ProfJam // #FFFFFF

[TEXTO] Alexandre Ribeiro

“Eu não vejo a preto e branco/ Tenho o espectro completo da luz”, cantava ProfJam em “O Espectro”, faixa de Mixtakes, projecto lançado em 2016. Dois anos depois, Mike El Nite recuperava as mesmas linhas para Inter-Missão, o seu mais recente disco, que representava mais um desvio abrupto para os que achavam que sabiam para onde ele iria a seguir. Em 2019, estes dois artistas continuam a ser tão cruciais para o hip hop português como já o eram em 2013, quando lançaram o clássico “Mambo Nº1“, música que, obviamente, gerou muito ódio, principalmente nas caixas de comentários, por não se encaixar nos cânones de quem acha que a música é um traço e não um conjunto de pontos.

No dia 22 de Fevereiro de 2019, Mário Cotrim editou o seu álbum de estreia e, ao contrário do que se passou com os seus trabalhos anteriores, a “máquina” (que se pode traduzir para algo como uma equipa, uma visão e uma major ao seu lado) ajudou a ampliar o alcance (que também desfruta do contexto actual) de um rapper que sempre se mostrou acima da média, e com um percurso em crescendo que abriu espaço para colaborações com os D.A.M.A., L-ALI, YUZI, Valas ou Isaura, contribuindo essa abertura para a própria ideia de que era feito de várias cores, feitios e nuances.

#FFFFFF é, obviamente, resultado de um conjunto de circunstâncias, porém, é também um olhar muito pessoal (e singular) de ProfJam, um criador que nunca se escondeu e que andou à procura (dentro da sua própria cabeça e cá fora) do que queria e precisava de dizer. Aos 27 anos, esta é a interpretação distinta do que o rodeia, partindo das suas experiências para pequenas reflexões sobre as engrenagens da sociedade e, mais importante, um retrato fiel das dores de crescimento da sua geração (ou pelo menos de uma grande parte dela).



Se existiam palavras que precisavam de ser ditas, também era preciso dar-lhes uma base, que neste caso são os instrumentais engendrados por um dos produtores portugueses mais incontornáveis desta década, Lhast, que parece ter a qualidade mais importante para aquilo a que se propõe: entender as necessidades do artista que está à sua frente e ajudá-lo a atingir o seu potencial máximo. Richie Campbell, Valas, Dillaz, Plutonio, Wet Bed Gang ou Papillon já beneficiaram do seu tratamento sónico, ou chamemos-lhe uma sensibilidade para torcer elementos dos mais diferentes géneros musicais para servirem a sua ambição de construir grandes canções, por norma com a ajuda dos músicos Bernardo Cruz, Bernardo D’Adario e Henrique Carvalhal.

Em pleno 2019, numa altura em que se tenta perceber o formato certo para se lançar música, e, muitas vezes, caindo no erro de esquecer que o que importa, acima de tudo, são as canções, ProfJam consegue uma proeza que é digna de nota: apresentar uma sequenciação de faixas que corre como água num rio, elemento que, afinal de contas, tanto diz ao auto-denominado “HydroGénio“.

Em termos técnicos (e aqui englobamos entrega, wordplay, flow e inflexões vocais) existem poucos nomes que tenham as suas capacidades: as palavras e o auto-tune são barro nas suas mãos, matérias que molda a seu bel-prazer aliando isso a uma tremenda facilidade para desenvolver refrões melódicos e adaptar-se (sempre com abordagens surpreendentes) a todo o tipo de beats. Olhando para a bigger picture, estes temas contêm a força para causar os mesmos tipos de sismos que Travis Scott, por exemplo, provocou a partir dos Estados Unidos da América, ajustando o alcance à escala portuguesa no caso do autor de #FFFFFF.



Num alinhamento que não tem faixas para encher, canções como “Água de Coco”, “Na Zona”, “O Hino” (que tem a contribuição preciosa de Holly), “Caveira” e “À Vontade” elevam-se acima das outras todas. A última tem um ingrediente extra: Fínix MG, à semelhança do que aconteceu com Rapsody em To Pimp a Butterfly, por exemplo, é o único rapper a merecer a “chamada” de ProfJam para este longa-duração. Se já existiam poucas dúvidas sobre o seu talento — Níveis comprovava-o –, Hugo Almeida entrega um verso (e que verso!) com autoridade de veterano e uma mistura explosiva de skill e slang, correspondendo com categoria à elevada responsabilidade.

Podíamos falar deste primeiro álbum de Mário Cotrim sem mencionar a Sony Music Portugal, mas seria imprudente ignorá-la: afinal de contas, o MC de Telheiras construiu um percurso suficientemente sólido para poder jogar segundo as suas regras em qualquer campeonato e agora está a usufruir do lado positivo de uma editora grande que tem argumentos para o elevar a patamares onde dificilmente se chega em regime independente.

Para rematar, e utilizando a definição de “consciente” que encontramos na Infopédia, #FFFFFF é um disco de música feito por alguém “lúcido” (reflecte sobre ciclos viciosos em “Na Zona”), “que tem consciência da sua própria existência” (em “Se Calhar” divaga sobre a realidade), “que sabe o que faz” (em “Caveira” canta sobre a criação da Think Music) e “que sente” (a entrega de “O Hino” é emoção à flor da pele). Sim, o trap tem uma consciência.

De bangers introspectivos a balanços rítmicos inéditos na sua obra — “Na Zona” faz a ponte entre Bad Bunny e o trap latino e a afro-Lisboa projectada pela Enchufada e Príncipe –, ProfJam, sem inventar a roda, apresenta uma nova versão do veículo e aponta, sem que isso afecte o conteúdo, para um sítio que o hip hop português ainda tem dificuldades em assimilar/validar: o território pop. A partir daqui, a expansão será natural e, quem sabe, não cumprirá um dos seus desejos: tocar este álbum em cidades europeias. Como o homem profundamente crente que é, a única solução de Mário Cotrim é continuar a caminhar…