The Comet Is Coming // Trust In The Lifeforce Of The Deep Mystery

[TEXTO] Rui Miguel Abreu

Sim, é verdade: há um saxofone tenor (por vezes até um clarinete baixo…) solista ao longo das nove faixas do álbum que até sai com selo da Impulse!, a histórica casa que, como garantia Ashley Khan, Trane ergueu. Chegará isso, no entanto, para se classificar Trust In The Lifeforce Of The Deep Mystery, segundo álbum do trio The Comet Is Coming (o primeiro, Channel The Spirits, data de 2016 e foi lançado na Leaf), como um álbum de jazz? A questão só é relevante se quisermos entender o lugar deste trabalho num panorama mais vasto, num devir histórico mais longo. Porque, na verdade, boa parte do que o saxofonista King Shabaka (Shabaka Hutchings), o baterista Betamax (Maxwell Hallett) e o teclista Danalogue (Dan Leavers) aqui fazem pode, precisamente, ser entendido como uma tentativa de implodir géneros ou pelo menos as fronteiras que os separam.

Em entrevista ao Rimas e Batidas, Maxwell Hallett esclarecia o seu posicionamento sobre o jazz: “O jazz, para mim, está no presente, [e mesmo que procures] explorar o futuro, mergulhas no desconhecido e acho que isso será sempre refrescante. Mostra algo de uma ligação, que não envolve só os músicos: abarca toda a cultura e as pessoas, e para onde estão virados”. Resulta claro, destas palavras, que os membros de The Comet Is Coming entendem o jazz como parte de um momento e não como tesouro guardado numa qualquer redoma e como algo que precisa de se ligar com as pessoas que habitam e vivem neste momento e não com os fantasmas que possam ainda habitar as memórias de outros lugares. O Total Refreshment Centre de Londres não é o Blue Note, o Village Vanguard, o Cotton Club ou a Minton’s Playhouse de Nova Iorque. Que diabo, não é sequer o Ronnie Scott’s de outros tempos. É, isso sim, um dos espaços onde novos músicos têm encontrado novos públicos, um espaço de criação colectiva que funciona num antigo centro social, de portas abertas a quem queira entrar e onde o jazz divide espaço na programação com a cumbia, o reggae, a música africana ou diferentes tipologias electrónicas. Um espaço de benignas contaminações. O tipo de espaço onde The Comet Is Coming faz pleno sentido.

Na crítica que assina na mais recente Wire, Joseph Stannard, normalmente um tipo sensato e com extremo bom gosto, parece não encaixar da melhor maneira o facto desta já não ser uma cena secreta e resguardada de olhares mais amplos e da música que aí tem sido criada estar a atrair atenções crescentes. Com algum sarcasmo, Stannard usa nomes como os Yes, Muse, ou Mumford and Sons para tentar enquadrar o que acontece em Trust In the Lifeforce Of The Deep Mystery antes de rematar, parecendo acertar em cheio tanto no cravo como na ferradura, “não deixem que a inevitável aclamação mainstream obscureça a beleza e o engenho deste álbum; é suficientemente grande para todos”. Impossível não ler nessas entrelinhas alguma amargura vinda da mesma revista que ofereceu capa a Shabaka Hutchings em Fevereiro do ano passado e que fechou o balanço do calendário colocando o álbum Your Queen is a Reptile dos Sons of Kemet (outro dos projecto de Shabaka) no topo da sua lista de Melhores Lançamentos de 2018.

No fundo, questionar se isto é ou não jazz e desdenhar o alcance da música são gestos que se prendem com uma mesma ordem de ideias. Maxwell Hallett diz que este é um disco simples e transparente: “Acho que o disco é acessível, consegues entendê-lo; não há nada de assim tão complicado, é apenas um bold statement“. Mas o jazz, afinal de contas, é encarado por muitos como uma linguagem altamente codificada, arcana até, só entendida por iniciados. E quem já assistiu a concertos de artistas do lado mais “avançado” ou “livre” desta cultura no seu circuito tradicional compreenderá bem esse espírito de “clube” ou “sociedade secreta” que por vezes parece existir. Mas uma das atitudes que precisamente tem distinguido uma nova geração de artistas oriundos do jazz — e não apenas os ingleses, sendo justo nomear também nomes como os dos BadBadNotGood, Kamasi Washington, Robert Glasper, Terrace Martin, etc. – é, precisamente, a de um certo desligamento desse espírito de confraria ou academia que durante décadas garantiu a sobrevivência do género num circuito quase fechado, mas que parece já não fazer sentido nestes tempos. E Kamasi Washington a tocar com Kendrick Lamar, BadBadNotGood a fazerem discos com Ghostface Killah ou Ezra Collective a gravarem com Jorja Smith são apenas sinais do jazz, como defendia Maxwell Hallett, a viver no presente, por oposição a viver preso a uma qualquer ideia de autenticidade imposta pelo passado e pela história.

Por isso é que o cometa está a chegar: é que vem do futuro e não do passado. Mas, importante referir esse facto, no futuro também há bibliotecas e discotecas e memória. E por isso é que “Because the End is Really the Beginning”, tema de abertura, soa como uma espécie de fanfarra que, ao contrário do que sugere Jospeh Stannard, terá muito mais que ver com Alice Coltrane ou Sun Ra do que com os Yes, com o trio a fincar os pés em expansivo território cósmico, reclamando um posicionamento e uma identidade que depois se clarifica com o avançar do álbum.



Em 1982, Malcolm Clarke, um dos assalariados do BBC Radiophonic Workshop, contribuiu para a compilação Space Invaded – BBC Space Themes com a peça “The Comet is Coming”. Shabaka Hutchings ainda não era sequer nascido, mas ainda assim não deixa de ser sintomático que este trio prefira inscrever a sua identidade numa linhagem claramente britânica ao invés de procurar uma qualquer ligação aos astronautas jazz que do lado de lá do grande lago já professavam ligações a Saturno. É que, ainda que seja a vetusta Impulse! a dar a sua benção ao segundo ópus do trio, é no presente britânico (e, vá lá, californiano…) que se deve colocar este Trust In The Lifeforece Of The Deep Mystery.

Se a abertura do álbum remete para Alice Coltrane (aquelas cordas deixam poucas margens para dúvidas), a verdade é que a atmosfera geral parece evocar o seu sobrinho neto, o farol da cena electrónica cósmica de LA, Flying Lotus. O que representa o fechar de um círculo: FlyLo inspira-se no jazz para modelar (modular?…) a sua visão electrónica e Danalogue vai claramente beber no produtor californiano para injectar modernidade e urgência no seu jazz. Mas na constante busca dos abismos dos graves, base que sustenta boa parte de Trust In The Lifeforce…, pode também adivinhar-se o pulsar do hardcore continuum que marca os subterrâneos de Londres, dos dias do hardcore e do drum n’bass até aos tempos pós-dubstep e grime do presente. Será essa, mais do que provavelmente, a banda sonora do mini-cab que algum destes músicos precise de chamar para se dirigir ao Total Refreshment Centre em noite de gig.

Há igualmente uma nítida economia no discurso solista de Hutchings em exibição aqui, como se o seu saxofonismo surgisse contido por uma educação centrada no sampling, mais adepto da ideia do riff circular do que do fraseado expansivo. O que não significa que o seu tom não seja sólido. Shabaka aprendeu a escutar mestres como Coltrane ou Archie Shepp e Pharoah Sanders, claro, mas tem voz própria, que tanto soa musculada como lírica, introspectiva ou expansivamente abstracta. Mas sempre assertiva. King Shabaka comporta-se com a dignidade do título real que ostenta e nunca exclama uma nota a mais do que a que necessita para dizer o que pretende.

Como concedeu Betamax na entrevista ao ReB, este álbum, gravado ao longo de quatro dias, em improvisos colectivos, ganhou depois forma no ecrã do Mac, em minucioso trabalho de edição, como o que Teo Macero fazia, embora apenas com a fita analógica como matéria para os seus exercícios de corte e costura. Talvez por isso mesmo haja um tom algo solene que atravessa o álbum: dos improvisos podem ter resultado derivas mais extemporâneas que não ganharam espaço na organização definitiva do material, com os cortes a serem encarados por isso mesmo como gesto de composição. A mesa de mistura é outro recurso importante na arquitectura final de Trust In The Lifeforce…: o recurso a efeitos como o delay não apenas reforça a ligação da sonoridade final a um continuum britânico que recua ao dub, como funciona como elemento extra na coloração geral, estratégia que se justifica plenamente até porque falamos simplesmente de um trio, facto que por vezes se esquece tal o som cheio que algumas faixas parecem apresentar. Este é um daqueles discos que  parece perfeito para ser desfrutado com um bom par de auscultadores, talvez enquanto se percorre Londres à noite no DLR e a luz dos edifícios mais modernos funciona como um constante aviso do nosso lugar no mundo. Se a cidade não nos acolhe ou não chega, talvez o espaço cósmico que temas como “Astral Flying” ou “The Universe Wakes Up” evoca seja mais receptivo.

Uma palavra final para Kate Tempest, uma espécie de Amiri Baraka neste contexto, uma poetisa do seu tempo, uma voz que declama a cidade moderna, os “black wrists” que estão “cuffed in the pig van”, conferindo uma subtil dimensão política a esta visão espiritual da música. Só quer fugir para o espaço quem não encontra o seu lugar na Terra, certo?


Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
Rui Miguel Abreu