Solange // When I Get Home

[TEXTO] Pedro João Santos

A 3 de Agosto de 1995, o hip hop do Sul dos EUA teve um ponto de viragem: assumiu o seu valor perante o elitismo da Costa Este, e foram os Outkast a falar ao megafone. A cidade de Nova Iorque acolheu, no Madison Square Garden, a cerimónia dos prémios The Source (a revista dos cobiçados Five Mics, “troféu” que o duo recebeu em 1998 com o álbum Aquemini), capturando a tensão entre os seus MCs e os territórios que começavam a fragmentar o seu monopólio cultural. Vindos de Atlanta, André 3000 e Big Boi subiram ao palco do para receber o prémio de revelação do ano; uma plateia descrente cumprimentou-os com ensurdecedores apupos. Saturados, deixaram-lhes uma mensagem imortal, a que deram corpo na obra-prima ATLiens: “O Sul tem algo a dizer”.

Estas palavras tiveram eco por todo o país, que vindicou o dinamismo de uma região injustiçada, de Atlanta ao Louisiana, da Florida ao Tennessee, passando pelo Texas. Em Houston, a maior cidade desse estado, subverteu-se o significado desse dinamismo: é este o berço de DJ Screw e a sua música, o travão ao acelerador do hip hop, na qual se retardava a velocidade dos clássicos até se tornarem letárgicos, repetindo segmentos vocais para despertar novos significados — encontrando coisas novas, latentes, sempre pela via do som — e activando algo de psicotrópico neles. A técnica do chopped and screwed foi uma revolução que perdura — recentemente incorporada na banda sonora de Moonlight, ou aplicada por OG Ron C e The Chopstars a novos lançamentos, como quando Drunk de Thundercat foi transformado em Drank, esperta referência à purple drank, da qual Screw sofreu uma overdose fatal em 2000, e cujo consumo muitos diziam ser imprescindível para aproveitar o som, algo que o seu inventor descredibilizou. Num discurso dominado por DJ Screw, Houston teve muito a dizer. Décadas depois, Solange assume-se herdeira desta tradição, mas também agente da sua continuação, e faz questão de retomar a conversa.

Em 2016, após dois discos caídos em desuso e um EP fulminante, a artista, natural de Houston, irrompeu pela discussão cultural com a sobreposição de história e convalescência. “Now, we come here as slaves, but we going out as royalty, and able to show that we are truly the chosen ones”: as palavras de Master P punham o ponto final à jornada de milhares de vidas que Solange sintetiza em A Seat at the Table, pela identidade e história negras. É quase intrusivo ouvir e repetir a exposição de dores que muitos de nós nunca sentiremos — quando não há lugar senão o banco de trás, posição incomum para os vencedores na lotaria do privilégio. 

Para esses e para todos, a cantora e compositora falava uma linguagem simples, ao sondar um corpo cansado, maculado por tantos toques, beliscões, agressões, tanta pressão derivante dos outros e, eventualmente, das suas próprias nervuras. Tudo isto e o diagnóstico de um país entorpecido à injustiça racial podiam ter sido filtrados em áspera ressonância, mas as lembranças do seu sacrifício não tinham em vista a auto-flagelação (nem fazer um espectáculo para quem nunca a compreenderá totalmente). Exorcizar o mal foi, para Solange, pensar a luz que o processo pode reverter para toda uma comunidade, num desenho beato, franco. E que não suprime o som do esquema: frequências de voz régias, piano subtil, pulso moderado, ondas cujas propriedades curativas terão de ser estudadas um dia. “…the chosen ones” é o despertar agridoce dessa bolha de luz que terá feito tantos ultrapassar parte do medo, chegar mais perto da justiça, para uma realidade que continua a pôr essas vozes em surdina. A grande luta prolonga-se.

Passados dois anos, Solange encontra um novo centro de gravidade em si mesma. Larga a sua mão da do ouvinte, e sente o seu próprio toque. Recorda a sua história, revisita as suas memórias. Reinicia a viagem e define como ponto de partida as suas coordenadas, o seu apetite, o seu tacto.

Talvez essa recalibração pessoal possa explicar as primeiras reacções a When I Get Home. O alvoroço suscitado pela sua chegada rapidamente trouxe exaltação, paciência e desilusão, mas sobretudo trouxe algo mais consentâneo com o material em mãos: a reflexão, sintoma de um bom choque. É isso que acontece quando se rejeita repetir uma fórmula e se traz algo novo à mesa — para os mais esquecidos, é o mesmo que aconteceu quando A Seat at the Table veio baralhar quem queria congelar Solange no híbrido pop-funk de True. Isto é difícil de entender num primeiro encontro que poderá ser um balde de água fria.

A construção de When I Get Home encadeia uma série de transferências não imediatas, devolvendo as âncoras de A Seat at the Table e retribuindo coisas que talvez não sejam dados adquiridos, mas às quais devemos estar abertos. O apego à brandura e disciplina vocal do antecessor pode toldar o hipnotismo deste LP. Procurar a imanência dos refrões de “Cranes in the Sky” ou “Junie” é tapar os olhos à luxúria dos compassos de “Way to the Show” ou “Dreams”, pode resultar em ignorar “Time (is)”, uma meditação arrepiante, suspensa no ar, que não nos oferece nada a que nos possamos agarrar, só uma vibe. Finalmente, valorizar letras concretas implica perder a verdadeira mensagem, aquela que Solange labora nos grooves



Essa natureza pouco escorreita, menos linear, sustenta-se no sonoro — dificilmente categorizado, mas nunca disforme, como um stream of consciousness não verbal. Lento como se DJ Screw tivesse posto as suas mãos nestas músicas, a discorrer, a divagar, esteja o tempo a correr ou não. Sem compromissos ou egos, como dito pelo crítico Josh Winters: “[O álbum] não está sequer a colocar um desafio — Solange está apenas a perguntar-te se consegues vibrar com ela, e se não consegues, então simplesmente não consegues. Talvez a questão seja se precisas ou não de reflectir sobre ti mesmo.”

O que Solange propõe aqui é música plural e retumbante, esparsa e rica, na intersecção entre o free jazz de Sun Ra e o hip hop da sua terra natal. Como provado pelas comparações accionadas por vários escritores, When I Get Home não é um sistema fechado. A constelação de velhos e novos clássicos em que é incluído — e que tem uma conclusão lógica fácil — inclui discos como ATLiens, Some Rap Songs de Earl Sweatshirt (que aparece em “Dreams”) e qualquer uma das mixtapes de DJ Screw, com os quais partilha o orgulho por Houston e o som de gravidade zero. 

O ponto de referência mais expressivo é uma das pedras-de-toque para Solange: Stevie Wonder’s Journey Through ‘The Secret Life of Plants’. Teve origem como banda sonora de um documentário de 1979 que entretanto eclipsou, mas continua um tesouro escondido na louvada discografia de Wonder.  Uma expedição deliciosamente estranha, o álbum vence por perder consciência do tempo, explorar texturas por vezes gentis (“Outside My Window”, “Power Flower”) ou sombrias (a austera “Ecclesiastes”, a mística “Voyage to India”) num imaginário a céu aberto. Não é difícil perceber o porquê do fracasso aquando do lançamento: mesmo os (poucos) grandes hinos que são imediatos à primeira escuta têm tonalidades alucinatórias, como as divagações de um eremita (que calhou ser também mestre do órgão) estimulado pelas visões de uma flora particularmente viva.

Em When I Get Home, as visões de Solange são outras, menos poéticas, mais sentidas — são sonhos de uma Houston transiente, imaterial, mas gloriosamente real, reconstruída numa névoa, em que músicas fluem sem cerimónia de uma para a outra, onde a candy paint de um Rolls Royce se mistura com as moradias da esquadrinhada Third Ward, onde a Florida Water desagua no late night da televisão pública do Texas que educa para a sexualidade feminina. Os pormenores pintam a vivência. 

E já não há um manifesto como “Don’t Touch My Hair”. A sua cor é herança, orgulho, glória, e não tem de ser negociada com ninguém; já se acabou a tolerância para tratados ou pedidos de compreensão. “Almeda” é a anti-concessão, é a peça central, que estremece como um motor, que canta felizmente aquilo que ninguém lhe pode tirar: “Brown skin, brown face / Brown leather, brown sugar / Brown leaves, brown keys / Brown zippers, brown face / Black skin, black braids”; “These are black-owned things / Black faith still can’t be washed away”. É propriedade sua, tal como as “black molasses” — o melaço, resultado da refinação do açúcar, corre lentamente. E o mesmo se pode dizer deste disco, que poderá ter sido cozinhado lentamente à imagem do melaço: viscoso, rico e doce.

Tal como Stevie Wonder, Solange arriscou seguir o seu próprio metrónomo, independentemente de quão lânguido, correndo o risco de ser engavetada — como tantos outros artistas negros que abrem um caminho mais íntimo depois de um momento imperial, como Lauryn Hill com MTV Unplugged 2.0. E, claro está, essa deve ser a última preocupação de Solange.

Decerto que o problema que muitos tiveram com The Secret Life of Plants se repete em When I Get Home: esperar que a experimentação seja uma forma sádica de aceder logo ao ouro, que embarcar na viagem terá no final recompensas melódicas e sucessivamente maiores. É óbvio que a hipótese está fundamentalmente errada. A viagem é em si a recompensa, um triunfo de várias faces, melodias, harmonias, modos, repetições, repetição como deleite, de segmentos expressivos, de curtas secções que concentram em si toda a matéria vital da canção e da vida de Solange, da negritude como naturalidade, poder, inebriação. Para além do tempo.

Tantos anos depois, o Sul continua a ter algo a dizer. E é uma mensagem que não pode ser descodificada numa entrevista, lida numa interpretação, ou anotada no Genius — só mesmo ouvida.


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