Branko // Nosso

[TEXTO] Manuel Rodrigues

“Nem parece nosso”, dirão muitos ao ouvir o mais recente disco de Branko, produtor português e membro fundador dos Buraka Som Sistema, que acaba de mostrar ao mundo aquele que é o segundo marco da sua caminhada a solo. De facto, do ponto de vista da qualidade de produção, mistura e masterização, Nosso, título do longa-duração, poderá ser facilmente confundido com o que de melhor se faz lá fora, ou seja, não parece ser nosso mas sim deles. E quem são os “eles”? Os produtores de renome a nível mundial, responsáveis por catapultar as canções produzidas nos seus estúdios para os topos das tabelas de vendas, tornando-as em êxitos, e transportando nomes por vezes desconhecidos, nunca falados, para a ribalta.

Desde ATLAS, editado em 2015, que João Barbosa, mais conhecido como Branko, nos acostumou a um nível de produção elevado, muito acima da bitola que nós próprios, portugueses no geral, nos auto-impusemos – existe frequentemente uma falta de ambição aliada ao chavão “para português até que não está nada mau” que por vezes nos impede de sonhar mais alto. É verdade que não possuímos o mesmo historial musical e as mesmas condições a nível de equipamento e cultura produtiva de países como os Estados Unidos ou Inglaterra, porém, nada nos impede de querermos aproximar-nos o mais possível do que eles fazem, ao invés, claro, de nos contentarmos com o mediano.

Branko é o tipo de artista que não se fica pelo bom – e isto está vigente desde os tempos dos Buraka Som Sistema, colectivo com o qual, na companhia de Riot, Conductor, Kalaf, Blaya e Fred, cimentou as qualidades de construtor de batidas. ATLAS, voltamos novamente a ele, é a confirmação dessa sua vincada característica e nova prova que é possível morder os calcanhares dos melhores a nível mundial. No geral, “Reserva Pra Dois”, presente no disco de remisturas dos originais de Atlas, intitulado ATLAS Expanded, lançado em 2016, não fica a dever nada a “Lean On”, dos Major Lazer. No tratamento de vozes, “Let Me Go” aproxima-se dos temas que integram o álbum Pieces of Me, de Black Coffee. No contágio, “Fluxo” consegue bater várias criações dos Tropkillaz. E estes são apenas alguns exemplos.



Apesar de não parecer nosso no contexto meramente estético, Nosso é nosso, salva a redundância, no que ao conteúdo diz respeito. É um quadro lisboeta pintado com uma vasta palete de cores. Se no disco anterior Branko aterrou em cinco países diferentes para a sua concepção, neste aproveita as milhas intrinsecamente acumuladas para desenhar uma cartografia onde Lisboa surge com carregados contornos, olhando de dentro para dentro de si própria, analisando-se, resumindo-se, elogiando-se, tomando consciência da metamorfose que sofreu nos últimos anos e dos pontos positivos e negativos inerentes.

Nesta Lisboa cabem as festas africanas em quiosques junto ao rio, os sunsets em terraços elevados com banda sonora afro house, as celebrações à noite nos principais locais de interesse nocturno e as residências artísticas espalhadas pela cidade das quais João Barbosa, com as Hard Ass Sessions (Lux) e as Na Surra (B.Leza), faz parte. Cabe tudo isto e muito mais. Cabe o negócio Airbnb e os tesouros escondidos dos bairros históricos, as esplanadas sobrevalorizadas e as belas fachadas tradicionais, a praga dos tuk tuks e a resistência do comércio tradicional, os cruzeiros poluidores e o pulmão natural em pleno centro da metrópole, as zonas modernas e desenvolvidas que se opõem a outras degradadas e abandonadas.

Lisboa vive imersa numa dualidade de sentimentos. Se por um lado há uma periferia que tende em centralizar-se, evocada na “Nova Lisboa” de Dino D’Santiago, que em Nosso assina um dos mais interessantes temas, “Tudo Certo”, existe, por outro lado, uma vontade de a empurrar de volta para a margem do quadro que, aos poucos, procurava ser homogéneo, como serve de exemplo o recente caso do Bairro da Jamaica. São pólos que não se atraem mas que caminham de mão dada numa estrada policromática ladeada de várias linguagens, onde se destacam inglês, francês, espanhol e português (seja ele de Portugal, Brasil ou dos PALOPS) – todas elas abordadas no novo álbum de Branko.



Nosso nasce na capital portuguesa, aprofunda-se no estrangeiro e volta novamente à origem para se aprimorar. Trata-se de um naipe de demos pós-Atlas que procura em Miles From Kinshasa, Dino D’Santiago, Umi Cooper, Sango, Cosima, Mallu Magalhães, Dengue Dengue Dengue, PEDRO e Pierre Kwenders, artistas convidados, um input variado e fundamental para o resultado final. Nas várias entrevistas que deu no âmbito do álbum, incluído a do Rimas e Batidas, conduzida por Alexandra Oliveira Matos, Branko afirma que este não é um disco conceptual, onde se propõe a contar uma história, mas sim um conjunto de músicas mais próximo de uma playlist de Spotify do que propriamente do conceito clássico dos anos 90. Porém, sem querer ou sem ter essa preocupação a priori, João Barbosa acabou mesmo por nos contar uma história, a de uma cidade que está em constante mutação, seja ela positiva ou negativa, como discriminado em parágrafos anteriores, ou do ponto de vista cultural ou sociopolítico. Nosso reproduz o actual som de Lisboa, inspirado nos mais variados estilos, do afro house ao tarraxo e do baile funk ao zouk. Talvez seja esta a principal narrativa da obra, o fio que a interliga.

E dá mesmo para se sentir esse pulsar. “Over There”, o tema que abre o álbum, rapidamente nos transporta para o imaginário de clubbing onde tantas vezes os artistas da Enchufada fizeram autênticos brilharetes. Apesar da introdução mais ambiental, conduzida por Miles From Kinshasa, “Over There” não se deixa intimidar e abre imediatamente portas às linhas rítmicas e melodias que tão bem caracterizam o homem de “Let Me Go”. O tema que se segue, “Movimento”, faz pleno jus ao nome e convida para uma dança sensual que desagua em “Stand By”, vocalizada por Umi Cooper. É nesta canção que se evidencia uma das mais interessantes particularidades de Branko: a vontade de deixar a sua própria assinatura através de manipulação de filtros e repetições na cadência da batida, tudo isto no momento em que música caminha para os seus instantes finais.

A dinâmica e o beat quebrado de “MPTS”, a excelente colaboração entre Branko e PEDRO (ex-Kking Kong), volta a lançar o convite para a pista de dança, enquanto “Sempre” e “Amours d’Été” estendem a passadeira vermelha às agradáveis vozes de Mallu Magalhães e Pierre Kwenders, respectivamente, dois artistas oriundos de latitudes e longitudes bem diferentes. Como referido anteriormente, é a Dino D’Santiago que pertence um dos melhores momentos de Nosso, com o músico a cantar sobre uma estrutura musical magnetizante e focada na missão de fazer tremer salas de espectáculo. Uma boa faixa para ser explorada ao vivo. Por fim, “Agua Com Sal” e “Lucuma”, dois temas com sangue latino, por Catalina Garcia e Dengue Dengue Dengue, sendo este último uma verdadeira viagem tribal ao coração da selva peruana.

Em No More Normal, álbum lançado no início do ano, Swindle procura retratar a actualidade londrina. E fá-lo com recurso a artistas que ele próprio considera serem essenciais para essa foto de família. Branko faz exactamente o oposto no seu novo disco. Traça a actualidade lisboeta convidando maioritariamente músicos internacionais. Dois pontos de vista, duas abordagens completamente distintas e ao mesmo tempo válidas. Dois resultados dignos de nota elevada, sendo que não estão assim tão distanciados do ponto de vista produtivo e do resultado final – mistura e masterização – alcançado. No contexto do primeiro parágrafo do texto, é caso para dizer que Nosso nem parece nosso. E ainda bem.


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