slowthai // Nothing Great About Britain

[TEXTO] Moisés Regalado 

O rapper que também é drug dealer e só usa Nike — nunca FILA — está de volta para brindar os movimentos com o som que lhes fazia falta, mesmo que ninguém soubesse. Sim, movimentos: slowthai, um dos MCs mais capazes a emergir nos últimos tempos, chegou ao álbum de estreia com o peso da bandeira do rap e do hip hop para rapidamente se afirmar como porta-estandarte de um som britânico que nunca morre — uma andorinha não faz a primavera e meia dúzia de featurings entre Skepta e Tyler, The Creator não matam a ilha nem a convertem ao trap.

O autor de “T N Biscuits” é nativo de Northampton, mas parece saído directamente de uma Londres de outros tempos, onde o dub se europeizou e fez grande, ou de uma Bristol sempre pronta para esticar os limites sem nunca os ultrapassar por completo. Nothing Great About Britain remonta aos primórdios de um grime que, mesmo sem sair do sítio, já não depende em absoluto do 2-step canónico, ainda que o single “Doorman”, com Mura Musa, ou “Toaster” cheguem a abrir o livro.

Também há espaço para as inevitáveis influências transatlânticas que muitos apreciam e tantos outros preferem evitar. E é natural, ou não fosse slowthai um jovem de 24 anos tão global ou globalizado como qualquer outro. “Gorgeous” ou “Missing”, por exemplo, não destoariam de qualquer catálogo norte-americano. “Grow Up” consegue representar fielmente aquilo que se vai fazendo em cada um dos continentes sem nunca perder o sabor a fish and chips, enquanto que “Inglorious” chega mesmo a colocar pés em terra americana (apesar da presença de Skeppy, tão impactante como sempre).



Só que aqui, numa Britain — porque a Bretanha é francesa — que não é assim tão grande, os dentes de ouro e as caras definhadas compõem o cenário perfeito para uma versão pós-moderna de This Is England. Pelo menos a banda sonora estaria garantida: “Dead Leaves”, “Peace Of Mind” ou, claro, “Nothing Great About Britain”, que abre e baptiza o álbum, espelham a alma britânica e o éter do grime como há muito não acontecia no lado visível da cena — “I put manners on a punk, ’cause I haven’t had my skunk”.

Agora que a estreia é a doer, slowthai não está tão centrado no lado visível do ego como nos cartões de visita anteriores (“Drug Dealer”, “North Nights” ou “Polaroid”), e parece que para os seus lados a vida já não é só facas e CS. A viagem ao interior dos acontecimentos, ainda que tímida, começa a ganhar contornos sérios: “Northampton General, 1994/Mixed race baby born/Christmas well a week before/Mum’s 16, family’s poor”. Não há aqui nenhuma sequela para “T N Biscuits” mas há onze novas faixas dignas de girar o mundo, sem que as fronteiras do grime ou quaisquer outras impeçam a caminhada de um dos melhores rappers europeus da actualidade.


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