Montanhas Azuis // Ilha de Plástico

[TEXTO] Vasco Completo 

À primeira vista, uma das influências mais óbvias de Ilha de Plástico é Plantasia de Mort Garson. Não é segredo nenhum: os próprios Montanhas Azuis indicaram o disco como referência — e Bruno Pernadas até vai revisitá-lo em Outubro na companhia de Moullinex.

Enquanto um pode ser visto como música para plantas, o outro é música para ilhas — de preferência uma daquelas que nos leve a pensar que não sabemos onde é que começa o sonho e acaba a realidade. E se a peça de Mort Garson tem claramente algumas rugas, uma exploração clássica das possibilidades do sintetizador, da máquina e da sua exactidão, Ilha de Plástico é já a demonstração dos defeitos, imperfeições ou irregularidades do analógico, juntando-o a elementos acústicos – como o piano ou a guitarra — e dando a este tropicalismo electrónico uma proximidade também ao “quarto mundo” de compositores como Jon Hassell (uma relação curiosamente, ou não, também feita no seguimento de Aurora dos Sensible Soccers, disco deste ano).

Fora as comparações, Ilha de Plástico é um disco que se encontra numa “prateleira” diferente, aglutinando o tropical, o electrónico e o melodicamente apelativo. O disco acaba por ter duas dimensões: há claramente momentos que são totalmente voltados para as máquinas e outros mais híbridos como “Coral de Recife”, composto com guitarra, piano e sintetizador. É por ser um misto, e por esta capacidade de criação melódica do grupo, que esta ilha se distancia de todos os outros continentes.



Embora a grande maioria dos temas do primeiro disco de Montanhas Azuis tenha sido composta por Marco Franco, as impressões digitais de todos os elementos encontram-se bem patentes. Norberto Lobo e Bruno Pernadas são creditados pelos arranjos e ainda por “Sururu” e “Marianas” – o último, mais improvisado e solto, indicia provavelmente novas possibilidades estéticas para um futuro trabalho.

Os dois músicos são, aliás, incontornáveis mestres na arte de criar melodias e fazer arranjos. Por isso mesmo, Montanhas Azuis resulta da junção de todos os elementos que os compõem e não necessariamente de uma cabeça a orquestrar um grupo pronto a obedecer. O espaço dado às deambulações de guitarra (processada pelo muito usado Korg Miku) de Lobo em “Nuvem de Porcelana” sob as camas harmónicas de piano e sintetizador e às batidas minimalistas vindas de uma caixa de ritmos antiga a segurar a conjuntura instrumental do single “Faz Faz” são algumas das texturas que nos transportam, sem bilhete de regresso a casa, para a Ilha de Plástico. Curiosa esta simplicidade rítmica, tendo em conta que o baterista é o “cabecilha” composicional; a componente harmónica demonstra-se central no processo de estruturação das canções ao longo das nove faixas.

Um disco tão trabalhado ao pormenor e, como algumas músicas evidenciam (“Sururu”, “Coral de Recife” e “Flor de Montanha”, por exemplo), não parece gravado em três dias – como acabou por acontecer –, estilo álbum de jazz, com a banda preparada para ler a pauta ou preparada para improvisar. É nos detalhes deste compósito instrumental, na forma como os timbres se encaixam uns nos outros, na textura que identifica cada uma das nove faixas de Ilha de Plástico, que se encontra a beleza e relevância deste trabalho. A selecção dos sintetizadores, e a sua colocação em cada tema, é o elemento-chave para estas melodias fazerem todas sentido sem que pareçam vãs.

A partir do momento que carregarem no play, a viagem para esta ilha está garantida. Só não prometemos que voltem os mesmos. Ou que voltem, de todo…


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