O futuro do rap nacional em 6 MCs

[TEXTO] Alexandre Ribeiro [FOTO] Ricardo Miguel Vieira

 

O Rimas e Batidas não tem parado de crescer – em rigor, em ambição, em planos, mas também no que mais importa: a atenção dos nossos leitores – e ao atingir a fantástica marca de 60 mil seguidores no Facebook e 6 mil no Instagram isso inspirou-nos para um série de artigos em torno do numeral 6.

A segunda lista desta série apresenta 6 MCs portugueses que têm as qualidades técnicas e criativas para alcançarem o estatuto de artistas como Sam The Kid, Allen Halloween, Dealema, Mind Da Gap, Regula ou Boss AC

 


01. [L-ALI]

Surrealismo XPTO, O Conto e o Baço são o testamento de um newcomer que escreve como gente grande. Se Allen Halloween usa uma lupa para os becos mais sujos da rua e Nerve para os quartos mais desarrumados da mente, L-Ali é o novo anjo negro a encarnar o papel de carrasco do rap nacional.

Uma humanidade inexistente e um flow viciante a andar em círculos nas produções de arquitectos sónicos do underground mais sujo: Pesca e Vulto. são os responsáveis pelas produções totalmente adequadas no Surrealismo XPTO e no EP Baço.

“Drones” foi a última aparição de L-Ali e um dos pontos altos do álbum. Mike El Nite percebeu na perfeição o que o hip hop português ainda parece não ter entendido: L-Ali vê com visão aérea e raio-x os nossos defeitos como seres humanos e não terá medo em exibi-los. Tomem atenção redobrada.

 


 

02. [HAROLD]

A nova escola de MCs tem nomes interessantes e diferentes, mas um dos grupos que salta à vista são os GROGNation. Harold, membro integrante, lançou o seu primeiro álbum a solo esta semana e mostrou sozinho o que já tinha provado em conjunto.

J-Cole deve ser o nome mais importante para percebermos quem é Harold, mas enganam-se se acham que vão encontrar versos e flows tirados a papel vegetal para a língua portuguesa. Os singles são a maior prova disso: “Vai e Vem” traz uma nova faceta de cantor ao MC e as deambulações entre cantar e rimar – num registo mais Drake – assentam que nem uma luva no instrumental de Here’s Johnny; a primeira aventura a solo é dissecada com argúcia e veracidade em “Safari”.

Indiana Jones não é perfeito, nem tinha que ser, mas mostrou que Harold sabe escolher os produtores (Lhast, Here’s Johnny, METAMVDNESS ou J-Cool) e tem valências suficientes para não deixar que o álbum a solo se torne enfadonho.

 


 

03. [SLOW J]

Crooner, produtor, MC, cantor ou escritor de canções. Tudo descrições possíveis para João Batista Coelho, mais conhecido por assinar canções como Slow J. O álbum – ainda por chegar – promete tirar as dúvidas e confirmar as expectativas enormes à sua volta.

“Vida Boa” e o remix de “Caravana” são o seu tributo em 2016, até agora. Se a primeira – o primeiro single do trabalho por sair – é a possibilidade de perceber quem é Slow J em termos musicais, a segunda é um “desafio” a Sam The Kid e Boss AC, mostrando-se um peixe dentro de água a nadar qual Michael Phelps na batida.

O Rimas e Batidas acompanha o artista desde o início e podem atestá-lo na entrevista de Bruno Martins em Agosto do ano passado, a crítica de Francisco Noronha ao EP de estreia, o convite para o primeiro Festival Rimas e Batidas ou no ponto-de-vista depois da edição deste ano do Sumol Summer Fest.

 


 

04. [GSON]

Os Wet Bed Gang apareceram como um furacão no rap português e, apesar de todos os elementos merecerem destaque, Gson é o que salta mais à vista. “Não Tens Visto”, que alcançou recentemente o número bem redondo de 1 milhão de visualizações, e “Funge” são duas canções onde Gson rouba o protagonismo com versos de tirar o fôlego, marcando pela diferença seja num estilo mais gritado ou mais melódico. Não é difícil perceber que os melhores rappers andam a tirar notas da nova coqueluche…

Mas o melhor do MC está sintetizado em “In Love”, o maior exemplo, para já, do seu talento: flows a desdobrarem-se em cima de um beat original de Justin Bieber como se olhássemos para um veterano a guiar uma faixa sem qualquer tipo de decência. A acrescentar à forma criativa de rimar, também é um criador incrível de melodias para refrões.

O rapper da Wet Bed Gang tem acumulado fãs: Jimmy P, Slow J, J-Cool ou Fábia Maia já demonstraram apreço pelo seu trabalho e será normal vê-lo daqui em diante a assumir-se como figura de proa de uma nova geração de hip hop português.

 


 

05. [KAP]

O menos mediático desta lista, Kap é o MC de Gaia com um dos melhores álbuns de 2015. Do Nada Nasce Tudo é um conjunto de 18 faixas com escrita elegante e produção que certamente deixará dB, o mestre de Gaia dessa arte, orgulhoso.

Acabado de entrar nos “vintes”, José Poças escreve versos como gente crescida (ouça-se “Do Nada”), constrói batidas com samples sempre certeiros (“As Costas” assentam nesta descrição, mas qualquer uma serviria) e apresenta uma coesão impressionante num registo longo.

Imaginem que o Sam The Kid e o Nerve se fundiam num só e, subitamente, ficavam com o sotaque do Norte? Kap é isso. Não percam este comboio para Gaia.

 


 

06. [PROFJAM]

Ainda sem lançar um álbum, ProfJam continua a acumular mixtapes que mostram porque é considerado um dos MCs mais promissores. 2016 trouxe Mixtakes, um conjunto de canções que revelam – de maneira ainda mais profunda – a sua capacidade inata de ser criativo, sempre à procura de novas formas de rimar.

O último da lista, mas não o menos talentoso, Mário Cotrim é o MC mais explosivo e mais introspectivo do rap português. Confusos? Basta ouvirem a The Big Banger Theory e Mixtakes e irão perceber que o professor mais novo desta escola anda a saltitar personas a tentar encontrar-se.

A maior prova do talento imenso de ProfJam foi o concerto no Teatro da Comuna, uma autêntica maratona a provar que o MC/produtor está preparado para a longa caminhada que o espera no panorama musical português.