Sensible Soccers // Aurora

[TEXTO] Vasco Completo

A nostalgia pode ter vários efeitos numa obra. Seja o repescar as memórias de quem cria, seja pegar em velhos – descontinuados ou não – formatos, ou a busca por qualquer coisa que o tempo tenha já esquecido. O passado pode ser uma armadilha. A memória engana, peca pela imprecisão. Pode principalmente desfocar a nossa visão do passado. Canalizada correctamente – como os Sensible Soccers fizeram neste Aurora – dá novas cores ao agora, acrescenta imaginários e possibilidades ao todo. Tal como quando os nossos pais/tios/avós contam histórias do “quando ainda não éramos nascidos” e fascinamo-nos com um mundo que não chegou a ser nosso, sempre auxiliados por uma ingenuidade na forma como aceitamos a informação que nos é dada.

A ode à infância, como diz a banda, a ideia de que é em pequeno que se dá a Aurora, quando tudo começa. O momento em que o optimismo impera sobre os problemas dos adultos.

Essa representação da nostalgia dá-se muito pela escolha tímbrica que preenche a paleta sónica do disco, com alguns sintetizadores enevoados, que partem de velhos teclados a apontarem para pistas de dança que já não existem. Não é uma novidade, já que algumas tarolas reverberadas podiam ser ouvidas noutros momentos da sua discografia (em “Bolissol”, por exemplo). Esta repescagem de timbres de pistas de dança de uma outra geração (que soa a um tempo passado mas que é possível que nunca tenha existido sequer) já estava impregnada no ADN dos Sensible Soccers.

A saída de Filipe Azevedo cria o ponto de partida para uma nova abordagem à produção por parte do grupo. A guitarra fica algo perdida pelas vielas de Villa Soledade, tendo menos lugar em Aurora — ainda se avista em “Chavitas”, faixa em que parecem ser vozes (elemento raramente presente na discografia da banda) a repetir a melodia.

Sem se poderem apoiar nas guitarras reverberadas que outrora os definiam, seria de esperar que o sintetizador assumisse a estética na totalidade do disco. Talvez a escolha do produtor — B Fachada — tenha influenciado na variedade tímbrica do disco, fazendo-se uso de um maior número de instrumentos acústicos mais tradicionais, sejam flautas, percussões e até apontamentos instrumentais extra-ocidentais, que se fundem com a electrónica.

Nesse sentido, o universo Sensible Soccers amplia-se e torna-se mais colorido e abrangente, aproximando-se, em alguns pormenores, de Mr. Wollogallu ou da estética Jon Hassell (como em “Import, export”, “Bichos do soto” ou “Um casal amigo”).

O mesmo se pode dizer da variedade estilística que compõe o disco: poderíamos já nomear este álbum como o registo mais diversificado da banda, com cada música a apontar para vários imaginários distintos, e a dança interage directamente com a distorção ruidosa e o ambiente harmónico, tudo de maneira paradoxal mas super congruente.

O ritmo ganha muito maior relevância nesta aurora. Vindos de discos mais meditativos, de uma discografia que apela mais a estruturas musicais catárticas – em músicas como “Fernanda”, “AFG”, “AUX”, “Clausura” ou ainda “Villa Soledade” –, a banda engendrou aqui uma série de temas um pouco mais celebrativos, optimistas e ingénuos, algo corroborado pelos próprios na apresentação deste projecto.

No entanto, é também o álbum que mais vive dos seus pormenores: são precisas várias audições para entender a narrativa do disco, muito mais do que foram necessárias nos antecessores (e não somos só nós que dizemos…).

Aurora é certamente um ambicioso passo para uma nova dimensão que amplia exponencialmente as possibilidades sonoras dos Sensible Soccers. Não é, obviamente, um primeiro passo, nem um renascer das cinzas, mas é um novo dia, e mais soalheiro, dançável e vasto que nunca.

Deram um passo atrás, procurando os recantos por descobrir da memória e da infância, e acabaram por avançar uns quantos para a frente numa busca por um futuro em que a ideia de tempo, aquela que nos condiciona e nos gera ansiedade, deixa de existir.


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