Novo Jazz Britânico: a singular vibração de uma diáspora plural

[TEXTO] Rui Miguel Abreu [FOTO] Pierrick Guidou

A importante revista Wire atribuiu o sempre cobiçado primeiro lugar nas suas listas de balanço do ano a Your Queen is a Reptile dos Sons of Kemet de Shabaka Hutchings, sinal mais do que evidente do protagonismo que o novo jazz britânico adquiriu em 2018. Mais do que, como porventura sucede noutras publicações, traduzir um determinado zeitgeist ou reflectir dinâmicas de mercado, as listas da Wire procuram adivinhar tendências de fundo, antecipar possíveis futuros, descortinar quais os discos e os músicos que procuram de facto erguer novas linguagens, experimentar novos caminhos. Daí que o álbum que os Sons of Kemet lançaram com selo da histórica Impulse tenha tamanha importância. Representa um complexo e vibrante ecossistema de músicos criativos, editoras aventureiras, salas de espectáculos, agentes, DJs, divulgadores e pensadores que tudo têm feito para projectar no futuro um som que tem feito estremecer o presente.

O regresso da histórica revista Straight No Chaser, de que demos por aqui conta em Agosto de 2017, é outro sinal evidente da pulsação de um movimento que tem cruzado as fronteiras entre os até aqui pouco comunicantes universos do jazz e de certas músicas populares mais alinhadas com as pistas de dança, do hip hop e do grime ao afrobeat ou ao funk. Em Fevereiro deste ano, Gilles Peterson, o histórico DJ que foi um dos arquitectos das cenas rare groove e acid jazz de finais dos anos 80 e anos 90, que fundou ou ajudou a fundar etiquetas como a Acid Jazz, Talkin’ Loud e Brownswood, que integrou a primeira encarnação da revista Straight No Chaser e que tem mantido uma presença constante nas ondas hertzianas, escrevia numa crónica para o britânico The Guardian o quanto tem sido inspirado pela nova geração de músicos do Reino Unido que tem sustentado esta cena: “Para mim, enquanto DJ, é especialmente excitante ver as novas ligações que se têm estabelecido entre a cultura de clubes e o jazz ao vivo. É uma ponte que tenho tentado erguer, de uma forma ou de outra, ao longo dos últimos 30 anos. E agora, mais do que nunca, sente-se que essa barreira está finalmente a ser derrubada.”

Peterson destaca depois o particular caso da cidade de Londres onde uma promotora como a Jazz Re:Freshed tem feito um notável trabalho — que, relembra o DJ, vem já de 2003 — para encontrar novos espaços que acomodem novos músicos e novos sons. “A minha editora Brownswood“, explica Gilles Peterson, “acaba de lançar We Out Here, uma nova colecção supervisionada pelo jovem saxofonista londrino Shabaka Hutchings para claramente documentar este maravilhoso movimento de ouvidos abertos. É uma selecção que abarca nas suas influências a brisa marítima da costa ocidental de África presente nos Kokoroko até à liberdade presente no fuzz de guitarra de Triforce. Há ecos de trap, Nova Orleães, free jazz e pós-bop directo à inglesa, tudo gravado num estúdio durante três dias no Verão passado”.

 



Shabaka Hutchings é, de facto, uma das figuras-chave deste movimento. Em Fevereiro passado, Francis Gooding, num artigo de capa para a já mencionada revista Wire, enumerava as aventuras em que o ainda jovem saxofonista na casa dos 30 está correntemente envolvido: “No presente ele é o centro de nada menos do que três formações que têm desbravado terreno — os titãs de futuros-carnavais Sons of Kemet, o arrasador trio cósmico The Comet is Coming e o religado supergrupo de jazz sul-africano The Ancestors. E isso claro sem contar com o verdadeiro campo de asteróides de outros projectos em que ele tem assumido importantes papeis — Hutchings tem estado instalado profundamente na casa das máquinas dos Melt Yourself Down; assume ocasionalmente um lugar de convidado na The Sun Ra Arkestra; colaborou recentemente com Hieroglyphic Being no tremendo ARE Project; e surge regularmente em gravações de gente como Alexander Hawkins, Yazz Ahmed, The Heliocentrics e tantos outros”.

Pouco há em comum nos diferentes papéis que Shabaka Hutchings assume em cada contexto, sinal de uma liberdade criativa que não aceita limites e que é característica desta nova geração em que se integra: “Para mim, a magia da progressão musical é não nos identificarmos, ser capaz de ver o que acontece. Pode-se experimentar e tentar tocar de uma maneira ou apresentar um certo tipo de grupo e até pode nem resultar, pode soar uma porcaria. E poderá soar uma porcaria consistentemente até que depois começa a soar bem”. Hutchings poderá estar a falar da vontade de sair da norma e de como a intenção de quebrar barreiras e regras pode dar azo ao aparecimento de novas sensibilidades e novos caminhos, algo que, de facto, tem sucedido no novo jazz britânico.

Daniel Spicer, no texto que assina sobre esta nova cena jazz no número especial que a revista Wire dedica a 2018, relembra igualmente a dimensão política que a cena tem assumido, facto que é fácil de esquecer quando muita desta música é instrumental e, sobretudo, até funciona como combustível de abandono físico na pista de dança. A nomeação de Your Queen is a Reptile para os prémios Mercury, refere Spicer, foi causa de algum espanto já que “traficou uma incendiária mensagem anti-colonial para o centro do ajuntamento anual da indústria britânica mainstream”. “A primeira coisa que as comunidades oprimidas perdem”, explicou Shabaka Hutchings durante um concerto no Brighton Alternative Jazz Festival, “é a capacidade de criarem as suas próprias histórias”. Há de facto uma aguçada consciência política neste movimento.

 



Num artigo para o Red Bull Music Academy Daily, a jornalista Emma Warren aponta para as raízes éticas, filosóficas e culturais deste movimento: “É complicado desenhar uma imagem dos educadores por trás deste novo florescimento de uma cena musical londrina sintonizada com a diáspora. Além da educação formal proporcionada pelas universidades de Trinity e Guildhall, há que mencionar o lado tutorial e as oportunidades de performance oferecidas por pioneiros como os Tomorrow’s Warriors, Kinetika Bloco e a Abram Wilson Foundation. Há também jams fundamentais como a há muito estabelecida Jazz:Refreshed do Oeste de Londres, a STEEZ no Sul de Londres ou o multi-facetado Brainchild Festival. E cruciais têm sido também salas sobreviventes como o Total refreshment Centre ou os pubs locais usados pela Good Evening Arts, locais onde bandas emergentes podem ter a segurança daqueles elementos-chave para o crescimento artístico: som de qualidade e ouvintes capazes de responder a uma boa malha mesmo que nunca a tenham escutado antes”.

Ou seja, para lá dos músicos, dos seus educadores, das editoras e dos espaços com espírito de aventura para programarem estes sons mais aventureiros, importante tem sido também o aparecimento de um novo público de espírito suficientemente aberto para entender que uma nova banda de jazz pode suceder a um DJ que acabou de assinar um set de UK garage ou de grime ou de house ou de afrobeat ou do que quer que seja que ajude uma pista de dança a assumir a sua mais profunda vocação: o movimento colectivo.

Em Março de 2017, Lanre Bakare reportava para o Guardian a partir de Austin, no Texas, sobre uma “UK jazz invasion”: “Entusiastas de jazz como Gilles Peterson têm consistentemente apoiado o género desde os anos 80, colocando-o lado a lado com sons alternativos de todo o globo no seu programa de rádio e nos seus eventos Worldwide. Em tempos mais recentes, no entanto, o jazz britânico tem começado a mudar e a transformar-se num som que tem obtido reconhecimento para lá dos limites usuais do género”. Bakare prossegue: “Essa experimentação e cruzamento de sons está no coração de um novo tipo de jazz que tem surgido no Reino Unido no momento. Grupos e artistas como Moses Boyd, Shabaka Hutchings, Zara McFarlane, Ezra Collective e United Vibrations têm combinado jazz com grime, jungle e house para criarem uma sonoridade que funciona nas pistas de dança e em festivais e também nos clubes de jazz.”

 



Em Abril deste ano, essas figuras mereceram destaque num grande artigo do Guardian assinado por Kate Hutchinson. “Para muitos de nós”, concede a jornalista, “o jazz parecia ser algo que outras pessoas escutavam. Mas nos últimos anos o género sofreu uma transformação profunda”. Hutchinson menciona o sintomático caso de To Pimp a Butterfly, o álbum de Kendrick Lamar que graças a uma ficha técnica em que pontuavam nomes como Thundercat, Terrace Martin, Robert Glasper, Ryan Porter, Miles Mosley ou, claro, Kamasi Washington abriu os ouvidos de uma nova geração para os aventureiros criadores de um jazz interessado em novos diálogos.

“No Reino Unido”, contrapõe Kate Hutchinson, “um novo e excitante movimento jazz evoluiu. Como aconteceu com Lamar, Thundercat e Washington, nasceu de um refrescante experimentalismo, tem alcançado audiências bem mais jovens e diversas e não liga ao pretensiosismo. Ao contrário de outras vagas, estes músicos estão na casa dos 20 ou 30 anos, têm percursos diversos e, como aconteceu no grime, criaram a sua própria comunidade exterior às editoras e às salas de concertos convencionais”.

O artigo destaca protagonistas como o baterista Moses Boyd, de 26 anos, o já mencionado saxofonista e clarinetista Shabaka Hutchings, de 33 anos, a trompetista Sheila Maurice-Grey, que conta 27 anos, a cantora Yazmin Lacey, de 29 anos, o trompetista, arranjador e editor Matthew Halsall, de 34 anos, Theon Cross, homem da tuba que soma apenas 25 anos, e ainda a saxofonista Nubya Garcia, de 26 anos. “A nova geração de músicos de jazz britânicos”, reforça Hutchinson, “tem uma confiança determinante e é encorajada pelo facto da sua audiência querer ouvir algo original”. A verdade é que muitos destes músicos começaram eles mesmos por serem audiência, frequentaram clubes, escutaram as frequências piratas de uma Londres multicultural e educaram os ouvidos numa alargada panóplia de sonoridades, longe de uma educação canónica exclusiva. Isso tudo abriu igualmente espaço para a expressão mais ampla no que diz respeito a géneros.

 



A uma lista como a que o Guardian sugere que já inclui um invulgar e assinalável número de mulheres — de Sheila Maurice-Grey e Yazmin Lacey a Nubya Garcia, é ainda possível adicionar nomes como os de Cassie Kinoshi, saxofonista alto que integra colectivos como os Kokoroko e Nérija e que dirige o SEED Ensemble, projecto que deverá editar através da Jazz Re:Freshed, selo que também assinou a estreia de Garcia. É Kinoshi que adorna a capa da mais recente edição da Straight No Chaser que explora, num artigo assinado por Menelik Minamo, Driftglass, o álbum que o SEED Ensemble tem estado a preparar sob a orientação da saxofonista. “É uma aventura corajosa que atravessa género e raça”, sublinha o jornalista acerca de um colectivo de 11 elementos que conta com talentos de músicos como Chelsea Carmichael no tenor, Tal Janes na guitarra, Sheila Maurice-Grey e Yelfris Valdes nos trompetes, Theon Cross na tuba ou Ashley Henry nos teclados. O álbum é descrito como um retrato da diáspora africana no Reino Unido — ” a sua experiência vivida, a navegação e constante negociação de um ambiente hostil e pernicioso”. O jazz, como antes o grime, o hip hop ou até o punk e o reggae, como veículo de um desconforto, de uma luta geracional renovada e pelos vistos interminável. O jazz como experiência de vida, como documento de superação. A história repete-se, ainda que o balanço possa ser diferenciado e apoiado numa vibração contemporânea.

Num momento em que o Reino Unido parece mais interessado em fechar-se sobre si mesmo, em encerrar fronteiras e seguir um caminho isolado, esta é a música que volta a sintonizar-se com a ideia de comunidade, com as experiências de quem viaja carregando nos ombros o peso de outras vivências e culturas, de quem ousa olhar para o mundo e não apenas para o seu próprio umbigo. E essa abertura ao mundo é, sem dúvida, uma das marcas que distingue o presente momento desta cena que tem o epicentro em Londres.

Neste número especial da Straight No Chaser, e para lá de artigos que focam artistas americanos, asiáticos ou africanos, há espaço para focos lançados sobre Tenderlonious, as festas Jazz Re:freshed, Joe Armon-Jones, sobre o lendário saxofonista Nat Birchall, a fotógrafa e jornalista veterana Val Wilmer, Sarathy Korwar (novo protagonista de fusões indo-jazz com trabalho lançado na Nina Tune) ou o baterista Femi Koleoso (Ezra Collective, Jorja Smith, Nubya Garcia…). Este é, portanto, um movimento apoiado em muitas vozes, muitos pensamentos, muitos músicos e muitas visões, um movimento que tem rendido importantes registos, vários deles lançados em 2018.

Abaixo, uma possível lista de compras com seis portas de entrada para um fascinante universo, todas datadas de 2018, todas vibrantes e desafiantes, como compete à mais avançada música.

 



[Maisha] There is a Place (Brownswood Recordings)

Colectivo liderado pelo baterista Jake Long, os Maisha têm na saxofonista Nubya Garcia e na guitarrista Shirley Tetteh dois autênticos motores propulsores de uma visão que pode ter origem nos ensinamentos de exploradores cósmicos como John Coltrane ou Sun Ra, mas que não teme investir por terrenos mais contemporâneos, do reggae ao afrobeat que, no fundo, reflectem a paisagem britânica contemporânea. E tudo isto com um nível técnico superior, uma imaginação funda presente nos arranjos e nas capacidades de cada um dos indivíduos que integram o colectivo.

 



[Kamaal Williams] The Return (Black Focus Records)

Depois da dissolução do projecto Yussef Kamaal, o teclista Kamaal Williams, com o apoio da secção rítmica de Pete Martin e Joshua McKenzie, aplicou em The Return a sua visão de um jazz inspirado pelo momento e pela personalidade plural da cidade de Londres. Em “Broken Theme”, por exemplo, sentem-se as horas passadas no clube na forma como a bateria de McKenzie traduz o pulsar sincopado de uma cultura própria que depois Kamaal adorna com saber, imaginação e uma refrescante liberdade que não conhece limites, mas que ainda assim reconhece os mestres passados que assinaram obras de referência no cânone jazz-funk, de Herbie Hancock a Roy Ayers.

 



[Vários] We Out Here (Brownswood Recordings)

Prodigioso retrato de uma cena orquestrado por Shabaka Hutchings a pedido de Gilles Peterson: Maisha, Ezra Collective, Moses Boyd, Nubya Garcia, Theon Cross, Triforce, Joe Armon-Jones, KOKOROKO e o próprio Shabaka Hutchings a explorarem um vasto campo de possibilidades, fazendo a tradição pós-bop colidir com afrobeat, cadências de clube contemporâneas e até ideias retiradas dos sons electrónicos que povoam as ondas hertzianas da cidade. O resultado da composição é uma declaração de absoluta liberdade e de desejo de futuro.

 



[Tenderlonious featuring The 22archestra] The Shakedown (22a)

Ed Cawthorne, flautista e homem de electrónicas variadas, é o cérebro por trás de Tenderlonious, um projecto enraizado na relação que o jazz sempre soube manter com o groove e portanto aberto às mais balançadas pistas de dança, mas tudo isso sem perder de vista a interacção live entre músicos, um lado de vibrante improviso que só se obtém quando músicos de diferentes percursos partilham espaços físicos, noite após noite, desenvolvendo assim uma linguagem comum, livre, aberta ao inesperado. Como quando, em “SV Disco”, o grupo adopta uma cadência funky que só surpreende por não ter por cima um MC como Oddisee a rimar sobre a dinâmica das atracções que se estabelece à beira de um balcão num qualquer clube de uma grande cidade.

 



[Nubya Garcia] Nubya’s 5ive (Jazz Re:Freshed)

Há Joe Armon-Jones no piano, Femi Koloseo ou Moses Boyd na bateria e ainda Theon Cross na tuba ou Sheila Maurice-Grey no trompete. É portanto um disco que nasce de uma cena e que é liderado por uma brilhante Nubya Garcia que não esconde em momento algum o prazer que tem quando toca, quando partilha com quem a rodeia as suas ideias de um melodismo de recorte clássico, mas ainda assim com pés assentes no presente, como em “Hold”, com momentos em que o fraseado parece retirado de um qualquer clássico r&b dos anos 90 (e com a tuba de Theon Cross a brilhar de forma igualmente intensa).

 



[Sons of Kemet] Your Queen is a Reptile (Impulse)

Quando “My Queen is Mamie Phipps Clark” arranca quase que se fica com a ideia de que sempre existiu, algures em Bourbon Street, Nova Orleães, um portal que conduz a Brixton, Reino Unido, e que afinal o que as marching bands e os sound systems sempre tentaram fazer foi algo de muito semelhante: comunicar histórias, traduzir o andamento de uma mesma experiência, libertar, elevar, fazer mover. As mulheres negras que fizeram diferença na História são o ponto de partida para um disco de intensas experiências, com Shabaka a liderar sem medos um colectivo de força criativa elevada ao máximo expoente, com Theon Cross a ser, mais uma vez, um verdadeiro pilar que sustenta as aventuras com uma segurança de graves a toda a prova. Brilhante, pois claro.

 


Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
Rui Miguel Abreu