Sampa The Great // The Return

[TEXTO] Rui Miguel Abreu

Tempos houve em que a ideia de “normalização” dominava a música: no hip hop todos queriam samplar como se fazia em Nova Iorque, procurando, em Lisboa, Londres ou Paris, os mesmos discos poeirentos de Isaac Hayes que garantiam a patine certa na hora de criar beats; no rock, e em garagens espalhadas por todo o globo, sonhava-se com a Fender certa, com o amplificador Orange igual ao que estava na capa “daquele” álbum, para que não houvesse real diferença entre gravar nas Caldas da Rainha em 1993 ou em Detroit em 1969; com a disseminação da cultura rave, tentou-se criar um planeta capaz de dançar unido sob uma mesma batida, com “So Get Up” a ter uma voz californiana gravada com som subterrâneo de Lisboa a pensar nas pistas de Nova Iorque e Londres; e a world music virou conceito apetecível desde que os artistas, senegaleses ou malianos, cubanos ou colombianos, pudessem gravar nos mesmos estúdios de Paris ou Londres ou Los Angeles, com a cultura original relegada para as roupas exibidas nas fotos de promoção e o som vergado ao standard ocidental.

O presente soa diverso. A África de Dino D’Santiago só existe em Lisboa, por exemplo; o trap de Atlanta, o dembow de Porto Rico, o footwork de Chicago ou o grime de Londres têm identidades vincadamente locais e distintas, com cada nuance a ser reduzida a uma essência irreplicável em qualquer outra intersecção de latitude e longitude. E cada artista parece, agora, querer traduzir as suas experiências de vida em fórmulas sonoras próprias, distintas, pessoais e intransmissíveis. Quando os mercados eram locais e se dividiam em territórios, parecia haver modelos com vigor magnético incontornável, capazes de atrair, como um vórtice, quantidades assinaláveis de música de outros lugares: Seattle a dada altura era tanto local geograficamente específico quanto agregador estado de alma para incontáveis seguidores dos modelos oferecidos pelos Nirvana ou Pearl Jam. Agora que vivemos num mercado global em que o Spotify é ele mesmo um território amplo que abarca todo o planeta, carregar com orgulho o sotaque e as marcas sonoras e visuais de identidades locais, traduzir a cultura própria em música, em cadência, em linguajar orgulhoso de todas as suas particulares nuances pode muito bem ser o segredo para o sucesso.



Sampa sabe isso melhor do que ninguém. Sim, é mulher como Rosalía. Sim, é negra como Beyoncé. Mas também é africana como Miriam Makeba, nascida na Zâmbia, e emigrante criada no Botswana que agora vive em Melbourne, na Austrália. Ah, e com uma editora londrina, a Ninja Tune. De onde é, afinal de contas, Sampa? No interlúdio “Wake Up”, uma voz gravada com o atendedor de chamadas, confessa: “I don’t even know where you are…” Ela está, na verdade, a caminho de casa, parece dizer-nos em The Return, contagiante  mescla de hip hop, afrobeats, neo-soul, jazz, electrónica, r&b e algo mais, tudo combinado em proporções que não se encontram em mais lado nenhum. A não ser na sua cabeça.

Sampa falou com Alexandre Ribeiro do Rimas e Batidas sobre tudo isto: “A capa foi feita na Zâmbia. Estou sentada em frente a uma habitação que remete para ‘casa’, o grande tema que liga o álbum”, explica a artista, revelando, afinal de contas onde se encontra, pelo menos espiritualmente. “Como já disse noutras entrevistas, eu comecei a minha carreira na Austrália e descobri que estar longe de casa cria uma sensação de deslocamento. Quando discuti isso com os meus amigos e familiares, ficou claro que muitos de nós passam por esse sentimento de nos sentirmos deslocados. Ainda mais se não puderes voltar a casa; ou até podes estar no teu sítio e não te sentires em casa. Por essas razões, o assunto ‘casa’ tornou-se um tópico central e questões como ‘onde é que é a nossa casa?’, ‘o que é realmente casa?’ e “podemos criar um sítio que sintas como casa dentro de ti próprio?’ foram-se levantando durante a construção do disco. Por isso, achei que era importante pôr uma casa na capa, já que é sobre isso que fala”.

Estamos em 2019 e Sampa The Great não sente, como tantos/as outros/as artistas no presente, necessidade de fingir que é americana ou europeia. A sua singularidade, a sua particular experiência, é a fonte da sua arte: “Eu acho que o que liga a diáspora africana é a nossa cultura, e essa cultura está cravada na minha música. Eu sei que essa conexão está lá. Estando ligados pela música e cultura, nós, os africanos, vamos reagir a isso onde quer que estejamos no mundo. Temos o exemplo do género afrobeats, que vem da cultura nigeriana, mas que é abraçada por todos. Eu acho que viajar ajudou a isso porque estive em diferentes sítios e vi que a diáspora dança a mesma música que dançamos em casa. No fundo, ajudou-me a perceber que essa ligação existe a um nível global”.

É óbvio que Sampa usa The Return para impor a sua visão. A SUA visão. Não a de um conjunto de produtores, não a dos seus convidados – e há alguns, de Silentjay a Whosane ou Krown, embora nenhum com estatuto de “estrela” que pudesse indicar alguma cedência à tal normalizadora vontade de encaixe num plano comercial maior –, não a da sua editora – e a marca Ninja Tune carrega peso identitário, como bem sabemos. A exposição dessa visão é realizada na suave viagem entre diferentes paisagens sonoras: só nas primeiras faixas circulamos entre uma África urbana e espiritual (“Mwana”), passamos pelos suaves terrenos da soul num hino à liberdade artística no seio de uma indústria voraz (“Freedom”) e depois, no encontro com o MC Krown, Sampa exibe o seu flow ultra-musical e ostenta o seu timbre particular, meio irónico, mas inteiramente mordaz num cinemático momento hip hop (“Time’s Up”).



Mas o fogo de artifício feito colorido e explosivo flow é-nos oferecido mesmo em “Dare to Fly”, tema em que Sampa se espraia com absoluta classe, não dispensando ainda assim uma injecção de África por via do arranjo de vozes numa canção que vive de bateria sincopada com pulso africano e guitarra que parece ser tocada numa esquina qualquer de Lusaka. “OMG” seria outra hipótese: incrível produção que Sampa coroa como a verdadeira rainha que é, transportando um arranjo declaradamente hip hop para as estradas poeirentas de África por via da cadência, das vozes no refrão e algo mais de indizível. (Desafio: tentar ouvir esta música com o dedo longe do botão de repeat…)

Os beats poeirentos polvilhados de jazz (“Grass is Greaner”,  “Any Day”, “Final Form”, “Diamond in the Ruff”, “The Return”) parecem indicar que Sampa cresceu a ouvir Madlib, certamente um pouco de Erykah Badu (poderá ter sido com a Americana que ela aprendeu a injectar ironia no seu tom), e demais hip hop tecido de samples clássicos de soul, mas, apesar de contar uma breve passagem pela América antes de ter desaguado na Austrália, esta artista vem de um sítio espiritual bem diferente daquele que pode ter gerado as suas principais referências. “Almost cracked under the pressure”, confessa-nos Sampa em “Heaven”, tema em que aborda essa nunca terminada demanda de quem não sabe exactamente a que local pertence, o que pode, em si mesmo, ser um fardo avassalador. Bem diferente do discurso centrado no “hood” de boa parte do hip hop americano que parece viver de um orgulhoso fincar de pés no bairro onde se nasceu.



E se em “Leading us Home”, Sampa parece, antes de mais nada, apostada em mostrar-nos que sabe fazer um Anderson .Paak tão bem como o dito cujo, logo depois, na companhia de músicos do colectivo londrino Steam Down, é “Summer” que nos embala para um lugar de pureza absoluta, com o seu verso a revelar subtis aromas de Amy Winehouse que apenas sublinham a incrível versatilidade do seu instrumento.

A voz de Sampa – a sua personalidade, o seu timbre e grão, a sua tessitura, a sua entrega e elasticidade – é, afinal de contas, o grande trunfo deste The Return: ouvi-la é escutar um incrível instrumento, capaz de enormes subtilezas, em que nos podemos perder tranquilamente, seguros que estamos de nos reencontrarmos sempre, pois na sua execução reconhecemos a classe familiar dos grandes artistas a que regressamos com frequência. E se calhar podemos ler assim também o título deste primeiro registo de longa-duração oficial de Sampa The Great: um regresso que vamos querer ensaiar muitas vezes, como quando voltamos a casa para nos rodearmos do que amamos, do que é familiar e nos oferece o conforto sem que não sabemos viver. É isso: a voz de Sampa soa a casa. E não há melhor elogio do que esse…


Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
Rui Miguel Abreu