuro”

Fotografia: Direitos Reservados
Publicado a: 21/05/2026

Se os tempos são de convulsão, às programações culturais cabem lugares de palco, como respostas, a saber lidar como podem e convém aos dias que correm. Se em Braga se apresentam o duo feminista, entre a pianista e a voz griot em Eve Risser e Naïny Diabaté, não menos marcante e impactante é a vinda do colectivo feminino Black Earth SWAY no dia 28 (19h30) ao chão do Teatro do Bairro Alto para se apresentarem entre nós e as palavras — poderosas, pois então. As vozes griot estão a chegar. 

Nicole Mitchell é uma das quatro, membro inventivo do colectivo como a última formulação dos seus ensembles Black Earth. Do novo grupo com a intenção de explorar o “Afro-Folk-Futurismo”, conta-nos Mitchell que ao contrário dos anteriores, em SWAY cada música foi convidada a trazer as suas próprias composições. Trata-se de um verdadeiro colectivo, no fazer e no trazer autoral. Mitchell que em 2022 fez sair The Mandorla Letters, um livro-manifesto, novela especulativa negra, que explora a desigualdade, os legados musicais do jazz, a música criativa e a colaboração intercultural. Um reivindicar de uma sociedade alternativa que rompe com os binários, as hierarquias e as noções ocidentais de progresso. Prestando homenagem a artistas inspiradoras, em modo guia para uma sobrevivência coletiva integra e respeitadora. 

Nicole Mitchell é uma voz preponderante na leitura deste presente, mas sobretudo e no que mais interessa, capaz de emitir luz como um farol que nos dá pistas para como seguir viagem, de com a   integridade “tem de passar a fazer parte da equação daqui para a frente, se quisermos sobreviver”, como nos fala em entrevista.



Em 2022 tivemos a dupla oportunidade de a ver e ouvir em palcos portugueses. Primeiro no verão em Lisboa, para o Jazz da Gulbenkian ao lado de Moor Mother e com ela a sussurrar “we must remember…”, depois a solo num final de tarde naquele museu em Coimbra, para os Encontros de Jazz, havia um cheiro a grelhados no ar e nos contava que estava quase para ser lançado o seu livro The Mandorla Letters. Podemos começar por aí? Por esse marco contido nessa obra?

Claro. Lembro-me perfeitamente do meu concerto em Coimbra, quando cantei “I smell BBQ!” Foi um espetáculo divertido! Sim, o meu primeiro livro The Mandorla Letters, foi lançado em Novembro de 2022. É um livro com letras roxas que nos incentiva a dar asas à imaginação para co-criarmos um futuro em que o avanço tecnológico tenha como objectivo melhorar o bem-estar humano e a coexistência com a natureza. O meu livro convida-nos, na verdade, a repensar a questão “O que é o progresso?”, pois o avanço motivado pela ganância não é avanço. Convida-nos a considerar a Terra como uma parceira sagrada, e não como uma mercadoria. 

Mesmo com todo o empenho reivindicativo de muitos, ainda assim o mundo ficou mais agreste e asfixiante desde então para cá. Mas temos de continuar a lutar e esse será sempre um reduto para a arte das palavras e da música. É mesmo o que nos resta?

O colonialismo da Inteligência Artificial está agora a acelerar a um ritmo vertiginoso, sem qualquer responsabilização pelas consequências para as comunidades, a terra ou a energia. A humanidade encontra-se numa encruzilhada: ou ruma à autodestruição, ou ruma ao despertar. A escolha é nossa. A integridade tem de passar a fazer parte da equação daqui para a frente, se quisermos sobreviver. A música e a arte são poderosas, porque tudo isto tem a ver com cultura. Podemos optar por não aceitar a cultura que nos está a ser imposta — uma cultura do “Nós contra Eles”. Podemos optar por uma cultura de solidariedade. A decisão é nossa. A música e a arte podem transmitir essa mensagem e influenciar a cultura.

As palavras e a poesia sempre a acompanharam. E nesse mesmo 2022 estava recém-formado este novo colectivo Black Earth SWAY que a traz de volta. E há uma continuidade com o Black Earth Ensemble que existiu previamente. Pelo meio ainda houve uma redução para quarteto em Black Earth Strings. O que há de novo na reformulação do seu Black Earth? Um foco definitivo no poder feminino e griot?

[risos] Sim, existem várias versões do Black Earth. Na verdade, não poderia ser mais directa agora, já que também estou a cultivar a terra! O Black Earth Ensemble sempre foi um grupo com instrumentação e formação variáveis. O Black Earth Strings era um conjunto mais estável, e o SWAY é um novo grupo com a intenção de explorar o “Afro-Folk-Futurismo”. Criamos novas mitologias, do passado ao futuro, e abraçamos a irmandade e a liberdade de expressão. Ao contrário dos meus outros grupos, convido cada música a trazer as suas próprias composições para o SWAY. É um ambiente muito mais livre. Não é tão estruturado. 

E há essa mesma afirmação griot que já escutamos em Bamako * Chicago Sound System com o tocador de kora Ballaké Sissoko. A importância de contadores de histórias é marcante. Mesmo para muitos de nós fora dessa cultural tão ancestral. Onde fica esse fascínio que a torna tão atractiva na estética musical e das palavras?

Nós, seres humanos, somos seres de histórias. Cada um de nós vive através das histórias que contamos a nós próprios sobre o que é a vida e quem somos. Mas também temos a liberdade de mudar essas histórias e criar outras novas. As histórias ajudam-nos a conhecer o nosso passado e a moldar o nosso futuro. A tradição dos griots na África Ocidental tem desempenhado um papel fundamental na preservação do orgulho e da memória de uma comunidade. Em Bamako Chicago, enquanto grupo composto por afro-americanos e malianos, podemos partilhar histórias para nos conhecermos melhor e construir novas amizades. Colaboração intercultural.

Histórias tal como em “Dream swimma”, quando escutamos “We build new dimensions out of our disparity / Taking utopic vision to stretch reality”. Vão directas ao núcleo da mensagem. É esse o lugar e a função primordial das palavras em SWAY?

Concordo com isso, sim!

Depois, ou ao mesmo tempo, há o poder da instrumentação utilizada pelas quatro. Sobretudo conduzidas pela sonoridade vinda do didley bow de Coco Elysses e pelo cajon de JoVia Armstrong. Pode-nos falar um pouco mais da junção e escolha da vossa instrumentação?

Fiquei fascinada com o didley bow da Coco! Twang twang twang! Tem uma história incrível como instrumento afro-americano original, mas também tem origens em África. Leva-nos de volta à vida rural do Sul, mas a Coco transporta-o para o futuro com efeitos e influências da guitarra eléctrica. Queria destacar o talento da Coco como contadora de histórias, actriz, vocalista e com o seu didley bow. Na maioria das situações musicais, ela toca percussão, por isso este foi um papel novo para ela. Trabalho com a JoVia há mais de vinte anos e ela é a minha percussionista preferida, por isso foi uma escolha óbvia. A Alexis Lombre foi a pianista original do grupo. Ela era uma das mais recentes integrantes da AACM quando começámos, e fiquei entusiasmado por poder também destacar o seu talento. Estamos entusiasmadas por dar as boas-vindas à Zahili ao SWAY, no piano. Conhecemo-la no Festival de Jazz do Panamá há alguns anos. Ela traz consigo outra dimensão de criatividade com os seus ritmos de inspiração cubana.

Precisamente, e porque Black Earth SWAY é um ensemble totalmente BIPOC [acrónimo para Black, Indigenous, People of Color]. Como vê que em muitos contextos de jazz na Europa — e claro, Portugal não é mesmo nada excepção — onde há tanto cruzamento e influência com culturas africanas continue a haver uma quase supremacia branca, tanto nos alunos como mais tarde em músicos?

Não creio que tenha competência para falar sobre como isso acontece nos círculos de jazz na Europa, mas nos EUA há razões claras. As nossas escolas para jovens são segregadas e, em muitos casos, os alunos negros não têm acesso a programas de música. Por isso, não têm a oportunidade de aprender a tocar um instrumento, muito menos de tocar jazz. Felizmente, há algumas excepções. Tenho um amigo que começou a tocar aos 21 anos, porque só nessa altura é que teve contacto com a música. Ainda assim, têm sucesso, mas a maioria das pessoas pensaria que já seria tarde demais. Tenho outros amigos que começaram a aprender piano desenhando as teclas e fingindo que estavam a praticar, porque, no início não tinham acesso a um teclado. Ambos são agora muito bem-sucedidos, mas, mais uma vez isso é raro e requer muita paixão quando as circunstâncias estão contra nós.

BE SWAY é mais um poderoso ensemble surgido da lendária Association for the Advancement of Creative Musicians (AACM). Diria que quase já nem precisamos de evocar a importância The Art Ensemble of Chicago para para falar do valor da AACM, quando num passado bem mais recente já de lá emergiram tão vitais ensembles. Qual continua a ser o fundamento de tamanha vitalidade da associação?

A AACM tem tudo a ver com abraçar a diversidade nas ideias musicais. Cada compositor da AACM, seja George Lewis, Henry Threadgill, Renee Baker, Tomeka Reid, Ed Wilkerson, Dee Alexander, Douglas Ewart, Amina Claudine Meyers ou Roscoe Mitchell — todos têm a sua própria visão e a sua própria linguagem musical. É uma plataforma que incentiva a investigação criativa e a experimentação. Enquanto continuarmos a fazer música, ela vai perdurar por muito tempo!


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