Classe Crua // Classe Crua

[TEXTO] Moisés Regalado

Assim dá gosto. Ainda o rescaldo da compilação (calma, não deixa de ser um álbum) Mechelas tinha ecos quando o projecto de Beware Jack e Sam The Kid se confirmou para breve, num golpe de regularidade cada vez menos habitual nos representantes da velha escola. E se em Mechelas nem sempre parecemos estar diante de um legítimo disco de Samuel Mira, pode dizer-se que Classe Crua, mais do que para todos os gostos, é um disco para todas as expectativas.

O flow de Beware nunca foi dado a grandes amarras e os seus ouvintes nunca quiseram ouvi-lo de outra forma, à boleia de uma estética que não fosse a sua, mas não deixa de ser curioso ver os efeitos do tempo nas rimas do MC, cada vez mais atinado com as tarolas que nunca lhe disseram assim tanto. Nem por isso o encanto se perdeu e até por isso se torna um prazer ouvir o renovado Beware Jack, tão inato como sempre e tão refinado como tem que ser (“com o tempo fico melhor como vinhos”). Com Sam, a história é diferente e, como não poderia deixar de ser, só e apenas sua.

Dizer que o auge já lá vai é arriscado, principalmente quando as provas em contrário continuam a cair com regularidade, tão paradigmáticas como, de resto, este álbum de Classe Crua, mas pelo menos já se pode discutir sem grandes pudores se Sam é, afinal, o melhor MC (ou produtor) português da actualidade — do rap nacional como um todo, certamente será. Por muito ambiciosa, gulosa até, que a questão possa parecer, a resposta tem tanto de vaga como de conclusiva: não interessa.

Não interessa, primeiramente, porque aqui o microfone foi muitíssimo bem ocupado. O chavão de ProfJam já se instalou e vale a pena usá-lo: Beware está mesmo no topo do seu game e não há volta a dar. Mas voltemos a Sam. Como num astronauta que, embora envelheça, regressa do espaço mais jovem do que seria caso se tivesse mantido em terra firme, a maturidade de Sam The Kid também não é comparável com a daqueles que sempre habitaram a terra sem questionar a passagem do tempo (a mesma que Sam The Kid desafia desde 1999).

As palavras de Samuel em “A Minha Praia” são Entre(tanto) e são Sobre(tudo); têm tanto de Pratica(mente) como de todos os versos milimétricos que o ouvíamos cuspir regularmente entre álbuns, e que representavam um outro Sam The Kid, diferente daquele que esculpia os discos. À destreza técnica do costume, em nada contrastante com a bitola de 2019, junta-se a “vibe“, presente nas suas rimas desde sempre mas aqui sublinhada e realçada a negrito. Quase como que numa caricatura, dos outros só que também de si mesmo — quem nunca ouviu alguém soar como Sam soa em “A Minha Praia”, desafiando a ténue fronteira entre o byte e a influência?

Se Beware brilhou, Sam brilhou primeiro. Nem mais, nem menos, mas brilhou primeiro quando deu forma aos samples, aos baixos e às discretas baterias de Classe Crua, para que depois, aí sim, Beware segurasse a tocha. Desafio aceite e missão cumprida: há quanto tempo não viam um rapper português lançar uma hora quase ininterrupta de boas rimas, com mais versos do que bridges ou refrões? Na verdade não interessa, contando que estas merecem a vossa total atenção.


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