zé menos: “Eu costumo dizer que não sei escrever músicas felizes. Por mais que goste de as ouvir, não me interessa fazê-las”

[TEXTO] Gonçalo Tavares [FOTO] Sien

Lançado em 2015, o seu primeiro álbum, Do Nada Nasce Tudo, garantiu-lhe, um ano mais tarde, a entrada numa lista de promessas nacionais em que se rodeava de nomes como Slow J, ProfJam, Harold, L-ALI e GSon. Alguns anos depois, zé menos regressa, no mínimo, mais sofisticado.

Mudou de nome (anteriormente respondia artisticamente por Kap), mas trouxe a mesma nostalgia que o destacou. Pensou na forma como se apresenta e mudou a forma de mostrar o seu trabalho, estreando o longa-duração numa sessão pública no Cinema Trindade, no Porto, que foi também “uma reflexão sobre como a música é lançada e como se processa o contacto do público com a obra musical”.

No dia em que lança o seu segundo álbum, o chão do parque, José Poças mostra-se com a sua essência imaculada: estamos perante um pensador, na verdadeira acepção da palavra, provavelmente um dos mais lúcidos que temos actualmente a contribuir para o cancioneiro nacional.

A entrevista é também ela uma reflexão: sobre o que o motiva, o que o atormenta e o que ambiciona.



o chão do parque (OCDP) tem uma série de atributos que o tornam um registo bastante singular. Ainda assim, há coisas que o unem ao Do Nada Nasce Tudo (DNNT). Há uma sensação de melancolia comparável nos dois.

Eu tenho tentado perceber o que os une nos últimos tempos. Sei que há uma linha identitária, tenho andado a aperceber-me disso por causa do feedback que tenho recebido. Pessoas dizer-me que “o disco é muito eu, apesar de ser muito diferente”. Se continua a ser muito eu é porque, apesar de terem existido surpresas, o feeling se mantém. Os lugares para onde estou a levar as pessoas são comuns, apesar de musicalmente serem muito diferentes.

Essa melancolia relaciona-se comigo. Eu costumo dizer que não sei escrever músicas felizes. Por mais que goste de as ouvir, como o samba, não me interessa fazê-las, porque acho que não tenho nada para dizer de feliz. A única urgência que sinto é a de criar coisas que sejam um bocadinho mais duras, mais tristes ou melancólicas. Há ainda algumas músicas que têm um sentimento mais neutro e enigmático, como a “descalço / os que dançam”. Isso não significa que esteja sempre na merda quando estou a escrever. Acho piada ao mundo e à vida [risos]. Mas não é a minha identidade artística.

Porque será assim?

Talvez porque nunca tive um momento de felicidade que tentasse desconstruir e dissecar. Isto vai muito para além da música, mas acho que a felicidade é um sentimento mais simples. Acho que ninguém sente a necessidade de parar e pensar porque está feliz, ou se sente é raro. Eu nunca senti, e nunca tive um processo de felicidade como tive um processo de depressão. Conheço melhor a melancolia do que a felicidade, de certa forma, e percebo que ela é muito mais complicada de se lidar com. Eu estou a dizer isto mas sou um céptico, deixo em cima da mesa que a felicidade pode ter muito para se dizer e comentar. Mas, de uma forma muito natural, sinto profundidade em coisas que não são tristes, em muitos sentimentos que se intersectam e que estão entre a tristeza e a neutralidade. Como a dormência, por exemplo, nós passamos a maior parte do tempo dormentes, não estamos felizes nem tristes. Isso interessa-me.

Essa melancolia que dissecas e trazes para a música também se ouve no instrumental.

Esse é um processo que começa quando estou a samplar. A progressão de acordes ou os acordes têm que soar enigmáticos para eu construir uma música sobre eles. Há progressões “felizes” e “tristes” que são muito óbvias, não as uso. Tento pegar em material minimamente rico e que se mantenha rico. E a partir daí vem tudo seguido — o beat vai ter uma componente enigmática ou melancólica, e trabalho a partir daí.

DNNT incide na tua pessoa, é ela o objecto. O que aconteceu para este transitar para o chão de um parque?

Eu lembro-me de ser miúdo e de ouvir alguém dizer que, no rap, o primeiro disco é um disco de apresentação. Eu não tive essa preocupação, mas acho que o DNNT também o é, e é bastante sobre mim. No OCDP é sobre árvores de folha caduca porque arranjei outra forma de falar sobre mim. Acho que isso passou pelo meu processo de alcance de maturidade, pessoal e artística, que aconteceu ao longo destes anos. Acho que aprendi a projectar-me na sociedade e no meio artístico, o que eu faço aqui e o que tenho para dizer. Isso levou a uma “desnarcisação”, a eu perder o lado narcisista de pensar e escrever música de modo a conseguir falar sobre algo que me transcende, ou de usar algo que me transcende para falar sobre coisas de que me apetecem falar.

Continuas a falar sobre ti, mas mudou a forma como o fazes. A escrita acompanha isso?

Por exemplo, de um ponto de vista poético escrevo de uma forma diferente. Tinha a intenção de fugir do lado de concretização do rap, das dicas, de em duas linhas tentar explicar o sentido da vida. As coisas densas são para serem explicadas de forma densa, e em duas linhas estaria a reduzir o assunto. Isso faz parte do género, não estou a dizer que é mau, nem que não tenho barras, mas não me interessa sentir a pressão de ter que escrever assim. Eu digo as coisas de forma mais extensa e mais dispersa, mais nublada se quiseres. Nem eu nem o disco temos uma linha forte para as perguntas, eu não digo como as coisas são. Digo o que penso enquanto levanto muitas outras questões pelo caminho. Apercebi-me de que eu próprio sou uma pessoa muito inconclusiva. Consigo duvidar de coisas em que acredito bastante, e acho que fiz um álbum nessa direcção. Se calhar este disco é mais fiel a isso, porque no primeiro eu dou muitas respostas que nem eu acredito. No OCDP digo coisas ambíguas sobre as próprias árvores de folhas caducas. Tanto estou a falar sobre as árvores como estou a falar sobre as folhas, tanto digo que as folhas querem cair porque querem ser como as mães como digo que as árvores largam as folhas porque nos querem dar um agasalho. Isto tanto pode ser decisão das árvores como pode ser decisão das folhas e, como não sei de quem é, levanto e trabalho as questões todas. É tudo enigmático para mim, e acho bonito isto tudo ser tão sugestivo.

No teu discurso e no próprio álbum as tuas opiniões não são claras.

São pontualmente. Na “Mártir”, por exemplo, estou a falar sobre arte e sou mais pontiagudo. Digo “salas vazias não aplaudem nem enchem egos, e há quem queira barrigas cheias do nada que pagam”. E também acho que sou mais pontiagudo no meu discurso pessoal do que no disco, sobre direitos de autor, sobre política, etc. Mas mesmo nesses assuntos mais fortes eu mantenho sempre em aberto que é para discutir, de que é provável que muitas pessoas tragam coisas para cima de mesa que me façam mudar de opinião. E no fim do dia, depois da discussão, eu vou acabar por me agarrar àquilo que sinto que é mais correcto.

Portanto, continuas coerente com o que dizias em 2015: “Não me identifico com o caminho que o panorama nacional de hip hop está a levar. Acho o meu rap diferente, menos sucinto e directo. Sinceramente, nunca me preocupei com essa identificação, até agora. Gostava de chamar mais pessoas e um público diferente com este álbum”. 

Quando leio essa entrevista essa é a frase que mais incomoda. Porque só agora, e não na altura, é que consegui perceber melhor qual é o meu lugar e ter uma linguagem mais pessoal. O DNNT não é suficiente para eu poder assumir uma diferença. É um álbum de rap bastante convencional em termos de BPMs, produção, estrutura, etc. Isto é um tópico deste álbum. No “Mar Morto” eu digo-o: “A minha cor só é diferente, eu assumi”. E não estou só a falar em questões musicais, estou a falar de mim enquanto pessoa, com o meu crescimento, maturação, educação. Sou uma folha de Outono mas tenho uns padrões bué marados. Tenho mais cor, o suficiente para assumir a diferença. E mesmo assim este álbum não é nada revolucionário [risos]. Nem estou a dizer que quero fazer álbuns revolucionários. Mas agora estou muito menos num lugar comum do que estava na altura.

Em que lugar comum estavas na altura?

Uma semana depois do lançamento do DNNT fui fazer o showcase da Biruta no Mercado da Música Independente e lembro-me de dizer ao dB: “Estou atrasado, tenho que fazer outro álbum”. Ele não se deve lembrar [risos]. Portanto, eu apercebi-me uma semana depois de que o que tinha feito não era o que eu queria defender artisticamente naquele momento. A minha noção do que eu queria fazer estava muito à frente da minha capacidade de concretização. Mas ao mesmo tempo estou de bem com isso porque acho que não conseguiria ter feito outro disco. Desde então estive a tentar que o meu lado criativo amadurecesse, e perceber como consigo fazer música tão interessante como as minhas ideias. Acho que é um bocado isso.

A nova versão da “Gravidade”, que foi regravada para OCDP, vai um bocado atrás disso, não vai?

Sim. Eu fiz a “Gravidade” depois de ter saído o álbum do Keso, o KSX2016, que mexeu comigo exactamente por me fazer sentir que estava atrasado. O álbum saiu em Maio de 2016, meio ano depois de ter lançado o meu disco, e mais uma vez eu senti-o. A “Gravidade” foi uma tentativa de ir atrás de uma fórmula que na altura achei que era próxima da do Keso, daí ter saído como demo. Mas gosto tanto da letra, ela é tão bonita e importante para mim e enquadra-se tão bem neste disco, que muito cedo senti que ia querer refazê-la para OCDP com uma linguagem mais minha.

Tu falas da pressão que sentias para criar, que te levava a dizer “eu estou atrasado” como se fosse uma coisa exterior a ti. Algo monstruoso, quase.

Sim…

Tens algum monstro? Consegue identificá-lo?

Eu tento fazer arte de uma maneira despreocupada, tendendo para o máximo de liberdade possível na sua execução e vivência e retirando pressões, como a de pagar as contas. Se calhar um dia vou escolher ter essa pressão, mas não a quero ter com a minha arte neste momento. No entanto, a existir alguma pressão na minha arte que seja a minha. Não quero estar em lugares comuns. Não estou a criticar quem faz música mais cliché ou mais óbvia, mas acho que essas pessoas estão muito confortáveis nesse papel. A partir do momento em que deixei de estar confortável nesse papel senti a pressão de escrever com um discurso próprio, porque sinto que tenho um discurso próprio.

Eu falo disso no álbum, em “os ramos que eram braços”, de que às vezes penso se isto não é um sonho meio narcisista: de querer ser o gajo surpreendente, o gajo inovador. Tenho o medo de que isto seja um reflexo egocêntrico. Eu espero que esse monstro seja só a minha necessidade criatividade. Que seja a pressão que ponho em mim mesmo em relação à minha arte, que é o tipo de interesse que me entusiasma quando consumo outras coisas. Gostava que a minha arte tivesse o nível de interesse do tipo de coisas que me interessam. De certo modo, gostava que ela interessasse pessoas tendencialmente parecidas comigo.

Achas que conseguiste fazê-lo com OCDP?

Espero que sim. Estou bastante satisfeito com este disco, acho que ele está bastante sólido e que me transcende um bocado. Tentei ter o máximo de cuidado em tudo e não me desleixei em nada. A ideia do disco está bem implementada, o tema é denso, assim como a forma como foi apresentado. Ao mesmo tempo, começo a ficar preocupado com o que vou fazer a seguir.

Lá vem o monstro outra vez.

São projectos longos. As relações mais longas que tenho são com os meus pais, os meus amigos e os meus discos [risos]. A malta costuma dizer que tenho uma capacidade de compromisso bastante grande, não percebe como consigo estar tanto tempo a trabalhar numa coisa. Eu passei três anos a pensar no álbum, apesar de ter trabalhado muitos menos dias.

O lado fodido disto é que este processo todo acaba hoje, ou para a semana com o lançamento do disco. A partir de hoje não tenho nada novo para mostrar, e isso inquieta-me imenso. Um sentimento que me deixa sempre confortável é ter cenas novas no bolso para mostrar, que é o sentimento de ser capaz de surpreender alguém. A partir de hoje perco essa capacidade, e vou ter que ir atrás dela nos próximos anos.


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