Moor Mother // Analog Fluids of Sonic Black Holes

[TEXTO] Francisco Couto

O universo sonoro que Camae Ayewa nos apresenta como Moor Mother em Analog Fluids Of Sonic Black Holes parece, à primeira vista, representar o microcosmos caótico no qual a sua cabeça vive, repleto de ruído, distorção, violência e sem um aparente fio-condutor entre temas. Mas, ao entrarmos nas palavras da poetisa americana, rapidamente somos transportados para África; para uma Inglaterra colonial; para campos de algodão nos Estados Unidos; para os motins contra a violência policial em Los Angeles em 1992, o que nos leva a entender que o que este álbum retrata, na verdade, é uma realidade que tenta ser esquecida e desvalorizada por muitos, mas que ainda é sentida na pele da população negra por todo o mundo, neste caso focando-se mais nas raízes e no lado obscuro dos pilares no qual a democracia americana está estabelecida.

Com as palavras da artista de Filadélfia nos nossos ouvidos, a ligação entre cada partícula sonora começa a aparecer e vemos os desenhos cénicos criados pelos sons para as diferentes histórias que constroem a narrativa deste álbum, que, a par de To Pimp A Butterfly de Kendrick Lamar, conseguimos ver libertar-se do intuito meramente artístico e intrometer-se no espectro social e político norte-americano, como que transcendendo a própria música para atingir uma causa maior: palavras e sons que não servem apenas para causar reacção física e desprovida de pensamento, mas sim para instruir e consciencializar de uma realidade que é esquecida ou ignorada por muitos. É como se fosse a voz da artista funcionasse como um veículo para milhares de vozes oprimidas.

Este é um disco pensado pormenorizadamente do início ao fim, com a clara intenção de relembrar o racismo institucionalizado que ainda hoje se sente nos Estados Unidos. Moor Mother agarra-nos com força pelos pulsos e transporta-nos para vários momentos na história da América: em “LA92”, visitamos os motins que se espalharam por Los Angeles, despontados após Rodney King ter sido violentamente espancado por quatro polícias, e por Latasha Harlins, de 15 anos, ter sido morta a tiro por causa de uma acusação de de roubo de uma loja; em The Myth Hold Weight”, vemos Jim Crow e a suas leis de segregação racial serem invocadas; em “Shadowgrams”, questionamos o papel colonial e imperialista dos países europeus e a hipocrisia de quem nos lidera, enquanto a autora canta: “They have killed our heroes and we forgot their names”; em “Passing Of Time”, a música escolhida para terminar, talvez pela plenitude que não existe nas restantes faixas, os ritmos tribais e rudimentares e a voz de Juçara Marçal aparecem e acompanham os relatos sobre as mulheres ancestrais que construíram a economia dos EUA enquanto eram forçadas a trabalhar nos campos de algodão, culminando o álbum todo numa só frase que tem tanto de poética como de sincera e dolorosa: “It’s so soft to the skin when you land in the cottonfileds of democracy”.



Os instrumentais afro-futuristas — uma fusão entre uma vasta biblioteca de samples de ritmos, melodias e vozes pertencentes à história da cultura afro-americana com noise agressivo, colagens de sons endiabradas, violinos e sopros ofuscados, beats violentos e graves tenebrosos, todos eles desconstruídos ritmicamente de forma a criar uma tensão e um desconforto em quem ouve –, são a base ideal para as palavras de Camae se exporem, também elas violentamente honestas, na tentativa de espelhar a realidade como ela é, sem eufemismos nem embelezamentos.

Na linha dessa franqueza, o objectivo do disco é bastante claro: imortalizar as vítimas deste sistema opressor, honrar a sua dor e o seu trabalho, dar voz a quem nunca a teve e enfrentar todos os que tentam apagar o lado negro (literalmente e figuradamente) da história americana. Moor Mother tem a capacidade de juntar tudo isso e carregar a revolta e raiva de todos os que representa, deixando-nos a tremer, estáticos, emocionais, desconfortáveis com a realidade e com o nosso papel enquanto seres políticos, que, na hora de agir, damos prioridade ao conforto individual, esquecendo que a saúde de uma democracia passa por servir bem cada um, sem excepções. E se nós, enquanto sociedade, nos esquecemos disso pelas mais variadas razões, Analog Fluids Of Sonic Black Holes é a lembrança daquilo que não pode ser negligenciado.


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