Mike El Nite // Inter-Missão

[TEXTO] Rui Miguel Abreu

Hip hop tuga, 2013: Regula surpreendeu — e de que maneira… — com Gancho; os Orelha Negra lançaram a segunda mixtape, que voltou a ser carimbada pela excelência de Dom Gula que surgia ao lado de Sam The Kid nesse moderno monumento que é “Solteiro”; J-K mostrou o seu Sorriso Parvo comprovando a distinta visão da Monster Jinx; Capicua deu voz a uma série de instrumentais de Kanye em Capicua Goes West… mas talvez nenhuma edição — diz-nos o discernimento alimentado pelo passar do tempo, e já são cinco anos… — tenha sido tão marcante quanto Rusga Para Concerto em G Menor, EP digital que assinalou a estreia de Mike El Nite.

Os outros títulos mencionados anteriormente, de Gancho a Capicua Goes West, pertenciam todos a artistas com passado, com percurso mais ou menos visível, todos com história anterior a 2013, mas o alter-ego de Miguel Caixeiro era diferente, parecia um pequeno meteorito, vindo do nada, um corpo celeste que se dirigiu à Terra à velocidade da luz, ou pelo menos do som…, e caiu num qualquer deserto remoto, sem causar danos aparentes. E no entanto, cinco anos volvidos, em torno da cratera resultante de tal impacto, há uma luxuriante selva composta por flora e fauna exótica, definitivamente alien se se considerar o ADN tradicional do hip hop tuga.

Mambo Nº1”, tema com ProfJam, apresentava uma nova sonoridade, uma nova postura, uma nova visão e até uma nova geografia, firmando os “finest” da “Zona T” como valor a considerar em contas futuras. Curiosamente, com o vocal pitched down, Mike dava logo conta que este podia ser um tema à frente do seu tempo natural quando, no arranque da música, hesita no momento de datar a sua rima: “dois mil e…?”, diz ele, antes daquele clássico breakdown que se segue a uma rajada de tarolas que nos atira definitivamente para o futuro.

Hip hop tuga, 2018: pá, que altura para se estar vivo. As regras do jogo mudaram e alguns dos momentos mais entusiasmantes do ano podem até nem ter surgido sob a forma de álbuns, embora registos de fôlego de Boss Ac, X-Tense, Carlão, Papillon, COLÓNIA CALÚNIA, Conjunto Corona, Subtil, NGA, Valas, YOUNGSTUD, NERVE, Holly e Landim ou Cálculo tenham deixado claro que ainda há imaginação de sobra para estampar explosões de cor em telas — ou muros… — de dimensão mais generosa. E Mike El Nite volta a inscrever o seu nome, com sublinhado carregado, nas listas que reafirmam o melhor deste calendário para as contas do futuro.

 



Depois de O Justiceiro ter fincado as unhas no mural de 2016, Inter-Missão volta a fazer o mesmo em 2018, confirmando Mike El Nite como um dos mais relevantes valores na bolsa do hip hop nacional, com cada nova acção que coloca no “mercado” a forçar o gráfico que ilustra a sua criatividade a empurrar a barra para cima.

Numa altura em que a imaginação procura soluções cada vez mais criativas para o problema do desinteresse generalizado nos formatos físicos — este ano tivemos direito a bons registos em vinil, cassete e até raspadinha… — o Justiceiro resolveu dar-nos o novo capítulo da sua história sob o formato de comic book + CD. O pequeno livro, com argumento de Miguel Peres, desenho de Marcus Aquino, trabalho de cor de Joana Oliveira e legendagem de Ivan Rego, reforça a ideia de prodigiosa fantasia que rodeia Mike El Nite, mas é na música que se espraia pelas sete faixas (ainda há uma intro) deste registo que se devem procurar os argumentos que sustentam o estatuto de sólido valor de primeira linha que justamente deve ser atribuído a este artista.

Inter-Missão marca também a estreia de Mike no roster da Think Music, sem a menor sombra de dúvida uma das mais vibrantes e diferenciadas marcas no actual panorama hip hop nacional, resultado de uma brava visão que não teme explorar a diferença e a controvérsia tendo abraçado no seu seio artistas que estão longe de serem consensuais — YUZI, Sippinpurpp, Lon3r Johny são contas desse rosário — mas que têm conquistado terreno e deixado claro que merecem atenção séria e despida de preconceitos bacocos que o apego a uma qualquer ideia de pureza possa alimentar. “We’re not in Kansas anymore”, como diria a Dorothy ao Toto, se em vez de uma estrada de tijolos amarelos tivesse pela frente o complexo terreno em que evolui o hip hop tuga do presente.

Nite começa este conceptual registo — que aborda um período específico e literalmente acidentado da sua vida, balizado pelo concerto que assinou no Super Bock Super Rock em 2016, de um lado, e pela sua chegada à casa dos 30, do outro — com uma clara afirmação: sim, é verdade, já não estamos no Kansas, nem em Atlanta, Nova Iorque, Los Angeles ou Sul de Londres, estamos de pés firmes em Portugal, terra para que Camões inventou uma língua e a que Amália ofertou uma alma. Ter consciência do sítio e das gentes para que se comunica deve ser a primeira preocupação do artista que quer fazer a sua arte chegar a uma audiência e, por estranho que possa parecer, isso nem sempre acontece. Mike nunca deixou de abraçar essa portugalidade e em “Carmen”, tema que nasceu de uma ideia resgatada no eterno reportório de Amália Rodrigues, com a ajuda do hook reinterpretado por Rita Vian (dos Beautify Junkyards) e sobre beat gizado por DWARF, consegue dar-nos mais um claro sinal do já inegável potencial que o cruzamento do fado com o hip hop possui (Stereossauro já deixou neste ano a prova definitiva dessa ideia no seu tema com Camané, “Flor de Maracujá”). É um dos temas do ano. Ponto.

Sobre espectral lamento, Mike surge em cena envolto no véu digital do auto-tune, demonstrando ter estudado com devoção a cartilha inaugurada por Kanye em 808s & Heartbreak, antes de contar uma história de amores perdidos e de explicar que está farto de ser um nómada, em busca de um espaço, enquanto ocupa o seu lugar na caravana…

J-K, rapper com quem Mike tinha dividido espaço no palco de 2013, surge em “Caixa Negra”, tema que descreve “o primeiro dia do resto da nossa derrota” sobre beat de outro homem da Monster Jinx, Maria. Aí, Nite mostra-se interessado em explorar outras possibilidades de rima, mas também esclarece que a sua última preocupação é sempre com a ideia de canção: barras são importantes, mensagens/histórias idem aspas, mas a canção, essa ténue fórmula que se equilibra na corda bamba das palavras e das melodias que as carregam, dita as regras e Mike, rapper, não teme afirmar que cantará até que a voz lhe doa, qual fadista do futuro.

 



“Capacete”, canção que se segue, é o centro de Inter-Missão: sobre o seu próprio beat, Mike oferece uma cautionary tale erguida a partir da sua própria história: “tenho um burro e um esperto no cérebro e tento pensar pelos dois”, admite, enquanto harmoniza com o diabinho e o anjo que repousam nos seus ombros. Este tema está umbilicalmente ligado ao seguinte, “Arco Íris”, ideia musical inicial de Mike afinada e aperfeiçoada por Lewis M, homem dos Salto que também assina, mais adiante, “S.Q.N.”. Com a ajuda de Lewis M, Mike mostra que se podem explorar diferentes sensibilidades musicais, talvez mais progressivas, certamente um pouco mais inclassificáveis, afirmando assim uma diferença que não teme explorar, mesmo que isso signifique alienar parte da audiência que outros momentos lhe permitiram conquistar.

E eis o hit: “Dr. Bayard” é um divertido banger que é uma fantasia banhada em xarope, um exercício de estilo bom para a tosse em que Fínix MG e Sippinpurpp dão uma ajuda sob o olhar atento de benji price: ou seja, um autêntico manifesto da Think Music que, a julgar pelo seu generoso alcance nas plataformas de streaming desde que foi revelado ao mundo há largos meses, tem mais do que pernas para andar. Ainda bem: depois de um dia na biblioteca, nada como um momento de abandono no centro da pista do clube. É esse o sabor do “sauce”…

O remate final de Inter-Missão faz-se com “S.Q.N.” (Lewis M no beat) e “L.Y.B.Y.” (assinado pelo consórcio Think Music de Ice Burz, Osémio Boémio & benji price), duas faces de uma mesma moeda: Mike está no seu “last year being young”, sabe que é fácil ser trapstar, mas entende que há clube, há pista e há também cabeças que procuram substância, outras paisagens sonoras. E não há dúvida que Mike tem rimas para jogar na primeira divisão, mas, ao mesmo tempo, não teme aparvalhar e colar palavras só porque sim, tem flows naturalmente sinuosos, mas não deixa de experimentar as nuances tecnológicas do auto-tune.

Apresentado mesmo na recta final de um ano prodigioso, Inter-Missão chegou ainda assim perfeitamente a tempo de reclamar o seu espaço no quadro de honra de 2018, mais uma marca de enorme qualidade no percurso de um artista singular que tem substância, história e uma visão personalizada que lhe auguram futuro risonho. Venha ele.

 


Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
Rui Miguel Abreu