Swindle // No More Normal

[TEXTO] Manuel Rodrigues 

No artigo que dedicou a Swindle intitulado Swindle is About Music Unity, publicado em Janeiro deste ano, o site Complex evoca um comentário feito por um utilizador num vídeo da plataforma YouTube em que o usuário estabelece uma espécie de comparação entre o produtor britânico e duas inegáveis lendas norte-americanas das edições discográficas, Quincy Jones e Dr. Dre. Em resposta, Jesse Bernard, o homem que assina o artigo, acrescenta que “apesar de Swindle não ter a mesma fama e notoriedade [que Quincy Jones e Dr. Dre], não existirão muitos produtores no underground musical com a sua longevidade e CV”.

De facto, se olharmos para o seu currículo, que conta com três álbuns de longa-duração – Long Live the Jazz (2013), Peace, Love & Music (2015) e o recentemente editado No More Normal (2019) – vários EPs e uma série de singles soltos, é possível concluir que, além de não ser nenhum novato na matéria, Swindle colecciona uma longa lista de colaborações com músicos das mais diversas áreas, entre outros, Terri Walker, The Milk, Sam Frank, Joel Culpepper, Guerilla Speakerz, Rider Shafique, P Money, D Double E, Daley, Kojey Radical, JME, Andrew Ashong, Eva Lazarus e Nubya Garcia.

O vídeo em questão, que impulsionou o comentário por parte do utilizador Digital Mozart, é uma viagem guiada ao coração de No More Normal, álbum editado no passado dia 25 de Janeiro, onde se podem testemunhar as várias etapas dos processos de produção e gravação repartidos a meias entre os estúdios da Real World e da Red Bull. É um documento repleto de narrativas e testemunhos – entregues por Swindle e pelas restantes partes envolvidas na edificação da obra – que nos ajuda a compreender a génese do disco e a missão a que se propõe.



No More Normal é um retrato da cena musical britânica em 2018. “Quero toda a gente nesta fotografia”, pode ler-se nos parágrafos que acompanham o disco no Bandcamp do artista. Mas Swindle faz muito mais do que juntar uma família inteira para um monumental photoshooting com Londres a servir de pano de fundo para o disparo. Existe aqui uma vincada tentativa de estreitar laços, encurtar caminhos e até unificar membros para que o resultado final não se resuma a um mero conjunto de pinceladas desconexas. Esta tela, de 11 camadas apenas, cruza estilos como o jazz, grime e hip hop, e tanto se expressa através de envolventes secções de cordas como em vocoders que em muito trazem à memória o g-funk da costa oeste norte-americana.

A ponte construída entre o Reino Unido e os Estados Unidos não é meramente casual ou despropositada. Além de já ter trabalhado com artistas norte-americanos – Ash Riser colaborou com o músico britânico em “London to LA”, tema pertencente a Peace, Love & Music – Swindle inspira-se na Califórnia para dois momentos importantes de No More Normal. Primeiro, para desenvolver a textura de “Run Up”, canção que conta com a participação de Kiko Bun, Knucks, Eva Lazarus e Nubya Garcia, cuja cadência parece ter sido resgatada das ruas de Los Angeles. Segundo, para baptizar o antepenúltimo tema do álbum, “California”, através do qual é possível ver Kojey Radical e Etta Bond a unirem esforços.

O cardápio de No More Normal é longo, variado e não se fica por aqui. Existe em “What We Do”, tema de abertura, um verdadeiro embate de titãs da palavra protagonizado por D Double E, Rider Shafique e P Money. Trata-se de um início perfeito: declaração de intenções, ensemble cinematográfico em crescendo e uma explosão de rimas sobre um beat pujante e de ritmo acelerado, a cama ideal para despejar métricas e flows. A passadeira vermelha é prontamente estendida a “Get Paid” que abre de imediato portas a “Drill Work”, provavelmente uma das faixas mais bem conseguidas da obra, com Ghetts a usar o instrumental a seu favor, deixando as cordas respirar quando necessário e entregando as suas estrofes numa cadência lenta mas ainda assim mortífera.



Se no álbuns anteriores Swindle se aproximava tendencialmente do dubstep, sendo que Peace, Love & Music tinha particularidade de partir à descoberta de outros universos, aterrando nas Filipinas, China e Japão com os temas “Malasimbo”, “Shanghai” e “Tokyo”, respectivamente, em No More Normal existe a vontade de encurtar a distância entre os planetas hip hop e jazz, ao ponto de, a dada altura da projecção do álbum, Swindle se ter recusado a incorporar mais elementos do grime para que este não parecesse um trabalho unicamente dedicado ao género.

Ainda assim, são vários os momentos de rima e batida presentes no novíssimo disco de Cameron Palmer, nome que se esconde por trás do pseudónimo Swindle. Além dos já mencionados, podemos encontrar “Coming Home”, um tema incrível assinado por Kojey Radical, “Take it Back”, uma parceria entre D Double E e Kiko Bun, e “Grateful”, nota de agradecimento entregue por Kojey Radical e Rider Shafique, artista que surge nos dois pólos do álbum em formato spoken word. São excepções a esta regra grimesca “Reach the Stars”, com o vocoder de Swindle a evocar mais uma vez as paisagens g-funk da Califórnia, “Take a Lot”, que coloca a voz de Eva Lazarus à prova numa batida acelerada que apenas enfreia com a secção orquestral e o groove solto do baixo, e “Get Paid”, segunda faixa do álbum, a única sem participações especiais e, portanto, toda ela da inteira responsabilidade do maestro desta obra.

Em inglês, swindle pode ser definido como uma acção fraudulenta, um esquema que visa extorquir dinheiro a terceiros, uma fraude, um engano, um embuste. Swindle é também uma jogada de xadrez em que o oponente numa situação desfavorável engana o seu adversário e com isso alcança uma vitória ao invés da suposta e esperada derrota. No More Normal é a antítese de tudo isto. É um retrato fidedigno da actualidade londrina, uma bacia de sedimentação com diversas camadas onde assentam perfeitamente partículas de hip hop, grime e jazz. Tudo em harmonia, como é possível testemunhar no vídeo evocado no início deste texto. É o resultado de um trabalho de três anos, com direito a muita pesquisa, decisões, indecisões, escolhas difíceis e, sobretudo, jogadas de mestre que colocariam qualquer veterano do xadrez a coçar a cabeça. Xeque-mate.


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