ProfJam: “Vocês estão a ver um episódio, não estão a ver a série toda…”

[TEXTO] Rui Miguel Abreu [FOTOS] André Pêga

#FFFFFF está aí. O branco e a luz que contêm todas as cores, o espectro total. É essa a ideia que sustenta o primeiro álbum “a sério” da carreira de ProfJam, o “prof dos putos da nova gen” que começou por se mostrar na Liga Knock Out, lançou Mixtakes e uma série de sons soltos, sozinho e com outros artistas, e que, paulatinamente, se foi impondo como um dos mais sólidos nomes do panteão hip hop nacional.

As views e streams crescentes, a construção da Think Music como colectivo com personalidade distinta, sem medo de cavalgar a espuma dos dias, os concertos cada vez mais carregados de público, tudo isso contribuiu para que ProfJam chegasse a 2019 com a certeza de poder reclamar um bom pedaço do presente e, talvez até mais importante, poder mostrar justificada ambição de conquistar também um pouco do futuro.

Com Lhast ao seu lado, ProfJam assina em #FFFFFF um daqueles trabalhos que podem ser divisivos, não no sentido das opiniões — embora aí também possa haver diferentes posições — mas na própria narrativa que esta cultura vai estabelecendo entre nós. A força conceptual do trabalho, o abraçar de novas nuances musicais e a qualidade geral da produção podem ditar que venha a registar-se um antes e um depois de #FFFFFF.

Ao Rimas e Batidas, ProfJam não esconde nada, não se escusa a nenhuma questão e abre literalmente a sua cabeça, deixando-nos vislumbrar o intrincado mecanismo que tem comando a sua criatividade e a sua carreira. Não escondendo nada. Nem a moral, nem o ouro. Nem o bom, nem o mau. É ele quem manda aqui, esta é a sua cara. E alma.



Como é que tu encaras este projecto? Este é o teu primeiro disco a sério? Até agora foi tudo um grande ensaio para chegar aqui?

Sim. Eu sempre tive essa questão que, para além de ter ambições, um álbum para mim ainda tem mesmo significado. Eu tenho muito a cultura das mixtapes, sempre ouvi. Inclusive tive uma altura em que preferia ouvir mixtapes a álbuns porque achava que o artista estava mais solto, mais a explorar. Achava que as mixtapes tinham mais essa liberdade de não ter tantas aspirações comerciais. Sempre vi o álbum como uma cena que tem que ter tudo alinhado, tem que ter condições financeiras para se fazer. Costumava dizer que só ia fazer um álbum quando tivesse 50 mil euros para o fazer.

Basicamente foi o meu primeiro álbum nesse sentido porque foi a música que eu trabalhei totalmente com essa ambição de ter algo 100% original com um conceito todo à volta. Sempre fiz as mixtapes que, para mim são conceptuais, tem toda uma conexão, mas por causa dos direitos das músicas, de usar beats de outros artistas, nunca as finalizei como álbuns. Adiei o álbum. Não estava a planear. Quando ele chegar, vai-se manifestar. E então foi isso que aconteceu. Este é mesmo o álbum do ProfJam. 

Aqui tu trabalhaste com o Lhast. Quando é que decidiste que estava na hora para avançar?

A ideia de fazer o álbum exclusivamente com o Lhast surgiu porque o meu som mais original a nível de produção foi o “Xamã”, que foi feito com ele. Até aí usava licenças de beats da net, ou então sem licenças até. Já tinha feito outros temas originais com outros produtores, mas fazer mesmo a produção in-studio nessa mentalidade foi com o Lhast que penso que fiz o primeiro som mais a sério. O resultado do “Xamã” foi muito positivo para mim, a nível de eu não esperar que saísse aquilo e o mesmo com ele. Nenhum de nós antecipou aquilo. 

Achas que é o exemplo clássico do resultado ser maior do que a soma das partes? Algo de especial resulta do vosso cruzamento?

Eu acho que foi isso. E foi isso que sempre falámos. Eu motivo-me imenso porque o Lhast tem uma sonoridade e tem beats que se calhar não são os primeiros beats que eu iria escolher. Ele próprio me disse que não estava à espera daquilo, mas que tinha ficado fixe e que era uma cena diferente. Os beats do gajo levam-me para uma cena mais marada. 

E então depois a gente juntava-se, eu fazia imensos freestyles, ficavam muitas ideias não concluídas e uma delas depois deu o “Água de Coco” — tive um ano para acabar o som — e à medida que estava a acabar o som… quando eu ia lá, nós mandávamos uns freestyles e ele mandava-me uma pasta com os beats em que tínhamos mandado freestyle. Sem compromisso. Às tantas eu estava a ver: quando começo a trabalhar, ligo o PC e começo a abrir beats e a mandar freestyles e depois começo a ver que grande parte deles era do Lhast. E alguns deles tinham um elo. Mais tarde, num concerto, estava lá com o Lhast e falámos, elogiámo-nos mutuamente e ele disse, “era bué fixe fazermos uma cena juntos”. Ouvir isso dele e eu já pensar isso foi o clique.

Inicialmente era um EP o que eu pretendia fazer. Depois de ter já quatro ou cinco temas, pensámos: “pá, isto está bué fixe, bora continuar a escavar mais um bocado, bora apontar para o álbum”. Inclusive já tínhamos mais faixas do que aquelas que ficaram, mas estas foram as que “sobreviveram”. Não são necessariamente as melhores, mas as que se interligavam mais. 

Neste processo, como é que surge Los Angeles?

Nós já estávamos com muitas coisas para fazer. Quando começámos o processo, o Lhast ainda estava cá e ele ia sair. Já estava de malas aviadas. Então basicamente o Nelson (NR: Monteiro, manager de ProfJam) marcou o avião. Para me focar mais, para me isolar mais um bocado e absorver outras vibes. Não foi só bulir, foi também estar lá. Acho que isso foi fixe. Limpa bué porque estou noutro sítio…

Mas por outro lado estavas num sítio onde a indústria se sente muito. Pode ser uma cidade onde te perdes, como também pode ser uma cidade onde te encontras.

Eu costumava dizer que estás tão perto do Ferrari como da sarjeta. Vi Ferraris ao lado de gajos em sacos-de-cama no meio da rua e as pessoas nem olhavam para elas. Aquilo é um bocado land of opportunity. Isso inspira-me também. 

Gostas dessa pressão? 

Gosto de estar na corda bamba. E acho que isso é um fogo bué interessante e uma coisa cliché do artista que vai para LA tentar ser actor, músico e depois pode não dar. Acho que isso também está inserido na mentalidade… se aparecer, é a sério.

Estiveste lá ainda algum tempo, não foi? 

Um bocadinho mais de um mês, mas foi intensivo. Eu quando vou aos sítios não gosto de fazer turismo. Gosto de sentir-me a viver lá. Vou ali buscar café à bomba, absorvo o que a cidade tem para dar, o que aquela atmosfera sugere.

O lugar onde estás ou de onde vens é uma influência, não te abstrais disso…?

O Sam The Kid dizia: “não acho que [o sítio] de onde tu vens influencie assim tanto o teu sucesso”. Acho que percebo o que ele quer dizer, mas no fundo, em termos práticos, há uma estatística que não pode ser ignorada. É realmente difícil um act, principalmente no hip hop, que tem muito a questão urbana na sua génese, impor-se fora dessa atmosfera. No Alentejo, o cante alentejano tem um ritmo, o hip hop vem de Nova Iorque que tem um ritmo totalmente diferente, com uma densidade populacional totalmente diferente, ou seja, essa carga manifesta-se mais em sítios mais urbanos. Logo a partir daí, transpondo isto para o panorama continental, sempre foi se calhar: Beja para Lisboa, Lisboa para Paris ou para outras cidades. Agora com a conectividade dos transportes e das fronteiras, Lisboa já está um bocado mais em pé de igualdade. estamos perto de tudo, longe de nada.

Nesse aspecto, há uma luz ao fundo do túnel. Pode não ser a minha “geração”, mas quem sabe os próximos vão estar ainda mais conectados. O que se passa em Roma, passa-se aqui. Eu recebo a notificação dos sons que tu ouves à mesma hora que tu. J

Isso só tende a crescer porque uma coisa puxa a outra. Vem a Madonna, depois vem o Yung Lean. Estamos na conversação. Então isso é uma luz. É possível. Já foi mais impossível alguém chegar cá num festival, ver-me num palco e dizer: “pá, isto soa-me fixe, as pessoas estão a vibrar, vou experimentá-lo ali num festival que eu tenho em Roma”. Eu adorava poder tocar na Europa como rapper português. Ter ali a bandeirola… Nós estamos fartos de importar e as pessoas aceitam. Era fixe também sermos bem aceites. Isto não é uma cena nacionalista nem nada. Não preciso de estar a mudar a língua. Era brutal poder estar a cantar este álbum em cidades europeias. 

Falemos daquilo que tu estás a cantar. Qual é, no fundo, a grande mensagem que estás a querer transmitir?

Não sei bem se não são várias. Dentro dessa coisa do branco, é um bocado “sê inteiro”.

Achas que as pessoas andam muito com máscaras para esconder certas partes das suas personalidades?

Penso que sim. Acho que nenhum dos caminhos é fixe. Acho que quando queres uma conversação sobre o que for… Se eu disser: “epá, o que tu achas é uma ganda merda. Isto é o que é”. Tu vais receber isso de uma maneira fixe? Em princípio não. Basta pensar neste clima todo polarizado de política, música e em tudo.

“Ou estás comigo ou estás contra mim”.

Ya. E não é nada assim na vida real. Isto é uma consequência muito grande das redes sociais. Vamos dar conta e alteramos ou então vamos só separar, mas eu penso que é isso. É um bocado o que eu tento fazer neste álbum. Unir as pontas. Falando de mim, e não necessariamente falando dos outros. Estou a falar de mim e de como é que eu tento equilibrar as cenas, e não sentir mais nem menos que os outros porque há dois vectores. Estou-me a achar mais ou estou-me a achar menos. E não quer dizer que eu não ache mais em certos aspectos e menos noutros. A mensagem do álbum é aquela que tem sido a minha: faz a tua cena, sê completo. Quando eu te estou a puxar o lado mau, não é tipo, “faz merda, sê mau”. Nada disso. É antes: “aceita que tu também és mau para os outros, para ti. Se tu aceitares isso em ti, consegues aceitar isso nos outros, consegues perdoar mais, construir mais, não vais tão abaixo quando fazes merda. Fizeste merda, sabes que isso é mau, assume”. 

Acho que uma mensagem nunca pode ser única. Acho que as mensagens têm que ser sempre adaptadas caso a caso. E eu dou o exemplo dum pai que tem dois filhos. Um está sempre na rua e não vai à escola, o outro só está na escola, estuda e só quer saber disso. Um bom pai não vai só dar um conselho para os filhos. Vai dar dois. Vai dizer, “olha, tu devias ir às aulas, estudar mais um bocado. E tu, se calhar devias ir divertir-te porque também é importante fazer amigos”. Um bom pai faz isso. Adapta a sua mensagem para quem está a ouvir. Não faz uma mensagem única, genérica e one size fits all quando não é assim que as pessoas são. Eu tento sempre ter essa preocupação… Quem me está a ouvir, pode não ser necessariamente quem eu acho que me está a ouvir. Mensagens que quero que estejam sempre duais e completas. Lá está, o espectro todo. Não só um lado. No fundo importa tudo. Há momentos para divertir, há momentos para trabalhar, há momentos para destruir, há momentos para construir. Faz tudo parte deste caos. 

Conhecemo-nos há pouco menos de quatros anos quando vieste tocar no primeiro festival do Rimas e Batidas e o teu crescimento desde então tem sido incrível. Ir da sala 2 do São Jorge para o palco principal do Super Bock Super Rock diz tudo. Mas esse crescimento não se fez sem seres muito criticado. Como é que tu lidas com isso?

Eu tenho que ouvir. Eu ouço. Eu leio comentários. Estou atento, posso não interagir, mas eu estou a ver. E se não for eu a ver, pode-me chegar aos ouvidos. Acho que é importante ter esse contacto e essa humildade. Lá está, check yourself. Não poderia ser o gajo que está a dizer para não apontares o dedo e depois no fundo não estou a olhar-me ao espelho. Um feedback é um feedback. Como é que eu lido com isso? Há uma parte que é: a Internet dá-te uma noção de que as opiniões estão todas no mesmo nível porque um username e um comentário é igual a outro username e um comentário. Mas eu não sei que idade é que a outra pessoa tem. Não sei em que situação mental ela está. Como é que ela está na sua vida. Isto tem muitos factores aqui associados que eu não estou a ver quais são. Nem às vezes o tom com que está a ser dito. No Whatsapp há conversas que um gajo tem que começam a ser discussões porque a pessoa está a querer levar aquilo de uma maneira que nunca foi entendida para ser. A nível da Internet, eu lido com peso e medida. Esse problema também existe no plano real, mas é um bocado mais tranquilo. As pessoas não são tão agressivas cara a cara. 

Às vezes muda a forma, mas não quer dizer que mude o conteúdo. E se calhar houve interpretações do conteúdo que não foram as mais acertadas. Por culpa minha também. Primeiro assumo logo que há mudanças de pensamento e há crescimentos. Há certas cenas que eu apontava e criticava e depois via-me a fazer o mesmo. Como é que eu posso conviver comigo próprio e com os outros? Dois pesos e duas medidas não gosto. 

Depois foi aquela questão: eu estou a dizer isto porque eu penso isto ou estou a dizer isto porque alguém pensou isto por mim? Houve muito essa cena. Eu sou uma pessoa muito influenciável. O que está à minha volta influencia o meu estado de espírito, a minha mentalidade e o meu pensamento porque tenho a mente muito aberta. E isso tem cenas positivas e negativas. Como tenho essa cena, mas consciente dela, sempre tive cuidado com o que é que ponho na minha música. E quando meto algo na minha cabeça, sei o que estou a pôr. É aquela questão: um gajo está a ver um Big Brother sabe que está a ver uma coisa que não acrescenta muito. Mas a reacção normal é: “quem vê Big Brother é uma merda”. Será essa a cena? “Não, mano, eu não me acho uma merda e estou a ver Big Brother”. Então se calhar nem toda a gente que vê Big Brother é uma merda. Um bocado por aí. 

A própria cena do Valete, das “alianças com kizombeiros”… Kizomba é um estilo de música, porque é que é menor que outro qualquer? Nem todas as músicas têm as mesmas ambições. Eu posso ter outras ambições. A mesma pessoa pode ter o espectro completo. Eu posso ter a ambição de fazer dançar, quando eu quero fazer dançar, e quando tu quiseres dançar porque tu é que vais escolher a música. Eu estou só a criar, depois tu é que escolhes. Eu acho que é mais um artista que pode dar um bocado de tudo… E agora não me estou aqui a opor ao Valete. Estou só a dizer que quero romper um bocado com isso. 

E indo à pergunta sobre as críticas. O “Nuvens”, que foi o meu primeiro som a seguir à Liga Knock Out, foi exactamente um dos sons de que hoje dizem: “ah, aqui é que ele era…” Mas eu acabo o som a dizer: “O movimento nunca pára/Enquanto um ni**a cá tiver/Porque quando eu disparo a dica/Vira o ‘salve-se quem puder’/É que cá dentro eu tenho um feeling/ Pa’ fazer sempre o que quero/Pergunta-me se eu sou real/Mano eu sou o que eu quiser…”. E esse é um motto que eu tenho sempre comigo. Porque se nem eu sei quem sou às vezes…

Parece que às vezes estou dividido. Então tenho que ir alternando. Quando me dizem, “tu és isto, vê lá”. Eu digo: “não, mas eu também sou isto. Estão aqui provas concretas que eu também sou isto, e [existem] pessoas que gostam de mim por causa disto”. Sempre tive a cena do rap consciente e do rap inconsciente. Sou o mesmo gajo que está a dizer para ires bulir, mas também sou o gajo para dizer para te ires destruir. 

Uma resposta a essas críticas é: vocês estão a ver um episódio, não estão a ver a série toda. Eu estou a lançar episódios. É uma maneira de manter o pessoal entretido com a minha cena. A primeira season é uma cena, a segunda season é outra cena e a terceira é outra. Podes não curtir a segunda season, mas, desde que ligues para ver, missão cumprida. 

Ainda te sentes como “o prof dos putos da nova gen”?

Agora cada vez mais sinto que há essa cena mais patente. Foi profético nesse sentido. Pessoas que cresceram com as músicas que eu lancei. Putos que tinham 15, agora têm 20. Conheço pessoas que me ouviram muito novos. É fixe saber que já tenho mesmo algumas pessoas que foram brought up comigo na playlist. Ya, sinto cada vez mais isso. Que pelo menos a minha contribuição seja de liberdade com juízo. Sinto que tenho putos que dão esse props e fico bué contente. Eu fui aluno de muitos e já ter alunos é fixe. 

E como é que pensas a Think Music nesse sentido? Explica-me o pensamento por trás da Think Music.

O pensamento por trás da Think Music foi essencialmente a necessidade de criar um selo para lançar a Mixtakes depois de sair da ASTROrecords. Há muita gente que não sabe mas o primeiro projecto da Think Music foi a Mixtakes. A Think Music nunca teve um “vai ter que ser isto”. Foi mais pôr a orelha de fora e ouvir.

Aconteceram certos processos que não poderiam ser planeados. É aquela coisa: a vida acontece quando estás a fazer planos. Nunca houve a cena da Think Music ter que ser uma label de trap, e vamos fazer isto, e precisamos ali do gajo para fazer aquilo. Não. Estamos a ouvir, estamos a perceber o que é que precisamos, o que é que nos está a motivar. Estamos a sentir este puto? Ya, estamos. Se tu gostas, gostas. Esta própria entrevista… Eu não quero que as pessoas tenham que ler a minha explicação para gostarem. Eu quero que gostem. Depois, se gostarem, podem ir ver mais. A Think Music sempre foi isso para mim. 

Mas sentes que é feita de artistas muito diferentes entre si?

Isso é uma preocupação. Não digo que é um plano, mas é uma preocupação, que é ter uma coisa heterogénea, mas que tenha pontos-de-contacto. E isso também vai da mentalidade dos artistas. Nós, quando chamamos um artista, temos algum tipo de conhecimento de como é que é a postura dele, pelo menos na música. E uma cena que eu me orgulho é que dá para fazer uma cypher ou um feat., todos com o seu estilo, e vai tudo funcionar porque vamos construir para isso, e não o contrário. Acho que isso era o motto mesmo de avanço… é tipo 21 Savage e J. Cole. Porque é que o Prof, mesmo que seja vindo de uma certa escola, não pode fazer uma cena que vem de outro sítio? Isso é segregação. Não sou a favor disso. Sou mais: o que é que podemos fazer juntos. Se quisermos. Não é forçar. É o contrário: não forçar a separação. Se dá para juntar, bora. É interessante, não foi feito… isso motiva-me. 

Foi esse o pensamento por trás da tua participação no tema dos DAMA?

Muito. Se estou certo de quem eu sou, não posso estar com medo das etiquetas porque elas não são verdadeiras. Não brinquem comigo nesse aspecto. Eu é que mando aqui, eu é que uso esta cara. O meu statement foi mesmo: eu posso fazer um som com os DAMA. Porque eu é que sei o que posso fazer, não és tu. Ou seja, não foi isso que eu procurei quando fiz um som com os DAMA. Essa oportunidade surgiu-me e eu ia rejeitá-la por causa disso. E foi por isso que não a rejeitei. A lógica é ao contrário. Não aceitei para te mostrar, simplesmente não a rejeitei para te mostrar. E quis também dizer que sou um artista completo. É um som de dança, eu curto do beat, é para dar aí vibe de Auto-Tune, give me that shit. E fiz mesmo com essa mentalidade. Eu conheço os DAMA, são meus amigos, o Cristovinho já o conheço há imenso tempo. E estava tipo, “estão aqui seres humanos a querer trabalhar juntos e eu vou ser o gajo que estou com coisas que nem sequer são minhas. Tira já isto daqui. Bora fazer o som”. 

Há por aí artistas que nós possamos não estar à espera que tenham colaborado com o ProfJam?

Espero que já não haja artistas que não estão à espera. Essa é a missão cumprida. Estejam à espera de tudo. 

Tudo é possível. Mas, sem falar em nomes concretos, tens participações aí na calha?

Tenho. Várias. Não sei quando é que vão ser inseridas no decorrer do ano, mas tenho várias. Dentro da label, fora da label. Já despachei o álbum, agora vou despachar uns feats. e depois back to the lab again

Já olhei 20 vezes para o teu relógio, já olhei 20 vezes para o teu pendente e na verdade o relógio e o pendente acabam até por ir ao encontro da pergunta que eu tenho para te colocar: há uma componente espiritual muito forte no disco, o que não te impede de dizeres que queres ir viver para Malibu. Mas parece que há aqui um bocadinho essa missão de “isto não é só sobre o ouro que tenho no pescoço, há algo de mais profundo que quero transmitir”. Que é uma dimensão que as pessoas não estão habituadas a ouvir neste tipo de registo, não é?

Ligando a cena do ouro à cena espiritual, que vai contra essa parte, acima de tudo para mim significa completar uma parte que, para mim, estava a faltar, entrando na cena do espectro total. Para ser uma pessoa dita consciente ou para não seguir a mentalidade de ovelha, eu não poderia ser como as ovelhas ou como as pessoas inconscientes. A minha mentalidade era ser controlado pelas mesmas coisas, mas simplesmente definir-me pelo oposto delas, ou seja, para mostrar que não sou vaidoso, eu vou mesmo mostrar que não sou vaidoso. Isso é uma vaidade porque eu estou a querer mostrar que não sou vaidoso. 

Que estás acima dessas coisas…

Sim. Houve uma cena que eu vi na net, que eram os ego traps. Se tu estás a andar de bicicleta para poderes falar mal de quem anda de carro, o teu ego não está ausente. Aquele tem um grande carro porque tem um grande carro. Tu andas de bicicleta para dizer que não andas naquele grande carro. Não é porque realmente tens mesmo essa ausência do ego. 

Então o que eu estava a ver era que eu estava na mesma a ser consumido pelos mesmos problemas, mas simplesmente a definir-me pelo contrário deles. Achei que era possível ter uma música que tem conteúdo e também ter uma beleza à volta dela. E o ouro é bonito. Material brilhante. Está associado a coisas grandes. Ouro, incenso e mirra, não é?

É não rejeitar a parte bela só porque ela é associada à superfície. A superfície também vem de um encandeamento do interior cá para fora. Quando te apresentas belo, há uma preocupação de como tu és visto. Pelos outros. Até se calhar é mais egoísta eu estar feio e a cheirar mal, do que uma pessoa que está bonita e a cheirar bem. Então foi um bocado isso. Ter um bocado o melhor dois mundos. Eu posso ser o rapper consciente que está bem vestido. Ou posso estar-te a dizer uma cena espiritual e estar agradável. Embora concorde na mesma com a cena toda da simplicidade, por isso é que a capa branca. 

Eu não estou a dizer com isto que é preciso grandes avarias. Se quiseres avariar, avaria. Não estou a dizer que a beleza é complicada. A beleza simples é a mais bonita, se for preciso. Foi essa união que eu quis, que estava a faltar. Não é por teres um videoclipe bué sarrafeiro que és mais real. Eu quero um videoclipe bonito. Uma cena bonita para os teus olhos verem, e estou-te a estimular em vários níveis. 

O que é que te tem aí puxado aí na tua playlist pessoal?

Primeiro, conviver com músicos e pessoal do ramo é sempre uma motivação constante. 

A minha label é o que ouço mais. Para ser sincero, e não é uma resposta muito fixe, eu não ouço muita cena. Eu ouço pop rap. Ouço algum trap. Ouço algumas cenas para trás. Agora o que tenho ouvido é mais o que está à superfície. O álbum do Meek [Mill]. Drake. 

Não ouço as playlists, ouço os projectos. Gosto de conhecer o artista. Escolho menos artistas, mas conheço-os mais a fundo. Não dá para ter tudo. Mas estou a par mais das cenas do dia-a-dia do hip hop, eu sou muito reduzido ao hip hop. 

Para terminar: antes de começarmos, o benji revelava-me que há grandes objectivos para a Think, como colectivo, em 2019. Para ti, o que é que te faria chegar a Dezembro próxino e dizer: “este ano correu mesmo bem”.

Isso aí seria termos ter toda a gente com um projecto na rua. Termos todos um número de concertos marcados fixe e que desse para sustentar novas apostas e conseguir uma melhoria constante de material para produção. Nós reinvestimos muito. É uma cena que fazemos com gosto e brio. 


Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
Rui Miguel Abreu