Allen Halloween // Unplugueto

[TEXTO] Rui Miguel Abreu

O caso de Allen Halloween é tão singular que o acto de o tentar inserir num qualquer contexto maior é absolutamente despropositado. O homem de Híbrido traçou o seu próprio percurso, alheio a movimentações de fundo no mais vasto contexto cultural do hip hop a que o temos associado, mantendo-se resolutamente independente mesmo no momento em que a indústria decidiu energicamente abraçar um género que floresceu de forma orgânica e natural na sua periferia. Essa independência não é fruto de um qualquer calculismo financeiro, mas de uma mais funda consciência filosófico-espiritual que o mantém à margem de um jogo que, em boa verdade, Allen nunca manifestou intenções de querer jogar. Não porque lhe desconheça as regras, antes porque, muito simplesmente, não lhe reconhece a validade de objectivos. A vida, a artística, mas também a real, não se faz, no mundo interior de Allen Halloween, de uma sucessão de derrotas e vitórias que, feitas as contas no final, ditam a conquista de um qualquer campeonato. De vendas. De streams. De cachets. De aplausos. De reconhecimento dos pares. “Ninguém ouve, ninguém ouve irmão”. Mas alguém ouve, na verdade. E com ouvidos atentos, por acaso. E é com essa gente que Allen tem feito o seu caminho, gente que o vê na discoteca ou no festival, gente que o apanha em cartazes carregados de metal, em clubes de vibração punk, em circuitos a que o hip hop normalmente não chega, mas onde Halloween não tem problemas em pregar a sua verdade. Porque é, simplesmente, uma verdade de que quer dar testemunho enjeitando sempre as vestes de um qualquer messias, a coroa de um rei ou o megafone de um proverbial líder. Até porque desde as cruas narrativas da vida no lado mais escuro dos bairros até às visões de redenção que hoje nos oferece vai a distância de um homem que nunca escondeu que se transformou, que evoluiu e por isso quem o seguia no início pode já não se rever nele no presente. Em “No Love” Allen canta: “O Halloween não é bravo nem é G/ É uma alma perdida que vagueia na street”. E numa pequena polaróide feita de palavras simples, de honestidade desarmante e de transparência absoluta, este artista eleva-se acima de tudo e de todos. Na verdade, as únicas disputas que Allen admite é com o seu próprio passado e com a sua consciência. Unplugueto, o álbum “acústico” que acaba de lançar, é a crónica da luta interior de alguém que quer apenas encontrar o seu lugar.

Allen Halloween também acaba de lançar, em paralelo com o seu há muito prometido álbum de versões acústicas, uma antologia poética que coloca sobre papel as palavras que desde 2006 vem dispondo em cima de beats. Livre-Arbítrio (que ainda não tive a oportunidade de folhear…) celebra a dimensão poética das crónicas que Allen tem assinado desde Projecto Mary Witch, o registo inaugural da sua discografia. De certa maneira, esta é mais uma forma de Allen se afastar dos cânones do hip hop que (quase…) sempre defendeu que as rimas não fazem sentido desligadas das batidas que lhes conferem o ritmo certo, que inspiram os artísticos flows que as imprimem na nossa memória. As palavras são barro, mas a arte do MC, a sua capacidade de lhes dar espessura, cadência, drama, de moldar esse barro, enfim, é o que caracteriza e distingue o hip hop. É isso que explica que uma cultura que tanto vive da palavra raramente a consagre em papel. De Jim Morrison a Bob Dylan, de Leonard Cohen a Patti Smith, de Kurt Cobain a David Bowie e de Sérgio Godinho a Zeca Afonso a verdade é que as secções de música das melhores livrarias estão repletas de recolhas em livro das letras dos melhores poetas que o pop-rock foi revelando ao longo da sua história, mas de Melle Mell e Grandmaster Caz a Kurtis Blow, Rakim, Tupac, Biggie, Nas, Jay-Z, J. Cole ou Kendrick muitos poderiam ter sido igualmente os rappers a merecer idêntico tratamento e o facto disso não acontecer, certamente não com a mesma frequência, diz muito desta cultura. O gesto de Allen Halloween é por isso mesmo relevante, contra-corrente e revelador.

Por outro lado, a relação de Allen com a dimensão musical da sua própria obra também nunca foi síncrone com as tendências mais pronunciadas da cena tuga. Não é nos grandes oceanos do jazz, da soul e do funk ou da música brasileira, nem sequer no grande lago da memória da música portuguesa que Allen costuma levar a sua MPC a beber. Nem sequer, como agora vai cada vez mais acontecendo, sentimos a sua “sampladelia” levá-lo em busca de uma qualquer identidade africana nas colecções de semba ou mornas ou funanás ou marrabentas que pudessem eventualmente existir na sua órbita pessoal. É numa esfera muito mais indie-rock que gosta de procurar a matéria que depois usa na arquitectura única dos beats que ele mesmo cria e que soam diferentes de tudo a que o hip hop, tuga ou de qualquer outra nacionalidade, nos habituou. Unplugueto é a mais recente manifestação dessa diferença, um disco que se faz em iguais partes do impulso rimático que Allen recolheu em primeiro lugar em rappers como Tupac ou Biggie, da inspiração poética que foi captando em momentos concretos das obras de Zeca Afonso ou Sérgio Godinho e da entrega particular que aprendeu a ouvir de Kurt Cobain e, arrisco dizer, talvez em tempos mais recentes, Nick Cave. Hip hop da velha guarda do lado mais thug da sua história, canção de protesto portuguesa e verve grunge com um tempero algo gótico são os elementos de que parece então fazer-se a música de Allen Halloween. Mas o que o torna realmente diferente não são as coordenadas improváveis do seu mapa musical, antes a matéria moral que rodeia as suas histórias e as suas palavras.



Há um desalento melancólico nas histórias sem rumo dos rapazes e das miúdas que povoam o universo poético de Allen que talvez tenha ganho uma aguda consciência de que o tempo passa quer o bairro queira quer não e que esse é o juiz supremo, a entidade que todos condena e que consagra a memória como a mais pesada das penas. Halloween tem o mérito de nos ter mostrado, em cada um dos seus filmes – e temas como “Adeus Dog”, “Na Porta do Bar”, “Bandido Velho”, “Crescer”, “Debaixo da Ponte”, “Menina Rica”, “O Rei da Ala” ou “Assassino” são isso mesmo, pequenos guiões à espera de ganharem vida num qualquer ecrã – a vida de uma periferia que sabemos existir mas que raramente vemos exposta desta maneira, crua, sem filtros, sem qualquer tipo de glamour. Estas ruas são o que são e Allen não as desmente, não as disfarça, não as maquilha com cores de glória. Tudo nele é cinza, sépia, escuro, porque naquele lado do mundo não há grande lugar para o sol.

“Assassino”, o tema que fecha Unplugueto, é um pequeno prodígio. Allen consegue posicionar-se entre o canto, a rima e a declamação, com a sua voz funda e arrastada, como se em cada frase ele sentisse o peso do mundo. E depois lá vem a precisão cruel das imagens: “Um dia o diabo pediu-me uma vida/ Eu vou buscar vidas aonde?/ Ou me trazes uma vida ou dá-me a vida e morre/ Agora o diabo me conduzia e eu ia para longe/ Eu era cabo de polícia e queria ter o meu nome”. E o que ouvimos? O destilar das lições de Kurt Cobain numa sombria e simples paisagem rock desenhada a guitarra e a graves, com um violino a oferecer a dada altura um solene e não menos obscuro contraponto sobre o qual Allen mostra, afinal de contas, ser o melhor rocker da sua geração, condição que sublinha na tremenda “O Rei da Ala”: “abram-me a porta eu porto-me bem!” é o som de uma súplica que nunca se escutou desta forma na música popular portuguesa. “Os gangsters não vão para o céu”, diz-nos Allen. Verdade, mas para eles o inferno é o bairro que sempre conheceram: “há traumas que nos seguem no escuro até ao túmulo do cemitério/ filho de preto nas mãos do estado é um brinquedo/ às vezes crescer fechado no gueto pode ser pior”. Há mais alguém a pintar estes retratos?

Unplugueto não é um disco perfeito, não pretende sê-lo de qualquer maneira, e poderíamos vê-lo alcançar outros patamares se Allen tivesse ao seu lado uma banda capaz de dar outra espessura às suas ideias, uma banda capaz de ser mais abrasiva nalguns momentos, capaz de explodir, por exemplo, quando se chega ao momento em “Debaixo da Ponte” em nos é apontado “alguém num pontão velho”. Mas há também aqui qualquer coisa de profundamente inocente e não são poucos os momentos em que tudo parece resumir-se a um pequeno grupo de amigos reunidos noite dentro no court abandonado no centro do bairro, com guitarras e pouco mais, partilhando canções com a certeza de que não há ninguém a ouvir. E não há, de facto. Tirando todos nós…


Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
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