Tyler, The Creator // IGOR

[TEXTO] Miguel Alexandre 

As mudanças temperamentais de Tyler, The Creator têm sido até agora largamente justificadas pela ausência de algo – do seu pai, de amor, de reconhecimento pela comunidade do hip hop. O seu mecanismo de defesa era antagónico ao que estava devidamente a faltar em cada disco e mostrava-se como um faceta dura, pungente e penumbrosa: Tyler era um rapper controverso, que cuspia versos homofóbicos, cantava sobre necrofilia e violência contra mulheres. O efeito de choque era bem presente na discografia, que, por pura coincidência ou não, atraía mais ouvintes a cada álbum. No entanto, esta amargura tornou-se fatigante em 2017, altura em que lançou Flower Boy, o trabalho mais introspectivo da sua carreira. Passou a olhar para a sua vida com nostalgia, mas usando ao mesmo tempo um filtro soalheiro. As batidas quase industriais e apocalípticas foram rapidamente substituídas por elementos de neo soul e r&b. A crítica gostou da mudança, mas mais importante, Tyler pareceu ter encontrado a sua voz e a sua posição neste universo musical.

Agora, se ainda colocávamos a ideia de que o disco seguinte seria acerca de uma descarga infernal de porrada semelhante aos tempos desusados, tamanha enxurrada implicaria uma encenação que criasse condições para tal. O que recebemos dois anos depois é uma certa emoção na brutalidade, que, nos momentos mais coléricos, faz com que cada expressão doce e indulgente seja igualmente penosa. IGOR não é bruto simplesmente por o ser – mostra-se apenas como um preciso retrato de resiliência: resiliência esta de alguém acusado de ser impiedoso, mas que sangra e chora como qualquer outra pessoa.

IGOR é o fio condutor das ideias mais radicais e orgânicas da sua discografia: escrito, produzido e conceptualizado pelo próprio Tyler, a composição é mais ligada a uma estrutura pop convencional, não colocando desta vez os versos fervorosos de Cherry Bomb na linha da frente. O resultado principal são músicas que não se desenvolvem num crescendo, porque normalmente começam lá; um grande exemplo é a sinistra abertura, “IGOR’S THEME”, que serve como uma menção cautelosa do que virá nas faixas seguintes: “He’s coming”, canta, não sabendo bem se se refere a ele mesmo, a um heterónimo sisudo, ou à própria música em si. Aqui vários synths arrebatadores guiam o seu desenvolvimento, mas são interrompidos abruptamente em “EARFQUAKE”, possivelmente a “Thinkin’ Bout You” do álbum: lamentosa, embirrenta e desolada. Ainda só estamos na segunda canção e a quantidade de socos atrás de socos atrás de socos emocionais que levámos é incomensurável; afinal, Tyler não se quantifica pelo número de histórias que transmite – foca-se somente numa e expande-a, como se estivéssemos a ouvir Frank Ocean ou até mesmo Van Morrisson a descrever um conto de amor que acaba… mal.

A violência conflituosa e comovedora é o músculo de IGOR, mas ao contrário do que acontecia em esforços anteriores, aqui há mais oxigénio, mais tensão, mais oportunidades para uma exploração celular das melodias, o que é evidente em “I THINK” ou “A BOY IS A GUN”: Tyler coloca-se no centro de um triângulo amoroso e manifesta-se através de uma produção primaveril e salvífica. Sem se prender em meros eufemismos, estes dois momentos em específico representam o mais próximo que ele já esteve de compor uma música de amor – afinal de contas, esta é a mesma pessoa que canta “I just wanna talk, and conversate/ Cause I usually just stalk you and masturbate”, “My urethra, hole that I pee from/ Bigger than an obese snack on Aretha”, ou “I’ll crash that fucking airplane that that f*ggot nigga B.o.B is in/ And stab Bruno Mars in his goddamn esophagus”.

Se olharmos atentamente para “NEW MAGIC WAND”, o trabalho lírico é idêntico aos exemplos que foram mencionados, mas desta vez há uma direcção diferente: é violento, mas admirável; comatoso, mas sentido – há uma diabólica vontade de eliminar a todo o custo a outra pessoa que está a atrasar o cenário amoroso de Tyler, mas ele sabe que não se deve apressar algo que está destinado a ser destruído. As personagens envolvidas nesta narrativa são o rapaz por quem se apaixonou (“You’re my favorite Garçon”) e a ex-namorada que ainda mexe com a mente da atracção central (“I hope you know she can’t compete with us”), e Tyler no centro deste novelo sentimental.

Conforme o disco se desenvolve, mais gravitacionais são as ondulações entre a negação e a aceitação do artista, esperançando-se sempre na eventualidade de que o seu amante encontre uma satisfação, mesmo que implique um futuro sem ele: “Take your mask off/ Stop lying to yourself/ I know the real you”, pede em “RUNNING OUT OF TIME” – esta é uma mudança drástica de alguém que previamente era alérgico às perspectivas das outras pessoas, mas o arrependimento, numa última análise, levaram-no à auto-descoberta. “You never lived in your truth”, confronta.



Não há um único momento que seja exclusivo a IGOR, pois ao longo das 12 faixas, Tyler usa-o para lidar com a incerteza e insatisfação de uma maneira instável e inquieta. Há, contudo, uma sobreposição saudável entre os dois: uma amálgama que a uma certa altura torna-se uma só e os dois cantam em uníssono – até porque, à partida, apontar com o dedo onde precisamente começa um e termina o outro é um exercício fútil. Tyler desmonta-se enquanto ser humano pela primeira vez com a sua audiência e cada caco do seu coração despedaçado é-nos alimentado sem qualquer prudência ou formalidade – álbuns como The Ooz, de King Krule, ou 808s & Heartbreak, de Kanye West, brincam com este tipo de lógica e conseguem comunicar o humor dentro do seu pathos.

Mas Tyler é diferente. O elemento que distingue IGOR do típico “Break-Up Album” é precisamente a conclusão cognitiva a que chega em “ARE WE STILL FRIENDS?”: as linhas entre o desejo e a realidade, entre o seu monólogo interno e a interacção social, tornam-se indistintas e em vez de levarmos novamente murros na cara, somos, antes de mais, aliados à dor do protagonista, mesmo que muitas vezes seja ela injustificada ou imatura – mas damos-lhe um desconto, especialmente porque o amor não-correspondido não é uma cicatriz fácil de sarar.

O disco inteiro é sustentado por acordes industriais, quase mutantes, tonalidades com rachaduras e instrumentalizações lustras. Tyler canta maioritariamente num falsetto sintético, que adiciona um certo surrealismo quando o assunto em questão torna-se cada vez mais complicado de pronunciar: “Tell me where to go/ Can I have my heart back”. Apesar disso – ou também por isso – IGOR é um trabalho latejante, vibrante, que encontra algo de triunfante no seu luto. Ouçamos “GONE, GONE/THANK YOU”, a canção estelar bipartida entre uma primeira parte ligada ao som Motown, e uma segunda parte mais distorcida e psicadélica. Aqui rebrilha a cada passo uma possível aceitação, uma intensidade catártica capaz de parar uma sala inteira – isto é Tyler a superar-se. A música termina com ele a agradecer por todo o amor presenteado, por todas as experiências vividas e por todos os sentimentos sofridos. As memórias permanecem e atormentam-no em momentos de solidão ou de escassez emocional. Afinal não há nada que falte dizer quando já demos tudo o que tínhamos à outra pessoa. No final, nada resta. Tyler levanta-se, agradece e vai-se embora. Fim de cena.


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