Dave // PSYCHODRAMA

[TEXTO] Manuel Rodrigues 

PSYCHODRAMA, o álbum de estreia do rapper londrino Dave, é uma densa bacia de sedimentação. Não de pessoas e culturas, à imagem da cidade que habita, mas sim de sentimentos. Há amor, raiva, alegria, tristeza, revolta, esperança, angústia e dor. Muita dor.

E é mesmo pela dor que Dave decide começar. Nos primeiros instantes de “Psycho”, tema que abre o disco, é possível ouvir a voz de um profissional de saúde mental – todo o álbum é servido em toada de terapia – a perguntar ao artista por onde é que este deseja começar aquela que é a primeira sessão de um longo e moroso tratamento. Dave não pestaneja e questiona “como se coloca termo a toda esta dor?”

Dave é oriundo de Streatham, distrito localizado a sul de Londres que surge homenageado no tema homónimo, presente em PSYCHODRAMA. Esta é uma das canções mais descontraídas do álbum, que mostra o rapper de apenas 20 anos a embarcar em excelentes jogos de métricas e palavras. A linha “fuck the Audi, switch it for a Benz” transporta-nos para o visual leve do videoclipe, onde é possível ver drifts de carros de alta cilindrada, enquanto a tirada “friends of enemies are enemies/ and enemies of enemies are friends” recupera o discurso mais bairrista evocado logo no início. Esta não é, contudo, a toada que regula a estreia em formato longa-duração de Dave. Trata-se, regra quase geral, de uma obra pesada do ponto-de-vista emocional. Até mesmo “Voices”, que tem como base uma batida alegre e refrão orelhudo, é mais depressa uma canção de encorajamento para não desistir da vida do que propriamente uma celebração dela.

David Orobosa Omoregie, nome de baptismo, não teve de todo uma infância fácil. Cresceu sem nunca ter conhecido o pai – que a dada altura decidiu virar costas à família –, viu a sua mãe a trabalhar dia e noite enquanto enfermeira e mulher-a-dias para conseguir meter comida no prato dos seus três filhos, e, pior do que isso tudo, assistiu ao encarceramento dos seus dois irmãos. Ben, o mais velho, preso por assalto, tendo sido colocado em liberdade apenas no ano passado. Chris, o do meio, a cumprir prisão perpétua pelo envolvimento no assassinato de Sofyen Belamouadden, na Victory Station, um julgamento que colocou um total de 20 jovens no banco dos réus.



É normal que todos estes episódios tenham desequilibrado a balança emocional de Dave. A incapacidade de voltar com o tempo atrás para mudar o rumo dos acontecimentos aliada à profunda tristeza estampada na cara da sua mãe e, certamente, alguma incompreensão, obrigaram-no a várias sessões de terapia em tenra idade. Tinha apenas 11 anos quando tudo aconteceu.

Dave passou uma boa parte da sua vida trancado em casa. Foi esta a forma que a sua mãe encontrou para garantir que a história dos seus irmãos não se repetisse com ele. Aos 14 anos recebeu um piano electrónico como presente, a partir do qual conseguiu tirar as melodias de músicas de Hans Zimmer e de faixas do jogo de computador Kingdom Hearts, um dos seus predilectos. O piano foi, durante anos, o refúgio de Dave. Estudou-o de fio a pavio (todas as semanas aprendia uma música nova), aperfeiçoou as técnicas (actualmente, é nível sete num ranking atribuído pela Associated Board of The Royal School of Music, uma das melhores distinções alcançáveis), incluiu-o em grande parte das suas músicas e levou-o para o palco do programa Later… With Jools Holland, onde interpretou “Picture Me”, mostrando ao mundo não só a sua destreza no instrumento de teclas mas também a capacidade de tocar ao mesmo tempo que debita frases ao microfone.

Regressemos a “Psycho”, a abertura. O tema divide-se em quatro importantes partes. Uma primeira, mais obscura e ligada ao grime; a segunda, alegre e com textura boom bap; a terceira, em jeito de interlúdio com piano e voz, e, por fim, o regresso ao ponto de partida, encerrando assim um interessante círculo estético. É à boleia desta quadra que Dave embarca num vaivém de sentimentos, alternando entre altivez e medo, alegria e tristeza, esperança e desespero. A oscilação entre estados espíritos é evidente na canção, tornando-se, por vezes, perturbadora. Se num minuto fala de sucesso, mulheres, festas e garrafas de Bacardi, no outro evoca os professores que a certa altura lhe aconselharam tratamento e as lágrimas que derramou na sua própria almofada. É o próprio a explicar, nos instantes finais da canção, o porquê da queda abrupta de humor: “brother I’m a careful, humble, reckless, arrogant, extravagant/ nigga probably battlin’ with manic depression/ man, I think I’m going mad again/ it’s like I’m happy for a second then I’m sad again”.

Apesar de marcar a sua estreia em formato de longa-duração, PSYCHODRAMA não assinala a primeira visita de Santan Dave, como também é conhecido, aos nossos ouvidos. Na sua bagagem podemos encontrar dois EPs, Six Paths (2016) e Game Over (2017), vários temas soltos e algumas colaborações, como “Thiago Silva”, com AJ Tracey, e “Samantha”, com J Hus, destacando apenas dois exemplos. O grande salto mediático acontece, porém, quando Drake remistura por sua livre e espontânea vontade a canção “Wanna Know”, catapultando o rapper britânico, como seria de prever, para as bocas do mundo. A chegada à ribalta foi rápida. Em pouco tempo, Dave conseguiu arrecadar um Ivor Novello – prémio britânico entregue pela British Academy of Songwriters, Composers and Authors que destaca as melhores composições e compositores britânicos – com “Question Time”, uma carta dirigida a Theresa May, David Cameron e Jeremy Corbyn, onde é possível ouvir questões relacionadas com o Brexit e com a problemática da Síria, entre outras.



A vertente política social está sempre muito presente na obra de Dave. Em “Black”, voltamos agora a Psychodrama, o artista, novamente acompanhado pelo seu piano, reflecte sobre o que significa ser negro. Há todo um lado positivo de celebração “black is beautiful, black is excelent/ black is pain, black is joy, black is evident” mas também todo o racismo e o preconceito inerente “the blacker the berry the sweeter the juice /a kid dies, the blacker the killer, the sweeter the news”, repescando aqui um pouco a toada de To Pimp a Butterfly, de Kendrick Lamar. O tema, que é também single do álbum, causou uma certa controvérsia no Reino Unido, com várias vozes a acusarem Dave de racismo. Annie Mac, DJ da BBC, chegou inclusive a partir em defesa do jovem rapper, partilhando no Twitter o seu desagrado por ver tantas pessoas ofendidas com o facto de alguém estar a rimar sobre o seu tom de pele.

No campo da produção, PSYCHODRAMA é um álbum bastante coeso. Não existe uma acentuada variedade de instrumentos mas há um perfeito casamento entre os que são utilizados. Os pianos sustentam a melancolia necessária, a componente orquestrada contribui com a dimensão dramática e a batida sela tudo com mestria – não esquecer o toque de Midas do produtor Fraser T. Smith (Adele, Stormzy, Taio Cruz, Sam Smith, Kano) que, com a ajuda de 169 (Headie One, Jme) e Nana Rogues (Tinie Tempah, Drake), conduzem a obra na direcção certa, colocando instrumentais e letras em perfeita simbiose.

“Leslie” é um dos pontos altos de Psychodrama. Sem batida e unicamente acompanhado por uma base instrumental de teclas e cordas, o artista desenrola o novelo de um interessantíssimo storytelling. Esta é a história de Leslie, uma rapariga presa numa relação tóxica com Jason, um homem abusador e sem um pingo de respeito pelos sentimentos e bem-estar alheios. Quis o destino que os mundos de Leslie e Dave se cruzassem no mesmo espaço, o transporte 906, oriundo de Norbury Station. A trama vai-se desenvolvendo à medida que Leslie conta a sua vida a Dave, até ao momento em que, passados 11 minutos de música, se dá o desfecho, acompanhado de um importante alerta para as Leslies que sofrem nas mãos dos Jasons desta vida.

PSYCHODRAMA encerra com “Drama”, um tema onde é possível testemunhar uma conversa entre Dave e seu irmão Christopher Omoregie, numa das suas visitas à prisão. Há saudade, nostalgia e novamente dor. Chris partilha que passa noites a rezar para que alguém ou alguma força superior lhe possa devolver a liberdade, algo que, dada a sua sentença, será difícil almejar. Depois, já no final, elogia a caminhada artística do seu irmão, afirmando que já previa que fosse ser assim, conclusão a que chegou depois de ouvir o banger “JKYL+HYD”, destacando também uma história da bíblia para confirmar que Dave nasceu para vencer, algo que vai ao encontro da notoriedade que está actualmente a alcançar.

Dave responde a Chris com um discurso em formato rap que não se terá certamente afastado muito das palavras que partilhou in loco. Fala da forma como o idolatrava em criança (“I just lost the only fucking person that I idolised/ for my entire life I copied you down to the finest line”) e da mágoa que sentiu ao perdê-lo para as malhas da justiça. Chega, inclusive a sobrepor a dor de ter perdido o irmão à tristeza de nunca ter conhecido o seu pai, “losing dad was big, losing you was even bigger/ never had a father and I needed you to be the figure”. E acrescenta, também, a complicada missão de ter dado o sozinho o suporte emocional necessário à sua mãe, “I had to hold it up for mummy on my own/ I know it’s tough, I got the coldest blood”.

No final da sua comunicação, Dave agradece a Deus a dor causada pois foi a partir dela que moldou a sua personalidade, transformando-o naquilo que é hoje. De volta à questão colocada em “Psycho”: como é que se coloca termo a toda esta dor? Gritando-a ao microfone, partilhando-a com o mundo, usando-a em seu próprio benefício. Mais do que uma terapia ou um concentrado depósito de sentimentos, PSYCHODRAMA é uma consagração musical. Que grande mas mesmo grande álbum este. Certamente dos melhores que ouvirão este ano.


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