Os 10 melhores álbuns nacionais de 2019

[ILUSTRAÇÃO] Riça

Não se resume um ano em 10 discos. Os anos não se resumem, vivem-se. E, neste caso, escutam-se, atentamente. A dezena de trabalhos que aqui se destaca acaba por representar muitos mais que noutro dia qualquer poderiam também ter aqui lugar: o melhor do nosso hip hop, da nossa electrónica, o melhor do nosso balanço e da nossa alma, o melhor da nossa musicalidade e da nossa particularidade poética. Tudo passa por estes 10 discos que carregam consigo o lastro de outras tantas menções honrosas. É parte do que de melhor nos deixa 2019 para o futuro que já começou. Parte importante.


[SLOW J] You Are Forgiven (1º lugar)

Por aqui escrevi que em You Are Forgiven, Slow J “olha para trás e para a frente ao mesmo tempo, “both directions at once”, como Trane…” E essa é provavelmente a chave do seu génio: a capacidade de entender a história, de reclamar um lugar no seu fluxo, mas não enjeitar o que existe à sua volta e o que vem galopando na sua direcção, vindo do futuro. Este álbum de nove pérolas resulta de ambiciosa ponderação, de capacidade de reunir talentos relevantes à sua volta, mas sobretudo de transformar vida em arte, experiência em canção, dor em luz. Um serviço que Slow J faz à música portuguesa, ajudando-a a avançar para um lugar onde tudo pode dar as mãos: o hip hop e o fado, África e o canto livre, trap e a gestão orgânica de almas que querem ir longe.

– Rui Miguel Abreu


[PROFJAM] #FFFFFF (2º lugar)

Desenvergonhadamente trap e pop sem que seja nenhum dos dois em concreto, o álbum de estreia de Mário Cotrim é o tipo de registo que separa águas, cria guerras, fomenta fundamentalismos e faz escola, dividindo o terreno entre aqueles que amam e aqueles que odeiam. Porém, se “todas as cores vivem dentro do white”, como nos canta, é imperativo ir para lá da primeira camada/impressão, ir para lá dos “berros de um louco”. ProfJam está em permanente debate consigo próprio, com os outros e com o mundo; e #FFFFFF é o resultado, em 11 canções, das suas mais recentes indagações, sejam elas do foro espiritual ou do musical (com a ajuda fundamental de Lhast, no último caso). Em terra de iluminados cheios de certezas, quem se questiona é imprescindível. 

– Alexandre Ribeiro


[ALLEN HALLOWEEN] Unplugueto (3º lugar)

“Crónica da luta interior de alguém que quer apenas encontrar o seu lugar”. Esta forma que encontrámos de descrever o álbum com que – sabemo-lo agora…. – Allen Halloween resolveu despedir-se do mundo da música era estranhamente presciente. Allen Pires encontrou finalmente o seu lugar e nesse plano não há espaço para o rapper que se apresentava como Halloween. Mas nada pode apagar o que nos deixou. E Unplugueto é peça fundamental de uma obra maior e significante. Aqui, Allen revisitou canções que já conhecíamos e ofereceu mais um par de diamantes à arca do tesouro que é o seu cancioneiro, como “Na Porta do Bar” ou “Assassino”, provando que se calhar não há tanto assim a separar Kurt Cobain ou Nick Cave de 2Pac ou Biggie Smalls.

– Rui Miguel Abreu


[BRANKO] Nosso (4º lugar) 

Depois de Nosso, nada mais voltará a ser igual. Neste que é o segundo álbum da sua carreira a solo, Branko quebra o grande estigma que mora inconscientemente no nosso interior enquanto portugueses: o de, supostamente, nunca conseguirmos ser suficientemente bons para ombrear com o que se faz lá fora. Nosso é um álbum quase intocável no que diz respeito à produção, com instrumentais muito bem construídos e optimizados para diferentes situações. Mas não é só de estruturação rítmica e melódica que se faz um bom produtor. Neste disco, as participações são dardos no centro do alvo (porque uma boa colaboração não depende apenas dos atributos do artista mas também da adaptabilidade à missão proposta), proporcionando uma escuta fluída e variada, com várias cores, texturas e idiomas, somando mais cartas geográficas ao livro que começou a escrever em Atlas.

– Manuel Rodrigues 


[STEREOSSAURO] Bairro da Ponte (5º lugar)

Stereossauro criou em 2019 um disco singular de música portuguesa. Com uma mão na tradição e outra na modernidade, o produtor e DJ das Caldas da Rainha mergulhou nos arquivos poeirentos da Valentim de Carvalho para recuperar pistas — autênticas pérolas — de gente como Amália Rodrigues ou Carlos Paredes. A partir daí, construiu os instrumentais de hip hop e electrónica que formam este Bairro da Ponte. A grande cereja no topo do bolo são os inúmeros convidados (fadistas, rappers, músicos no geral) que povoam as construções de Stereossauro e acrescentam o seu próprio valor. É um álbum conceptual incontornável do ano que passou, num mundo que está cada vez mais aberto e disponível para aceitar tradições (sobretudo com fusões) de música não anglo-saxónica.

– Ricardo Farinha


[SENSIBLE SOCCERS] Aurora (6º lugar)

Em Agosto deste ano, diante de milhares de corpos suados, os Sensible Soccers apresentavam o seu mais recente disco no Bons Sons. Após um concerto que pareceu vergar todas as noções de tempo, ouviam-se vozes extasiadas: “Opá, isto nem parece que é português”. E será?

Não nos levem a mal: o quinteto é decididamente de cá, e teve selo de produção da cortesia de um dos maiores deles todos: o ilusivo B Fachada (que também se encarregou de contribuir para três das faixas que fazem Aurora). No entanto, quando nos afundamos no seu terceiro álbum, compreendemos que a sua música, uma sopa cada vez mais densa de krautrock e electrónica não é bem de cá. Não é de lado nenhum, na verdade: tanto nos mostra um quadro de Rousseau (“Como quem pinta”) como de um televisor ligado numa tarde de aldeia do interior de Portugal (“Fenómeno de refracção”).

“Opá, isto nem parece que é português”. Mas é. E que bom que é.

– Beatriz Negreiros


[ZÉ MENOS] o chão do parque (7º lugar)

Que o Porto é fértil em gerar clássicos está longe de ser uma novidade. Curioso é que criativos de vanguarda, como Keso ou Virtus, já não gozem do mesmo mediatismo que os seus antecessores conheceram, como Dealema ou Mind Da Gap, apesar de contarem com trabalhos irrepreensivelmente esculpidos ao mais ínfimo dos detalhes nos seus catálogos. Passou pouco mais de um mês desde que o chão do parque se cobriu de folhas e a sensação que temos — analisando o seu alcance na esfera digital — é a de que ninguém as está realmente a apanhar para as eternizar no herbário do hip hop tuga. Há escorregas que levam a encontros, desencontros, medos e angústias neste parque de um sem-número de quotables, pavimentado com um solo moldável que se adapta tanto às tradicionais batidas de hip hop como ao swing do samba ou à distorção e reverb das guitarras do rock indie. A nossa missão será, no mínimo, facilitar uma carreira digna a zé menos para que nos continue a presentear com discos como este, que vão sobreviver a listas e tendências. o chão do parque fica para a vida.

– Gonçalo Oliveira 


[CLASSE CRUA] Classe Crua (8º lugar)

Se trocássemos “crua” por “refinada”, o nome (que também é título de disco) continuava a fazer sentido: a crueza (que pode ser assumida como uma espécie de afirmação de aproximação à raiz da arte) está, aqui, alinhavada com a refinação da escrita de Beware Jack e da produção de Sam The Kid, dois mestres em comunhão que conseguiram criar um conjunto de 16 canções (com pouquíssimos fillers) onde não existem manhas, somente instrumentais de recorte clássico com pendor visual e narrativas que são desenroladas com propriedade e pertinência (nos ângulos e na técnica), e sem pressas. “Há quanto tempo não viam um rapper português lançar uma hora quase ininterrupta de boas rimas, com mais versos do que bridges ou refrões?”

– Alexandre Ribeiro


[DAVID BRUNO] Miramar Confidencial (9º lugar)

Que David Bruno, produtor, cúmplice do Conjunto Corona e figura incontornável da singularidade hip hop nacional, se tenha conseguido impor com a sua incrivelmente específica visão do nosso Norte (Gaia, Mafamude ou Miramar são pontos cardeais fundamentais na sua rosa dos ventos) é admirável num país que por vezes faz ouvidos moucos de “sotaques”, digamos, mais “exóticos”. No seu mais recente álbum, uma delirante história de calotes que funciona como retrato de um país que existiu (e talvez ainda exista…) em lugares ainda não tomados de assalto pelo rolo compressor do turismo, isso traduz-se em criativa transformação de algumas das marcas da cena vaporwave, com requinte próprio e sentido de humor que nunca atrapalha a seriedade da visão final. Isto é música séria, carregada de fantasia, com o hip hop a dialogar com outras paisagens em busca de um som final que soe fresco. É ouvir “Interveniente Acidental”, com Mike El Nite, para se perceber o potencial de tais experiências…

– Rui Miguel Abreu


[DINO D’SANTIAGO] SOTAVENTO (10º lugar)

“Acho que quando eu partir desta para melhor, o pessoal se vai lembrar de 2019”, dizia-nos Dino D’Santiago. Foi o ano de continuar a viagem de Mundu Nôbu: requisitado pelo NOS Primavera Sound, pela Rolling Stone ou por Madonna, Dino fez história — mas também fez um disco.

Um EP com arcaboiço de longa-duração, SOTAVENTO reconciliou-o com a morabeza musical dos anos 80 e 90: uma ligação à terra que não consegue ser neutra. É uma descarga eléctrica em cinco actos, das palmas em rugido de “BRAVA” ao abalo estratosférico de “MAIO”. Dá continuidade ao legado modernizante de Livity ou Grace Évora, porque não tem medo de experimentar com a voz, transpor o batuku e o funaná para o futuro que é já agora: uma prospecção ilimitada, própria de um visionário. 14 minutos bastam como prova.

– Pedro João Santos 


MENÇÕES HONROSAS: Ilha de Plástico (Montanhas Azuis), EmContraste (AMAURA), inacabado (xtinto), Amarração (Odete), Porcelana (Perigo Público & Sickonce), Cartas na Manga (DJ Nigga Fox), Ardeu (DJ Firmeza), Carregando a Vida Atrás das Costas (Puto Tito), Baia (Pongo) e Meio que Sumiu (Ondness).

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