zé menos // o chão do parque

[TEXTO] Rui Miguel Abreu

O chão do parque é o mundo. O mundo de zé menos e o nosso. O chão do parque (OCDP) é também uma metáfora, o resultado da visão poética de um artista que acaba de se reinventar perante os nossos ouvidos. Em 2015 respondia ao nome Kap e garantia que Do Nada Nasce Tudo (DNNT), estreia auspiciosa que deixava claro que nos últimos anos a fábrica do hip hop tuga tem procurado usar novos moldes na sua incessante linha de montagem. E essa é uma ideia importante: tempos houve em que o hip hop nacional equilibrava sobretudo duas grandes escolas – Porto e Lisboa – com meia dúzia de mestres a distribuírem ensinamentos a incontáveis discípulos na maior parte das vezes incapazes de se afastarem para partirem em busca de caminhos próprios. Tudo mudou. E ainda bem: os velhos mestres continuam a apontar direcções válidas, mas há também novos mestres e novas lições. Há até quem nem sequer tenha frequentado as escolas e ainda assim seja capaz de ter algo a dizer. Vivemos num admirável novo.

zé menos abriu o seu livro a Gonçalo Tavares numa belíssima e bastante esclarecedora entrevista publicada no dia de lançamento de OCDP. A dada altura confessa que KSX2016, o álbum de Keso, mexeu profundamente consigo fazendo-o sentir que “estava atrasado”. Há várias camadas nessa simples admissão, todas relevantes para compreendermos OCDP: por um lado fala-nos de urgência, da corrida contra o tempo que a arte também pode ser, quando quem cria sente que não lhe sobram os dias para despejar sobre o mundo – o tal parque… – tudo aquilo que sente, que pensa, que sonha; por outro lado, esse “atraso” de que Zé Menos fala também revela uma vocação de “desalinhamento”, a inquietação de alguém que ao mesmo tempo que não tem problemas em admitir que aprendeu com um determinado mestre também assume uma vontade de se colocar à frente, de tirar as suas próprias conclusões sobre a vida sem necessidade de recorrer a manuais alheios, de apontar caminho precisamente porque não tem medo de seguir às escuras, às apalpadelas se for preciso, como na caverna de Platão, em busca de outra iluminação (“se não sabes o caminho, eu digo…”). No fundo, para zé menos, perceber que se está “atrasado” significa que se está consciente de que a liberdade – sobretudo a criativa – é uma construção, um processo pelo qual é necessário passar. “Não quero estar em lugares comuns”, explica mais adiante na mesma entrevista, sem pejo de, num recorrente gesto auto-crítico que atravessa todo o seu discurso (“estou muito atrás de onde queria estar”, “não passo de um frustrado que nunca vai ser muito mais do que mais um”, diz-nos ele em “gravidade”), contemplar a hipótese de isso reflectir um certo egocentrismo, “um sonho meio narcisista”. A imitação pode, de facto, ser a forma mais sincera de elogio, mas quem procura libertar-se de mestres só o faz porque sente ser mais importante encontrar-se a si próprio. E isso é este OCDP: uma crónica de um artista em busca de si mesmo (de si menos?). “Quem não se analisa não tem nada para aprender”, canta ele. Tão verdade, não é?

zé menos toma as árvores que no Outono deixam cair sobre o chão do parque as suas folhas como ponto de partida para uma alegoria sobre a vida, sobre a entrada na vida adulta que implica tantas vezes as pessoas terem que se desprender das suas árvores familiares para caírem sobre o mundo – e “cair é voar para quem não tem medo”, sublinha logo no tema de abertura, “a queda, exposição”. O tom de OCDP  é esse: ocre como o das folhas que apodrecem no chão do parque, assumindo as cores da terra que as recebe; não há por aqui insustentáveis levezas, dias de sol, calor de praia debaixo dos pés, sorrisos rasgados… Afinal de contas este MC não se chama zé mais, certo?

Logo no arranque percebe-se o que o artista anteriormente conhecido como Kap quis dizer quando reconheceu o impacto que aquele que é ainda o mais recente álbum de Keso teve sobre si. Há no seu flow mais cantado uma clara marca do Original Marginal, tornada mais óbvia porque nos seus “érres” arredondados, nos seus “ous”, se percebe o Porto que também tem dentro. Mas esse é um simples ponto de partida, nunca um derradeiro objectivo (até porque nem sequer se pode dizer que seja a única inspiração: não haverá um ténue eco de Slow J em “mar morto”?). Escutando “gravidade” ou “41, textura”, fica claro que José Poças não teme usar a sua voz como algo mais do que mero veículo de “mensagem”, afirmando-a também como instrumento capaz de solar, de expressar emoção por si mesmo, capaz de exibir fragilidade, dor funda ou simples desligamento, como parece sugerir com os seus pontuais assomos de scat que são, precisamente, o resultado do esboroar das palavras, como se até o sentido se desprendesse delas como as folhas das árvores.

As audições sucessivas de OCDP recompensam a nossa atenção com frases que transformam coisas pequenas da vida em poesia tão leve, mas também tão viciante como o próprio fumo: “fumei tudo aquilo que tinha para pensar” ou “meia noite menos um cigarro” são bons exemplos de uma caneta ágil, que agarra a vida real em palavras significantes e que por isso mesmo nos arrebata. Claro que isso não basta. Grandes palavras num caderno podem não ser suficientes para garantirem grande música. Mas também aí Zé Menos triunfa: as bases instrumentais que ele mesmo cria são plenas de ideias e musicalidade, navegando sempre por toadas menos óbvias, embora não haja aqui dissonâncias experimentais, ruído avulso e gratuito. Há colorações jazz, cadências meio sambadas, guitarras do lado mais intimista do rock, pianos electrificados e alguns sopros cheios de nevoeiro, com toda essa matéria “orgânica” a ser arranjada com plena classe e noção superior de musicalidade. E até aí se percebe ambição: perante um plano poético rico seria perdoável se zé menos descurasse o “fundo” musical, desenhando os seus instrumentais com o típico traço grosso que não admite espaço para o detalhe e para a nuance. Só que não, não é essa a sua opção. Há na sua “beatologia” muita arte séria, muita musicalidade, ecoada na forma como abre espaços para que depois a sua voz também se permita ser mais um instrumento nestas pequenas sinfonias de emoções, visões e impressões sobre a vida.

Tudo junto – as palavras, a voz que as carrega, o alcance poético dos textos, os assuntos sérios da vida que abordam, a originalidade da perspectiva, a produção cuidada, a singularidade que cada batida procura, a sofisticação dos arranjos – resulta em mais um grande momento para um ano de incríveis colheitas hip hop. “Tenho 32 e não me mexo há 12…”, segreda zé menos aos nossos ouvidos antes de nos assegurar que o imobilismo não lhe toldou o pensamento: “tenho mais ideias… tenho tantas que garanto que vou morrer com elas/ as outras, caso chova, faço metade”. E isso chega para lhe garantir o futuro. Precisamos de ouvir muito mais de zé menos. Faça sol ou faça chuva. E o mais provável é que chova.


Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
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