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Ilustração: Rita Magdala
Publicado a: 23/02/2021

Primeiro através do sampling, mais tarde por via da pura invenção instrumental e da colaboração com outras mentes criativas, Otis Jackson, Jr. nunca deixou de alimentar uma séria paixão pela grande invenção musical da América negra.

Um amor supremo: Madlib e o impulso para o jazz

Ilustração: Rita Magdala
Publicado a: 23/02/2021

Em 1992 – sim, quase há 30 anos! – um desconhecido de nome Madlib, sob o alter-ego Dezo, alinhava samples retirados de um álbum do saxofonista Joe Farrell (a bateria que marca o arranque da incrível “Upon This Rock”) e também de outro disco do pianista Lonnie Liston Smith com os Cosmic Echoes (a introdução colectiva ao tema “Let us Go Into the House of the Lord”) para criar a sua remix de “Throw ‘Em Up”, solitário e obscuro lançamento dos No Good Hoodz, hoje uma cobiçada pérola de random rap valorizada sobretudo por ter marcado a estreia de Otis Jackson, Jr. no hustlin’ do beatmking.

Logo aí, o olhar sampladélico de Madlib recuava duas décadas até ao início dos anos 70 em busca das texturas que haveriam de lhe definir a aura, marcando o início de uma longa e permanentemente renovada relação com o jazz, talvez a “zona” estética que mais insistentemente explorou na sua massiva discografia. Em 1995, antes da sua estreia formal como parte dos Lootpack, o grupo que haveria de lhe abrir as portas da Stones Throw, produziu o tema de abertura de Coast II Coast dos Tha Alkaholiks, “WLIX”, em que voltava a recorrer ao jazz para encontrar matéria samplável: dessa vez, o seu gira-discos captou uns preciosos segundos de ruído abstracto criado por Ilhan Mimaroglu, pioneiro da electrónica, para o álbum Sing Me a Song of Songmy (A Fantasy For Electromagnetic Tape), colaboração do artista turco com o trompetista norte-americano Freddie Hubbard.

Ou seja, é sintomático que tenha sido sobretudo em discos de jazz que o produtor natural de Oxnard, na Califórnia, tenha encontrado a sua principal fonte, logo no início de carreira. Sintomático, mas também perfeitamente compreensível e natural, tendo em conta o seu background familiar: Sinesca Jackson, a sua mãe, prosseguiu uma linhagem familiar de cantoras de folk e blues e muito provavelmente sentava-se ao piano quando chegava a altura de entreter os convidados em dias festivos e Otis Jackson Sr., o seu pai, tinha um peru para trinchar porque trabalhava bastante, como músico de sessão, para gente como H.B. Barnum, Tina Turner, Bobby “Blue” Bland e Johnnie Taylor. A casa dos Jacksons era frequentemente visitada por amigos do pai, como David Axelrod, por exemplo. E não podemos esquecer o tio do jovem Otis, Jon Faddis, trompetista que passou muito tempo na estrada ao lado de consagrados como Dizzy Gillespie, Bob James ou Roy Ayers e que era igualmente visita frequente. Foi aliás, como a dada altura admitiu em entrevista, na colecção de discos do tio Jon que o jovem Otis começou por pescar os seus samples. Quando questionado, em 2002, sobre qual o primeiro género musical por que se apaixonou, Madlib não hesitou: “Jazz. Eu já ouvia jazz quando tinha 6 ou 7 anos. O meu tio é o Jon Faddis, ele tocou com o Dizzy Gillespie e o Roy Ayers e todos esses tipos. E eu basicamente comecei a explorar a sua colecção de discos e roubei-lhe todas as pérolas. Foi assim que comecei a fazer beats”.

Claro que a ampla criatividade de Madlib e a sua insaciável curiosidade conduziram os seus ouvidos para muitos territórios diferentes ao longo dos anos, vários deles documentados em discos que resultaram das suas expedições sampladélicas: ao Brasil, ao rock de recorte mais psicadélico, ao reggae e à soul, a múltiplos filões da música de África, às margens mais obtusas da library music, à electrónica, a Bollywood e até, como se constatou no recente Sound Ancestors, ao pós-punk espectral dos Young Marble Giants. Nenhum território é suficientemente explorado para que nele Madlib não encontre aquela peça enterrada que mais ninguém foi capaz de descobrir nem, pelo contrário, haverá alguma zona mais remota ou de difícil acesso que ele não seja capaz de provar estar perfeitamente equipado para abordar: os Stereolab não serão o nome mais imediato quando se pensa em fontes de sampling e ainda assim Madlib recorreu a “Diagonals” para servir jogo a MED e Guilty Simpson; já os japoneses Flied Egg não hão-de, igualmente, ser nome recorrente nas discotecas da maior parte dos beatmakers, mas isso não nos deveria levar a estranhar que o Loopdigga tenha encontrado razões para submeter uma rodela do grupo de prog nipónico ao seu sampler na hora de criar um beat para Freddie Gibbs poder rimar em “Bandana”.

Mas é no jazz, de facto, que Madlib parece sentir-se como peixe (tubarão, certamente) na água, dominando as nuances do género com a autoridade de quem cresceu a escutar a música, a testemunhar as conversas dos artistas e, mais tarde, a construir uma certamente generosa discografia recheada das mais relevantes obras. Madlib é um verdadeiro conhecedor, como facilmente se depreende não apenas dos seus hábitos sampladélicos, mas também dos seus múltiplos projectos em que o jazz é ponto de partida e, simultaneamente, ponto de chegada.



[YESTERDAY’S NEW QUINTET]

Em 1999, A Stones Throw editou Soundpieces: The Antidote, trabalho de longa duração de estreia do trio formado pelo MC Wildchild, pelo DJ Romes e pelo produtor Madlib. Otis, pois claro, mergulhou fundo nas suas crates de jazz para criar as soundpieces que o título do álbum referenciava: de Maynard Ferguson a David “Fathead” Newman, de Michal Urbaniak a Keith Mansfield, de Leon Thomas a Hampton Hawes, de David Axelrod a Jimmy McGriff, Weather Report, Miles Davis e Lonnie Liston Smith, mostrando não ter barreiras estéticas e ser, portanto, capaz de ir do be-bop à fusão, passando por texturas mais free ou mais modais. O seu ouvido tem curiosidade e poder de encaixe suficientes para percorrer todas essas diferentes correntes jazzísticas e delas extrair a matéria relevante para a construção de uma linguagem de vincado carácter autoral.

The Unseen, álbum de estreia do seu alter-ego movido a hélio, Quasimoto, lançado em 2000, também na Stones Throw, é outro festim preparado recorrendo a matéria prima de Galt MacDermot, Don Cherry, Thelonious Monk, David Axelrod, uma vez mais, aqui como arranjador dos Electric Prunes, Bobby Lyle, George Russell, Jimmy Smith e Wes Montgomery, Marlena Shaw, Maynard Ferguson, Sun Ra ou Ahmad Jamal. Num dos temas, “Jazz Cats Pt. 1”, Madlib leva mesmo a sua “nerdice” jazz ao extremo: não só sampla John Coltrane, Herbie Hancock e Cannonball Adderley, cruzando-os numa jam imaginária no seu instrumental, como ainda dedica a letra a enumerar todos os seus jazz cats favoritos, de Sun Ra a David Sanborn, concluindo, como se por esta altura já não desconfiássemos, “Anyway, I love Jazz man”.

De facto, esse desmedido amor pelo jazz não tardou a ter uma bem mais aguda tradução: em 2001, uma vez mais na Stones Throw, lançou Angles Without Edges, o extraordinário álbum de estreia do seu fantasioso “combo”, o Yesterdays New Quintet.

Quando o álbum saiu, escrevi sobre ele para a OP.:

“Já não há modelos estanques, fronteiras por desbravar nem modus operandi por testar. Já tudo foi feito e refeito e o que resta é o aperfeiçoamento de alguns caminhos ainda pouco trilhados. O hip hop nasceu da colisão dos grooves do funk e das técnicas primordiais de alguns DJ’s. E hoje, há de tudo: bandas de funk com gente que aprendeu a dinâmica dos beats nos loops dos discos de hip hop, projectos de jazz que se colam às estratégias sonoras inventadas dentro do sampler (Soulive, MM&W, The Philadelphia Experiment), e, claro, o reverso da medalha: discos onde é o sampler que serve de rampa de lançamento para o mergulho nas dinâmicas de grupo.

A mais pura das abstracções: um homem, sozinho, que desenha, em cada ‘pad’ da sua MPC, uma personalidade, um instrumento ou uma sensibilidade para depois orquestrar o todo, usando o processador do sampler como uma extensão do cérebro, codificando estruturas e modelos a partir de excertos alheios e insuflando-lhe originalidade com alguma instrumentação real. O verdadeiro sampler é, no entanto, o cérebro e um Fender Rhodes poderá ser, igualmente, apenas uma máquina para voar ao encontro do passado, enquanto se encanta igualmente com uma possibilidade de futuro.

É o caso do projecto Yesterdays New Quintet, onde o ubíquo Madlib (produtor e MC em entidades como Lootpack ou Quasimoto) imagina uma “dream band” para nos surpreender: Ahmad Miller, Monk Hughes, Otis Jackson, Jr., Malik Flavors e Joe McDuphrey são nomes ‘samplados’ ao imaginário do jazz, adulterados por forma a permitirem que neles se insufle a chama da imaginação. E a chama é bem forte em Angles Without Edges, um disco de jazz editado numa editora de hip hop – a Stones Throw, de Peanut Butter Wolf – onde um pensamento orgânico substitui o esquema habitualmente angular de trabalhos resultantes da demanda solitária da verdade através da tecnologia presente nos bedroom studios de todo o planeta.

O Yesterdays New Quintet é um projecto de ruptura e Angles Without Edges um daqueles discos que não negam a sua dose de imperfeição, para depois reclamarem um lugar naqueles pontos da história onde o passado se transforma em futuro e onde o presente é sempre uma mera possibilidade. Já se fazem jam-sessions de laptops. Um dia, num chat-room qualquer na net, iremos ouvir um homem só a orquestrar quatro ou cinco samplers – em tempo real – e a dar-nos uma visão moderna daquilo que o jazz sempre almejou: a libertação interior.”

O Yesterdays New Quintet voltaria à carga em 2002, com um trabalho que homenageava Stevie Wonder e em que surgiam, uma vez mais, Monk Hughes no baixo, Otis Jackson, Jr. (o único nome real) na bateria, Ahmad Miller na guitarra, Joe McDuphrey nos teclados e Malik Flavors na percussão. Stevie Vol. 1 começou por sair apenas como um CD promocional, mas em 2004 conheceu uma prensagem em vinil de circulação mais ampla que incluía ainda material de dois EPs lançados anteriormente, Elle’s theme e Uno esta. Os seis temas aí adicionados funcionaram como peças extra para a compreensão do puzzle que Madlib propunha nesse projecto, com uma ideia particular de jazz a evocar a época dourada de etiquetas como a Blue Note, Impulse, Black Jazz ou Strata East. A sofisticação dos arranjos, a fluidez dos grooves e o carácter impressionista das composições confirmavam Madlib como muito mais do que apenas um produtor de hip hop com vistas largas e ouvidos generosos. Curiosamente – ou talvez não… – há relativamente pouco jazz na massa samplada que serviu de ponto de partida para Madlib criar esta obra. Ou, pelo menos, pouco jazz que não esteja tão cortado, manipulado e transformado que seja ainda reconhecível: o pianista argentino Jorge Dalto, os saxofonistas Herb Geller e Jamey Aebersold, o trombonista J.J. Johnson, o baterista Bernard Purdie e os pianistas Steve Kuhn e Denny Zeitlin (todos americanos) disputam nesse trabalho espaço sampladélico com os funk-rockers Bad Medicine e com o compositor e arranjador britânico Anthony King (trabalhou com os Status Quo…) e, pressente-se, com toda a música que o próprio Otis Jackson, Jr. há-de ter criado com os instrumentos à sua disposição.

Stevie Vol. 1 é mesmo um pedaço de luz intensa apontada à carreira de um dos maiores ícones da soul e também uma das suas mentes mais criativas e progressivas. Escutando a versão de “Superstition”, por exemplo, sente-se ainda o processo de aprendizagem intuitiva de Madlib no Rhodes. Tendo em conta que o hip hop não é terreno fértil para versões (afinal de contas samplar já atira a composição para os domínios da citação), o gesto de Madlib reveste-se de uma honestidade profunda e de uma reverência sentida. E inverte-se o sentido natural do hip hop – que sampla para construir um objecto novo – ao encenar um regresso às origens onde o que é produto da citação directa pela via do sampler se confunde com o que resulta de uma ingénua abordagem das ferramentas usadas originalmente na criação das peças que agora são alvo de devoção. Questões de autor, no entanto, impedem ainda hoje a presença oficial de Stevie Vol. 1 nas plataformas de streaming (a playlist que existe no Youtube não está nos canais quer do artista, quer da editora). Aqui, os (poucos) samples identificados chegam de Sérgio Mendes e do seu projecto Brasil 77, de Al Kooper, dos Black Oak Arkansas: ou seja, menos jazz ainda, o que significa que Madlib estaria provavelmente a ficar mais confortável com os seus próprios skills musicais.

Por volta desta altura, os diferentes membros do “quinteto” começaram também a aventurar-se a “solo”: Joe McDuphrey liderou a sua “banda” Experience no Experience EP, um exercício posicionado algures entre as modalidades mais free e mais fusionistas do jazz setentista; Ahmad Miller lançou Say Ah, trabalho de versões (100% Pure Poison, Calvin Keys, Bobby Hutcherson) tão apontado às estrelas como os mais estratosféricos registos de Herbie Hancock nos anos 70; Malik Flavors arriscou também uma investida por terrenos free / modais com vincado pendor rítmico e total e libertador caos harmónico; e Monk Hughes, “à frente” do seu Outer Realm, voltou ao modo de vénia com A Tribute To Brother Weldon, um álbum intenso de abstracção pura, igualmente free, mas com um claro recorte cósmico que assim se sintonizava com a obra do enorme Weldon Irvine que passou, pois claro, pela Strata East, uma das editoras em que Madlib certamente recolhe mais funda inspiração. Madlib criou com este álbum uma pequena e complexa obra-prima de música aparentemente dissonante, mas de cujo caos emerge a coerência exploratória e libertária de um homem que ama demasiado a música para a confinar em fórmulas herméticas.



[SHADES OF BLUE

Como parte da estratégia da Blue Note para 2003, foi dirigido um convite irrecusável a Madlib, excelso produtor de hip hop, com muito jazz no seu pedigree. Na sua particular forma de programação, Madlib sempre confirmou estar meia-dúzia de passos à frente da concorrência, demonstrando ser dono de uma invulgar musicalidade que, como é óbvio, atribuía à sua educação.

Produtor hiperactivo, Madlib tinha acumulado nos três anos anteriores uma discografia pessoal de mais de 50 títulos, que incluía, além de tudo o anteriormente mencionado, várias produções para artistas como Declaime ou para o seu alter-ego Dudley Perkins, projectos semi-legais como um EP de remisturas de Beastie Boys, uma mixtape com o catálogo da editora de reggae Trojan ou álbuns de covers de óbvio recorte jazzístico dedicados a Stevie Wonder e Weldon Irvine, como já referido, mas também aos Azymuth (e este será um dos inúmeros álbuns “perdidos” do produtor).

Vale a pena sublinhar um pouco o trabalho de Madlib no disco A lil’ light de Dudley Perkins (que é a cara-metade de Georgia Anne Muldrow): uma tentativa de reequacionar as coordenadas de espaço e tempo, transformando um rapper num crooner toldado pelo fumo e um produtor de hip hop num director musical do combo residente no lounge de Bellevue. Dudley Perkins começou como uma brincadeira levada até às últimas consequências no single de 7” “Flowers”, uma ode ao tipo de ervas medicinais que se fumam em vez de se mergulharem em água quente. A experiência teve resultados interessantes e por isso mesmo Madlib e Declaime voltaram ao ataque. Em A lil’ light lida-se com os clichés do género de jazz-soul que se escutava nas coffee-houses dos anos 70. Dudley não canta, mas o seu demente falsetto transporta sugestões de letras, improvisadas por entre mais uma inalação. Curiosamente, Madlib acompanha o delírio de Dudley Perkins com beats que ostentam com orgulho falsos arranques, erros de programação, soluços no fluxo e dissonâncias variadas. Digamos que nem com faróis de nevoeiro deveria ter sido possível ver o que se passou no Bomb Shelter (estúdio caseiro de Madlib) durante estas sessões em que se samplou música de Dr. John, Horace Silver Quintet, Billy Eckstine ou Baden Powell.

A dupla voltaria a colaborar uma vez mais no álbum Expressions, lançado em 2006 na Stones Throw. A noite mal dormida (e bem fumada) que resultou no sete polegadas “Flowers” deu origem a uma carreira improvável, de facto, aqui confirmada com um segundo álbum (e Dudley Perkins prosseguiu carreira depois disto, embora já não em estreita colaboração com Madlib) que continuava a carregar a classe de Madlib nos instrumentais, desta vez bem menos caóticos. Dudley “Declaime” Perkins, por seu lado, continuava então a investir na arte de transformar emoções físicas em canções, não se preocupando para isso em seguir os cânones do género. Jazz, fumo, funk (cósmico e tudo) e soul são as coordenadas de Expressions, um álbum ainda mais intenso do que “A Lil’ Light” e um pouco mais próximo da perfeição.

É neste contexto que se entende a abordagem da Blue Note a Madlib, oferecendo-lhe a possibilidade de resgatar masters originais dos seus arquivos para posterior manipulação. Mas Madlib foi mais longe e não se ficou pelas remisturas, usando os seus alter-egos para criar uma série de originais versões para alguns temas-chave do catálogo da Blue Note. Esse trabalho mereceu o título Shades of Blue, hoje entendido como um dos mais felizes encontros entre os universos do jazz e do hip hop.

Neste álbum, nomes como The Three Sounds, Donald Byrd, Ronnie Foster, Reuben Wilson, Bobbi Humphrey, Andrew Hill, Bobby Hutcherson, Horace Silver, Wayne Shorter e Herbie Hancock são alvo de trabalho de – como a própria Blue Note reconheceu – “reimaginação” sob diversas abordagens: a simples remistura ou a versão por grupos imaginários como o Yesterdays New Quintet, Morgan Adams Quartet Plus Two, Ahmad Miller ou a Joe McDuphrey Experience.

O trabalho de Madlib, obviamente, resultou brilhante. Ele demonstrou claramente ser capaz de entender o legado da Blue Note como um corpo vivo, fulcral para a identidade do próprio hip hop, e sublinhou uma sofisticação crescente nos seus arranjos que continuavam aí a fazer basto uso do sampling, mas igualmente das suas capacidades de músico (Madlib mostrava-se então cada vez mais capaz no Fender Rhodes, por exemplo).

Assim, Shades of Blue, impõs-se também como um gesto de reconhecimento de afinidades entre duas culturas comunicantes. Para Madlib, Shades of Blue provou ser o equivalente ao folhear de um álbum de recordações. As remisturas como reverentes exercícios de actualização subtil, e as versões, ou “re-imaginações”, resultado da procura de um lugar no fluxo da história que Madlib cedo percebeu estar contada nos discos que coleciona desde sempre. E a prova de que Madlib faz música para responder a questões colocadas pela sua hiperactiva imaginação encontra-se no delicioso pormenor de o acesso facilitado às multipistas originais de peças de ícones como Donald Byrd – “Stepping Into Tomorrow”, mais concretamente – lhe ter permitido recuperar porções da sessão original (no caso, as vozes femininas) que haviam sido eliminadas da mistura final lançada em disco, mas que constavam ainda nas sessões multipistas a que teve acesso.

Aqui, as fontes sampladas são óbvias, mas Madlib fez bem mais do que apenas samplar ao chamar para o estúdio músicos como James King e Dan Ubik (Connie Price & The Keystones) e Malcolm Catto (The Heliocentrics). Para lá disso, assumiu ele mesmo uma série de papéis numa vertigem de criativa e benigna esquizofrenia que lhe permitiu tocar vibrafone como Ahmad Miller, bateria como Otis Jackson, Jr ou Lefty Houston., piano eléctrico e órgão como Joe McDuphrey, órgão como Morgan Adams III, percussão e sintetizador como Derek Holman, baixo eléctrico como Monk Hughes ou Russel Jenkins e mais percussões como Malik Flavors. Caso para sorrir se se imaginarem as faturas de músicos de sessão submetidas à contabilidade da Blue Note…

Com ligação directa a Shades of Blue, Untinted – Sources For Madlib’s Shades of Blue (2003) explorava a premissa “you gotta hear Blue Note to dig Def Jam” que no início dos anos 90 serviu de mote à aproximação da Blue Note aos meandros do hip hop, reconhecendo que o sampling levado a cabo por uma geração de produtores sintonizada com a sua história foi crucial para a manutenção do sucesso do seu catálogo. Esta compilação, como o subtítulo deixa bem claro, reúne os temas reimaginados por Madlib no grande Shades of Blue. Mais do que servir para um jogo de “descubra as diferenças”, este álbum, com momentos invariavelmente brilhantes de Gene Harris & The Three Sounds, Donald Byrd, Ronnie Foster, Reuben Wilson, Bobbi Humphrey e Herbie Hancock, entre outros, funciona como uma montra de um passado glorioso, constantemente reactualizado por gente como Madlib graças à sua vitalidade e pertinência. Quando o jazz desceu do pedestal e se deixou inundar de soul e grooves significantes, deu origem a música como esta.



[JAYLIB + MADVILLAIN + BRASIL + JAZZ]

Numa entrevista à Wax Poetics, o recentemente desaparecido MF DOOM esboçava uma ideia extremamente interessante: quando é que o hip hop se tornou hip hop? Segundo DOOM, o momento em que o DJ primordial usou o crossfader para passar de um disco de soul para outro qualquer, de jazz por exemplo, aquele momento preciso em que o fader abre o espaço sónico de ambas as rodelas de vinil à interferência do DJ, esse foi o momento de nascimento do hip hop. Sendo assim, o hip hop pode ser entendido como uma música entre dois (ou mais) mundos, uma música que existe no espaço que a formação do produtor ou DJ determina. Para Madlib, companheiro de DOOM no projecto Madvillain, esse espaço é o da intersecção do jazz e da soul com a modernidade electrónica dos samples. Jay Dee, aka J Dilla, outro produtor de eleição que fez parte dos Soulquarians com ?uestlove dos Roots (e que integrou os Slum Village), veio de um espaço formativo semelhante, mas com o sabor específico da sua Detroit natal, onde a soul, por via da Motown, foi sempre questão de elevação, sobrevivência e orgulho! Com Madlib, Jay Dee foi também Jaylib.

Os projectos Jaylib e Madvillain, traduzidos digitalmente em Champion sound e Madvillainy, respectivamente, são puro hip hop, porque resultam igualmente do cruzamento de dois mundos. Em Champion Sound, ‘lib e Dilla rimavam alternadamente nos beats do outro, numa espécie de troca de estímulos em regime aberto de ideias que se traduz num entusiasmante caleidoscópio hip hop, com beats sujos e fluidos que traem as paixões de cada um dos produtores e que soam como uma noite passada num clube de jazz, com headphones na cabeça. Os samples do amplo universo do jazz aí usados vieram de discos de Gap Mangione, Dizzy Gillespie, Cortex, Allegro Jazz Band, Soft Machine ou Lou Rawls. Mas é igualmente importante sublinhar que Madlib tem uma qualidade particular na audição, que lhe permite extrair jazz mesmo quando sampla fora do género.

Madvillainy, disco muito dissecado ao longo dos anos e que na sequência da morte de DOOM poderá finalmente ter uma sequela a caminho, é um objecto diferente, mais apoiado nas memórias de cada um dos artistas nele envolvidos, soando como uma viagem de zapping por canais de TV com quarenta anos e imagem distorcida (pelo tempo ou pelo fumo…). Ambos são exercícios brilhantes que forçam o hip hop para fora do confortável sofá onde por vezes teima deitar-se, levando-o a explorar o resto da casa, de luzes apagadas… Discos de Bill Evans, Osmar Milito & Quarteto Forma, Lonnie Smith, George Duke, Sun Ra ou Freddie Hubbard foram retirados das crates por Madlib para ajudar a construir um dos mais icónicos registos do universo do hip hop underground.

Já lá vão mais de 15 anos desde a última vez em que Quasimoto nos ofereceu um álbum. The Further Adventures of Lord Quas(de que foi também lançada versão instrumental) era, por assim dizer, moderado nas doses de jazz injectadas via sampling na absurdista fórmula final, mas, ainda assim, sons retirados de discos de Don Ellis, Herbie Hancock, Lenny White, Albert Ayler, dos alemães Ex Ovo Pro ou do francês Pierre Dutour ajudaram a erguer as delirantes paisagens por onde evolui a estranha criatura amarela que Madlib assumiu como disfarce. Em 2013, A Stones Throw ainda editou Yessir Whatever, uma compilação de material disperso de Quasimoto com beats construídos com recurso a samples de artistas como David Axelrod (a produzir David McCallum no clássico “The Edge”), de John McLaughlin, Bob James e Dave Grusin.

Madlib nunca escondeu a sua paixão pela música do Brasil. Em 2002 esteve no país do samba e do futebol, juntamente com Egon, à época ligado à Stones Throw e hoje seu amigo, confidente e manager inseparável. A convite da Red Bull Music Academy, o produtor conheceu o país e, obviamente, há-de ter sido obrigado a dar sérias explicações no balcão da companhia aérea que o levou de volta aos Estados Unidos quando se apresentou para embarque com uma tonelada de vinil aí adquirido. Sentado no mítico sofá da Academia entretanto extinta, Madlib teve uma reveladora conversa em que o jazz foi, naturalmente, assunto central. Toda a entrevista é interessante e plena de pistas para se entenderem os seus processos e pensamento artístico, e são bem raras as ocasiões em que Madlib abre assim o livro, mas, de entre as várias passagens, esta merece destaque:

EGON: What happened after Quasimoto? What did you decide to do next?

MADLIB: I bought some instruments ’cause I listen to all them records with Fender Rhodes and vibraphones and upright bass and stuff, so I wanted to see if I can get all that stuff and try to learn it and do my own thing, you know? Try to do what they did but in my own way.

EGON: So, first you had, what, a Fender Rhodes?

MADLIB: Yeah, I bought a Fender Rhodes and two weeks later I had my first album.

EGON: How did you make it? What did you do? What was the process involved in making this jazz music?

MADLIB: Studying the records that I like and just sit there and do it. Make yourself do it.

EGON: What year jazz music? Are you talking about ’50s jazz, ’40s jazz, hard bop?

MADLIB: Like ’60s and ’70s, but with a future twist to it.

EGON: So what records were you trying to play over when you were trying to do your first covers?

MADLIB: Like Lonnie Liston Smith, Elvin Jones, all that Black Jazz stuff, Strata East, whatever.

O desmedido interesse de Madlib pelo jazz teve uma aguda manifestação em 2007 com a edição de uma “compilação” que reunia material de diversas “bandas”: Yesterdays Universe, registo que tinha por subtítulo uma ideia interessante: “Prepare for a new yesterday (volume 1)”. De facto, aí investia-se na construção de toda uma “cosmologia” apontando para uma cena de antanho em que poderiam ter existido colectivos com nomes tão delirantes como The Otis Jackson, Jr. Trio, The Jahari Massamba Unit (sim, foi aí que pela primeira vez se manifestou a parceria de Madlib com Karriem Riggins a que voltaremos antes do final deste artigo), Young Jazz Rebels (de que sairia álbum em 2010, de título Slave Riot, trabalho de libertário experimentalismo que se pode inscrever na inexistente categoria de “synthethic free jazz”), The Last Electro-Acoustic Space Jazz & Percussion Ensemble (“entidade” responsável por um CD promocional com uma “Summer Suite” de 40 minutos de duração que saiu num CD promocional que era oferecido nalgumas lojas selecionadas na compra de Yesterdays Universe), Kamala Walker & The Soul Tribe, The Jazzistics, Suntouch, Sound Directions (o único “grupo” desta compilação que, um par de anos antes, tinha lançado um álbum, The Funky Side of Life, na Stones Throw, claro, que cruzava jazz e breaks funk com total eficácia rítmica e dançante e que é mais uma obscura delícia na expansiva discografia de Madlib, carregada de versões de clássicos de Marcos Valle, David Axelrod, Billy Brooks, Cliff Nobles, Deodato e Oliver Sain), The Eddie Prince Fusion Band ou a Yesterdays Universe All Stars. Havia, nesta antologia, mais um nome, Jackson Conti, um duo, que destoava dos restantes por ser, embora aí ainda não se revelasse (tal como, de resto, acontecia com a Jahari Massamba Unit), o resultado de uma parceria real.

A paixão de Madlib pelo Brasil foi, ao longo dos anos, manifestando-se de várias formas, mas, em 2008, teve uma das suas melhores traduções no seu encontro com o baterista Ivan “Mamão” Conti, membro fundador dos Azymuth, com quem criou o projecto Jackson Conti, provavelmente a mais discreta das suas aventuras colaborativas, que assinou o álbum Sujinholançado em 2008 na Kindred Spirits.

Este é um álbum de partilha e de diálogo, um álbum que começa por declarar, nas suas notas de capa, que “Madlib loves Brazilian music” e que depois se demora a dar justificações para tal afirmação: sobre as cadências de Ivan “Mamão” Conti, um homem que estará para o jazz-samba como Tony Allen esteve para o afrobeat, o produtor americano desenha a sua ode a uma cultura que sempre soube ser exploratória sem nunca deixar de ser em igual medida celebratória. E este é mais um claro disco de jazz na vasta discografia de Madlib, com arremedos fusionistas arrancados a sintetizadores, saxofones, pianos, guitarras e baixos. Uma absoluta delícia.



[MEDICINE SHOW]

Quando a BBE arrancou, em 2001, com a série Beat Generation (com o álbum Welcome 2 Detroit de J Dilla de que agora saiu edição comemorativa do 20º aniversário), logo se percebeu que a missão de dar generoso palco aos produtores não estaria completa sem um convite endereçado a Madlib. Mas foi preciso esperar por 2008 – já depois da edição de vários volumes carimbados por Pete Rock, Will I Am, Marley Marl, DJ Jazzy Jeff, DJ Spinna, King Britt e Larry Gold – para que o Beat Konducta apresentasse WLIB AM: King of the Wigflip que, de forma algo simbólica, acabou por ditar o final da série. Madlib deve ter tido acesso a um generoso budget para o disco porque recrutou para ter ao seu lado um cast de absoluto luxo: Guilty Simpson, Georgia Anne Muldrow, Defari, MED, J-Rocc, Prince Po, Karriem Riggins, Roc C, o seu irmão Oh No, Frank N Dank, Stacy Epps e Murs disseram todos “presente”. E Madlib aproveitou a ocasião para arranjar a montra da sua loja, expondo toda a sua versatilidade que lhe valeria muitas encomendas nos anos seguintes: há bangers boom bap, passagens mais abstractas, delírios dissonantes, gemas funk, jazz de clube fumarento. E para construir esse generoso alinhamento, entre os muitos samples a que Madlib há-de ter recorrido, encontrava-se material extraído de rodelas de gente como The Grodeck Whipperjenny (incrível projecto do arranjador Dave Matthews, director musical de James Brown durante algum tempo que depois manteve uma forte ligação à CTI de Creed Taylor), Jean Carne, Roy Ayers ou Dexter Wansel.

Em finais de 2009 foi anunciada uma ambiciosa empreitada por parte de Madlib: a edição, ao longo do calendário de 2010, de uma série, titulada como Madlib Medicine Show, de 12 títulos, um por mês, com que Madlib pretendia expor toda a amplitude do seu fôlego criativo, lançando mixtapes, projectos inéditos de hip hop, incursões em terrenos que se estenderiam do psicadelismo ao Brasil, da soul ao funk. E, pois claro, com muito jazz à mistura. A série, posteriormente reunida no massivo (e bastante valorizado) The Brick (caixa que reunia, em CD ou LP, todo o material da série), teve várias edições em vinil, alguns com tiragens limitadas com capas serigrafadas que são hoje peças de colecção, como é o caso de Flight To Brazilou 420 Chalice All Stars). E, ao contrário do que se previa, a missão de concentrar tantas edições (acabaram por ser 13 volumes) num só ano não foi cumprida, com os lançamentos a prolongarem-se por 2011.

As entradas números sete e oito dessa série são dedicadas ao jazz. High Jazz, a primeira dessas entradas, é, uma vez mais, uma “compilação” com material de alguns nomes já conhecidos do universo “madlibiano” como a Jackson Conti Band, Jahari Massamba Unit, Yesterdays New Universe ou Joe McDuphrey Experience, mas nessa reimaginação do passado continuavam a despontar fantasias baptizadas como The Kenny Cook Octet, The Big Black Foot Band, Russell Jenkins Jazz Experience ou R.M.C.. Há ainda faixas creditadas ao próprio Madlib e um tema de um trio que, havendo justiça no mundo, há-de ter gravado uma longa sessão que um dia será revelada: James Poyser com Karriem Riggins e Otis Jackson, Jr.. Trata-se de mais uma aventureira viagem de estudo pelos momentos em que o jazz assumiu grooves e explorou fusões com outras linguagens, se libertou do peso físico e apontou às estrelas ou em que tentou encontrar o sublime no meio do caos. Poderoso.

Advanced Jazz, o número oito da série, é uma mixtape em que Madlib expõe de forma crua a sua paixão, alinhando material de Edison Machado, Jimmy Heath, Horace Parlan, The Horace Tapscott Quintet, Marion Brown, Art Blakey & The Jazz Messengers, New York Art Quintet, Yusef Lateef, George Duke, Billy Higgins, Miles Davis, Phil Ranelin, Bobby Hutcherson ou, entre tantos outros nomes, Elvin Jones e Charles Tolliver. Ou seja, um claríssimo mapa para o seu universo de referências mais directas.

A última década de Madlib tem sido agitada, de recolha de um reconhecimento alargado que o posicionou no panteão dos mais aclamados produtores da sua área. Produziu dois álbuns para Freddie Gibbs, Piñata e Bandana; aliou-se ao seu irmão Oh No no projecto The Professionals, entregou beats avulsos a um sem fim de artistas, de Kanye West a Georgia Anne Muldrow, de Joey Badass a Bishop Lamont, Roc Marciano, Snoop Dogg ou Anderson Paak e Pink Siifu & Fly Anakin. E, se investigarmos a fundo, em todo esse material será possível encontrar mais provas desse amor supremo que Madlib nutre pelo jazz: cada um dos seus samples é, declaradamente, uma carta de amor ao género e ao artista alvo dessa atenção.

No seu último álbum, Sound Ancestors, o jazz continua presente. Se não de forma óbvia pelo sampling (os samples declarados apontam para outros caminhos), pelo menos na arquitectura geral, no tom, no requinte de alguns dos seus momentos. Até porque Kieran Hebden, aka Four Tet, o seu “cúmplice” nesta aventura, como se explica com mais cuidado na crítica que dedicámos ao álbum, responsável pelos arranjos finais, é outro devoto apaixonado do género, outro colecionador sério que tem, igualmente, profundos conhecimentos da área e pergaminhos directos no seu percurso (gravou amplamente com o baterista americano Steve Reid, por exemplo).

Antes de Sound Ancestors, na recta final de 2020, Madlib ainda lançou o resultado da sua estreita colaboração com o baterista de jazz Karriem Riggins, o “peso pesado que trabalhou abundantemente com lendas como Betty Carter, Roy Hargrove e Ray Brown, que integra o trio August Greene com Common e Robert Glasper e que fez parte da pioneira Detroit Experiment, “banda” que reunia nativos da Motor Town como Carl Craig, Bennie Maupin, Marcus Belgrave, Geri Allen ou Francisco Mora Catlett”. Pardon My French, que apontámos como um dos melhores lançamentos de 2020, é um poderoso exercício de imaginação livre, um álbum em que, quase 30 anos após o arranque da sua carreira, Madlib continua a exercitar o seu músculo jazzístico, entregando-nos, juntamente com Riggins, “um delirante, excitante e criativo contributo para essa tal vibração presente do jazz, um espantoso trabalho de dois artistas que recusam limites para a sua expressividade e que aqui deixam uma importante vénia a uma cultura que conhecem e respeitam como poucos. Afinal de contas, o álbum até fecha com uma sentida “Hommage À La Vielle Garde”. Ou seja, não é a subversão, antes o encaixe que aqui se busca. E a Jahari Massamba Unit aí está, nesse vastíssimo terreno que se estende entre Sun Ra e J Dilla, entre a Strata East e a Stones Throw, entre a História e o sonho. Haverá lá melhor lugar?….”. Não há, decerto.

Madlib, é lícito dizê-lo, é o John Coltrane desta geração, sem a menor sombra de dúvida: um homem que experimentou a tradição, que trabalhou na sombra de outros mestres, mas que soube igualmente afirmar a força plena da sua particular visão, elevando-se até ele mesmo merecer esse epíteto.


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