Max Hallett de The Comet Is Coming: “O jazz, para mim, está no presente”

[TEXTO] Rui Miguel Abreu [FOTO] Fabrice Bourgelle

“Arrasador trio cósmico”. Foi assim que a Wire se referiu a The Comet Is Coming no artigo de capa que ofereceu a Shabaka Hutchings, o dínamo deste e de vários outros projectos, incluindo os Sons of Kemet e os Ancestors, cada um apontado a uma diferente galáxia deste vasto universo… que é o jazz. Trust In The Lifeforce Of The Deep Mystery de The Comet is Coming acaba de aterrar nas lojas de discos e plataformas de streaming de todo o mundo e o fenómeno intensifica-se. 

A mais vasta cena de jazz londrino que abordámos em Dezembro último continua a expandir-se, alargando-se para fora das tradicionais esferas do jazz e impondo-se, com estrondo, no mais vasto campo da música popular. Sim, estes múltiplos projectos buscam referências em todo o lado — do afrobeat nigeriano ao reggae jamaicano, do grime londrino ao hip hop norte-americano, dos balanços cubanos às progressões electrónicas universais –, mas continuamos a falar de projectos centrados no jazz, no improviso e interacção colectiva, sobretudo instrumentais e que, ainda assim, conseguem captar uma generosa atenção por parte de públicos mais associados com outro tipo de circuitos, dos clubes que normalmente recebem DJs aos festivais que exploram o amplo espectro da música pop.

Ouvindo o novo trabalho de The Comet is Coming, acabado de lançar com selo da histórica Impulse!, tal como já tinha sucedido com os Sons of Kemet, percebe-se que não há concessões de qualquer espécie: continua a tratar-se de música que busca o desconhecido, que se aventura no amanhã e que vive do entendimento telepático entre mentes conscientes de um invulgar poder comunicativo. Além do saxofonista Shabaka Hutchings, há ainda na equação que contar com a presença de Dan Leavers, teclista, e de Maxwell Hallett, baterista, com quem conversámos ao telefone, antes de ser confirmada a vinda a Portugal, em Outubro próximo, para mais uma acção do Gig Club.



Antes de mais, fala-me do lançamento do álbum pela histórica editora Impulse!. O que é que significa para vocês terem a vossa música editada pela “casa que Coltrane construiu”?

É uma honra e um privilégio enorme. Além disso, tem um peso que todos sentimos — ligar-nos a outros artistas que influenciaram tantas pessoas. Sinto que é uma boa casa para o disco, mas também nos fez perceber que queríamos deixar um álbum tão bom quanto possível para a posteridade, para poder repousar nesse catálogo tão vasto e tão importante.

Como correram as gravações e durante quanto tempo?

Acho que demorou cerca de quatro dias. Nós escrevemos em conjunto durante a sessão. Chegámos ao estúdio basicamente sem música preparada, pelo que escrevemos juntos, nesse momento. E, a tentar apontar todas as ideias que nos surgiam, gravámos várias improvisações ao longo das sessões, que foram bastante curtas. Estávamos a tentar criar o nosso próximo som juntos e as coisas estavam a avançar no sentido de cada um desenvolver uma nova forma de tocar, como uma evolução. Depois disso, eu e o Dan reunimos o material e esculpimo-lo num álbum, porque gravávamos bastantes ideias e takes e editámos tudo como se de um filme se tratasse.

Exactamente, parte do resultado que ouvimos é obviamente o resultado de muita edição. Inspiraste-te no trabalho do Teo Macero nos discos do Miles Davis?

Sim, senti-me realmente inspirado por essas referências. Eram sessões um pouco espontâneas e depois podia-se ser criativo no estúdio, porque o processo de concentrar tudo num álbum é um processo de intensificação, de esculpir, mas ainda assim reténs um pouco de uma performance espontânea, que é algo em que estamos todos interessados. Este é apenas um método que acabamos por continuar a usar neste projecto, mas tentando fazê-lo evoluir.

Achei que a descrição do álbum pela editora era muito interessante, “parte Alice Coltrane e parte Blade Runner”. Ou seja, algo que eu gostaria de ouvir só por ter lido uma descrição assim.

É uma forma de resumir [a música] em termos simples de entender, para que as pessoas possam identificar-se claramente com essas coisas. Acho que o disco é acessível, consegues entendê-lo; não há nada de assim tão complicado, é apenas um bold statement.

Não sei sobre entendê-lo, mas decerto que fará sentido. Os títulos do álbum e respectivas faixas contam-nos uma história de ligação ao universo. A música ainda é a melhor plataforma para nos ligarmos ao mais profundo dos mistérios?

Boa pergunta. Na minha vida, de forma geral, sempre a usei como forma de aceder a isso, porque a música existe num momento em que é gratificante, dando-lhe uma posição espiritual. Comecei a fazer mais meditação e a pensar um pouco mais sobre como isso me ajuda a focar a ouvir ou tocar, e penso que há uma espécie de investigação espiritual pela qual todos estamos individualmente a passar na mesma altura de fazer música, portanto é bom ter as duas coisas juntas.

Muito tem sido escrito — incluindo por mim — sobre o estado actual da cena jazz do Reino Unido, realmente vibrante e inovadora, decerto que concordas.

Sim, há imenso a acontecer e muito entusiasmo. Sempre foi assim a cena em Londres, mas a resposta e a atenção que está a ter agora é ainda mais excitante; todas as pessoas que comparecem aos concertos, é fantástico. Não conseguiria ter previsto isso, mas [a cena] está a alimentar-se da energia de músicos muito motivados, trabalhadores, que actuam em todo o lado. É incrível estar associado a tudo isto que está a acontecer em Londres, gosto de como se está a tornar mais confiante, a entrar no seu próprio som — não há só um, há uma atitude para isso. É bom que as pessoas estejam a assumir isso.

Parece-me que esta nova geração de músicos não tem medo de assumir que vem do presente e olha para o futuro, em vez de ir beber somente ao passado e à tradição. Achas que retirar influências de algo novo — seja das pessoas, seja do grime, ou do que for — está a ajudar a reinventar o jazz?

O jazz, para mim, está no presente, [e mesmo que procures] explorar o futuro, mergulhas no desconhecido e acho que isso será sempre refrescante. Mostra algo de uma ligação, que não envolve só os músicos: abarca toda a cultura e as pessoas, e para onde estão virados. Os ouvintes estão famintos para encontrar a sua própria identidade na música que espelha a nossa cultura londrina, e sinto que é assim que deveria ser em toda a parte: toda a gente deveria estar a explorar as suas culturas, onde estão e o que lá está a acontecer de momento. Mesmo que o jazz tradicional seja giro de tocar, há algo mais entusiasmante nisso — explorar todas essas influências que tens em Londres, que é um sítio muito especial, com a mistura de culturas e música estimulante que aqui tem a sua génese.

Como conseguiram convencer a Kate Tempest a colaborar convosco?

Somos fãs do trabalho dela há muito tempo e sempre quisemos trabalhar com ela. Estávamos nomeados para o Mercury Prize há três anos e ela era parte do júri para esse prémio; foi [nessa cerimónia] que estabelecemos mais contacto com ela e ela confessou-nos que estava a lutar [para que ganhássemos] na sala do júri, o que foi muito simpático da parte dela. Foi aí que tivemos a ideia de colaborar com ela. Gosto dela, ela diz a verdade, é eloquente e, entre muitos artistas que já vi ao vivo, reparei que ela consegue explorar um lado emocional das pessoas que penso que elas nem estão preparadas para confrontar. Acho que as pessoas podem ser levadas às lágrimas nos concertos dela, é brutal. Ela tem algo de único.


Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
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