Xiu Xiu // Girl with Basket of Fruit

[TEXTO] Miguel Alexandre 

Mal entramos na primeira faixa somos levados para um cenário completamente desolador: temas de violação, abuso de poder e racismo são-nos apresentados como murros atrás de murros, sem qualquer tempo de recuperação. Chegamos às duas canções seguintes e o caso da irmã do vocalista que sofre de cancro terminal atordoa o ambiente. Lá para o fim, falamos sobre direitos civis, mais precisamente sobre a perseguição, e a violenta morte, de Mary Turner, uma jovem afro-americana, nos anos 60. Para muitos, ignorar os problemas do mundo como exercício de auto-preservação é uma necessidade capital; no entanto, a mente de Jamie Stewart não funciona assim: como podemos dormir à noite se ao mesmo tempo tanta maldade paira no nosso mundo? Como podemos desfrutar da nossa vida quando há tanta injustiça na sociedade? A música dos Xiu Xiu sempre seguiu essa premissa: um olhar violento e crítico sobre os assuntos aos quais não queremos dar a devida atenção.

“Life inland has become impossible”, canta-se na faixa-título. Por vezes, não conseguimos sarar os traumas pelos quais passamos ao longo da nossa existência; mas não é para isso que estamos aqui – é importante olharmos o mundo nos olhos e expor o lado irrefutavelmente nojento e horripilante que se esconde. Girl with Basket of Fruit é precisamente isso: um trabalho visceral, litúrgico, que tem como objectivo afectar, questionar mas, mais importante, perturbar. Ninguém é a mesma pessoa depois de ouvir Xiu Xiu. Ao longo de onze álbuns, a urgência para interpolar o interior com o exterior não cai em desuso. Na verdade, só se intensifica consoante o decorrer dos acontecimentos que nos rodeiam. Existem, afinal, sentimentos que merecem afinação e feridas que mal sararam; no entanto, não se deve apressar tal recuperação, mas sim atendê-la calmamente.

O caos que é instaurado parte primeiramente da cabeça de Jamie, o vocalista, que expressa a criação da banda como uma fuga ao seu próprio niilismo e depressão: “a primeira canção que escrevi para os Xiu Xiu veio depois de uma noite de bebedeira. Sentia-me bastante estúpido e sozinho, na verdade, e queria dançar até que a minha dor desaparecesse, mas todas as discotecas só intensificavam essa dor. Ah, sim, devo dizer que isto aconteceu numa noite de Natal”, partilhou com a Pitchfork em 2006. O objectivo, segundo o próprio, era criar um refúgio para afundar todos os tormentos da sua cabeça. Acabou por se tornar em algo superior: hoje, os Xiu Xiu são uma banda de culto do universo experimental. Não são facilmente apreciados nem reconhecidos, mas a honestidade com que abordam a sua composição valeu-lhes aclamação nacional e internacional.

Neste novo disco, Jamie faz-nos um convite para flutuarmos por entre sintetizadores severos, ruídos digitais, vocais aterrorizantes, percussões austeras e gravações lo-fi, enquanto meditamos com uma probidade sobre a vida a acontecer e a sua batalha incomensurável contra a morte. Por diversas vezes somos confrontados com uma dualidade de espírito: uma divisão entre um estoicismo arrebatador e uma decisão moral em querermos saber mais. Não é fácil encararmos a vida tal e qual como ela é; talvez seja por isso que Jamie continua a exprimir-se através de personagens.

Se olharmos para “Sad Pony Guerrilla Girl”, de A Promise, circa 2003, a imagem criada não é fácil de superar: uma jovem que se envolve com um homem mais velho e casado. 16 anos depois e tal rapariga exprime a sua dor na primeira música deste trabalho: “She sits on a bicycle and floats in space; she is in love with the Angel of Stop Laughing”. Apesar de ambas serem narradas por pronomes pessoais diferentes, são usadas como subterfúgios para uma dor universal – uma desordem inerente a todos nós. Tal sensação perdura em “It Comes Out as a Joke”, lugar onde o vocalista questiona o propósito da sua vaga existência. As letras não fazem sentido e ao criar alguma ligação ou estrutura só piorará. Mas não faz mal, não vale a pena procurarmos um significado onde efectivamente não existe nenhum. E talvez seja essa a lição que Jamie nos passa: a vida é aquilo que fazemos dela, nada acontece por uma razão a não ser aquela que nós damos. Deuses e humanos são noções fugazes que se misturam na planta da criação. Tudo é nada e nada é tudo. A morte é o espaço da criação. A criação é a primeira etapa da morte. Todas as conclusões são fatigantes e para lá chegarmos é preciso anos e anos de luta contra este mesmo fim. Talvez Jamie tenha desistido; ou então encontrou um pequeno significado na música que nos oferece (mas isso não quer dizer que nos vá dar tudo de mão beijada…).

Em “Pumpking Attack on Mommy and Daddy”, o caos torna-se mais evidente: o single é uma mistura de electrónica numa base industrial e pós-apocalíptica. Faz-nos doer a cabeça, mas não conseguimos parar de a ouvir. Porquê? Nem vale a pena irmos por aí.



Ao longo das nove faixas, não há precisamente um ponto de fuga, pois até nos momentos mais calmos e aéreos existe um peso impossível de evitar. Escutemos “The Wrong Thing”, que nos é introduzida por um sintetizador sinistro enquanto uma gravação nos dá uma enumeração de adjectivos indecifráveis:

“Charismatic, a trapped rabbit
Carpet beetle, huhu grub
Rice weevil, flatworm
Mealy bug, field cricket
Grass grup, caterpillar
Head louse, utopia”

Parece quase como um sacrifício, um ritual onde alguma coisa será devorada. Mas a voz de Jamie aqui está pesada, como se estivesse a chorar — talvez a fazer o luto de algo que já se perdeu. Para além de ser a música mais apaziguante do disco, não se limita a ser uma mera passagem: acaba por ser uma maneira de como vários registos – atmosferas e poesia – são exprimidos. Confrontarmo-nos com Girl With Basket of Fruit é encararmos de frente (e sem defesas) os nossos lutos, perdas e fragilidades. É preciso ter estômago.

Dito isto, cada camada que se vai descobrindo a cada audição não retira o seu mistério e graça. Longe disso. Cada elemento vai-se revelando lentamente, fazendo surgir outro inesperado. Começa-se por aquilo que percepcionamos recorrendo apenas à audição e a partir daí desenvolve-se para algo mais intrínseco. No final, é difícil voltarmos ao início — existem experiências que precisam de alguma distância para serem repetidas. Contudo, é importante referir que uma manipulação emocional não é sempre tida como o fio-condutor deste trabalho – e por vezes a abstracção que nos é apresentada faz-nos perder a atenção. Para nós são pontos fracos – que são compreensíveis –, mas espaço para pensamentos pairarem em forma de recolhimento são quase momentos de oração. Este não é um disco fácil de digerir, nem algo que se fez para se ouvir com frequência na banalidade dos nossos dias. Como qualquer experiência intensa, a recompensa pode chegar imediatamente no fim ou, então, pode necessitar de distanciamento (físico e emocional). Porém, o mais importante está feito: sobrevivemos para contar a história.


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