AMAURA // EmContraste

[TEXTO] Miguel Alexandre 

Vamos ser pragmáticos: Maura Magarinhos é uma pessoa directa ao assunto, já AMAURA é uma confusão. Magarinhos é a adulta séria que vê a música como uma forma de se sustentar, AMAURA é a doce indulgência de um bom storytelling. A primeira junta os cacos do coração que a segunda deixou partir. Uma é o lado oposto da outra, mas as duas existem com o objectivo de se complementarem e de se ajudarem neste novelo existencial que é a vida adulta. No entanto, neste disco, a fórmula varia um pouco: AMAURA tem um pé de vantagem em relação à sua homóloga, e toma a direcção artística e emocional neste conjunto de faixas, que muda de temperamento tão facilmente como muda de tempo. Em EmContraste, os sentimentos são desorganizados, cáusticos, de pura euforia e picardia adulta num mundo ainda imaturo. O talento de Maura é indiscutível, mas aquilo que cintila com mais força é mesmo a incerteza do que irá acontecer a seguir – quer no álbum, como na vida dela. Mas ela sabe que em nós, o seu público, consegue confiar.

Pop sinfónica, r&b moderno, há maneiras de explicar o que vai realmente mal nestes dias, mas aqui qualquer análise começa por dentro. “EmContraste”, tanto o disco como a faixa que lhe dá título, é um encontro rendido com a ilusão de fragilidade da cantora, enquanto AMAURA nos agarra ao brincar com a loucura juvenil. Falamos aqui em amores mal-amados, desilusões geracionais e inconsistências com o próprio ser; não são temas originais, claro, e são rapidamente replicáveis pelos contemporâneos que adicionam cada um a sua versão à história. Mas são estes capítulos diferentes que tornam esta narrativa ainda refrescante e original. Afinal, não há fins de relações iguais, não há reconciliações que se façam com a mesma estamina. O sentimento é universal e não há barras territoriais ou linguísticas que o limite. Se olharmos além-fronteiras, há um pouco de SZA, um pouco de Ari Lennox, e um grande lote de H.E.R: “Azedo e doce, já tu provaste/ Assim sou eu, sempre em contraste”.  

Inebriada em experimentar e incansável em surpreender com os seus recursos, a premissa deste disco é introspectiva, é um resumo das vivências de alguém que aprende com os erros e segue em frente. As músicas são pequenas novelas para as situações de todos nós, exercícios dramáticos que visam a salientar a essência derribada das nossas emoções. O importante é haver preocupação com o amor que temos em nós mesmos, especialmente quando ele é tão bem manipulado em “Só Sinto”: a “música mais emotiva […] no disco”, segundo a própria, que tem um desempenho tão glorioso no seu decorrer, lembrando um outtake de Noname.



Estas descrições, estes sentimentos vividos à flor da pele, são, na verdade, uma arma carregada no arsenal de AMAURA. Aliás, o próprio contexto é propício para tal. Este disco, editado pela Mano a Mano, é o resultado de anos em colaborações com artistas que seguem a mesma batuca. O Amor Encontra-te no Fim, de Fred, Forever Young, de TNT, Classe Crua, de Beware Jack & Sam The Kid: todos falam na primeira pessoa, mostrando ao mesmo tempo como são vividos cenários com outros.

AMAURA é mais contida, também porque ainda tem muito que aprender nesta vida de contador de histórias, mas liberta-se como bem quer neste disco. Libertações estas que são feitas em pequenos ataques mordazes e atitudes descuradas. “Surfistas da Banheira” é um perfeito exemplo: um tiro certeiro para provar que também os sabe dar. Este é dos momentos mais desprevenidos do álbum, e, apesar de ser dos mais difusos e mal concebidos, acaba por ter um elo de verdade: “Baseia-se […] sobre a ideia de que a sedução ou o interesse de uma mulher provem do valor material ou status que o parceiro lhe possa dar”, conta ao Rimas e Batidas. As letras revelam uma auto-determinação por parte da própria ao impor-se perante um homem que não lhe dá metade da atenção. Ela vindica-se ao escolher cuidar dela mesma e protege-se para evitar que o passado se repita: “Mulher troféu? Para mim, no way”, canta. A música perde um pouco o seu estatuto com as analogias que são feitas no trabalho lírico: preguiçoso, sem retorno e ainda mais sem finalidade, acabam por tirar importância à mensagem primordial da canção: “Sabes que eu tenho pouco, mas o pouco que tenho é teu/ Nem CEO, nem Romeu”.

De qualquer forma, consoante os temas de agitação interna e de turbilhões emocionais, há na sua génese uma componente de emancipação e de resiliência. “Sufistas da Banheira” pinta essa ideia – apesar de o seu esforço não ser propriamente concretizado -, mas é logo no início deste disco que temos uma imagem mais completa: “T.P.M.” não se refere à tensão pré-menstrual, apesar das várias analogias, mas sim a todas as maneiras imagináveis que se pode calar um homem, quando este utiliza a carta do “estás naquela altura do mês?”. “Também Podias-te Mancar” utiliza comportamentos ainda estereotipados para introduzir lições que os namorados de hoje ainda precisam de aprender. AMAURA demonstra-o de uma maneira tão desprendida e leve, que nos esquecemos de que estamos a falar de um problema a nível da igualdade de género. Ainda este sábado, Phoebe Waller-Bridge foi a anfitriã do Saturday Night Live e no seu monólogo inicial disse que a característica mais sensual de um homem é ouvir, coisa que ainda poucos fazem. Magarinhos parece estar farta de se repetir, mas ela não o faz com o objectivo de soar paternalista, nem para mostrar ao seu parceiro o que pode ser pouco óbvio – fá-lo para mostrar que, enquanto mulher, o sentimento é essencialmente e unicamente dela.

EmContraste termina com um tributo a uma das heroínas de Maura: Amy Winehouse, ao dar a sua voz a uma rendição de “Valerie”. É fácil encontrar-lhe as influências da cantora , quer seja na remanência assertiva de “Coopero”, na ousadia de “Voyerismo de Memória” ou até mesmo na sinceridade descarecida da canção que dá nome a este trabalho. Mas o seu momento mais Winehouse nota-se em “Blues do Tinto”, e aqui o disco chega à sua altura mais definitiva. Não só é a melhor música entre estas 11 faixas, como junta todos os dotes e truques da sua mestria: a voz sedutora e arrastada por riffs de guitarra, o toque de Jil Scott – e de todas as grandes vozes do neo-soul daquela altura na produção – e a letra cáustica, metafórica e aliterada. Os cenários de AMAURA são tão ricos e frenéticos quanto as histórias que ela nos conta e é essa veia que é necessário preservar. Entre aventuras e desaventuras, é essencial que o coração dela fique desorganizado e perdido – mas sempre sincero.


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