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Fotografia: Carlos Quitério
Publicado a: 02/01/2021

1971-2020: uma vida dedicada ao hip hop.

MF DOOM: o homem e a máscara

Fotografia: Carlos Quitério
Publicado a: 02/01/2021

A arte de MF DOOM representa o espírito mais puro e profundo do hip hop. A opção pelas maiúsculas com que gostava de estilizar o seu nome — “all caps”, exigia ele… — remetiam-nos para os primórdios do graffiti com que contactou logo em criança ao chegar com os pais a Long Island, Nova Iorque, vindo de Londres. Foi aí, desenraizado, que descobriu na nascente cultura hip hop o seu campo de expressão, o seu “lugar”.

Anda na adolescência, quando contava apenas 17 anos, em 1988, Daniel Dumile Thompson criou, sob a identidade Zev Love X, os KMD (Kausing Much Damage ou, explicaria ele também a dada altura, A positive Kause in a Much Damaged society…) com o seu irmão Dingilizwe, aka DJ Subroc. Inicialmente focados nas vertentes não musicais da cultura hip hop, expressando-se através do graffiti e do breakdance, o duo rapidamente começou a fazer beats e a rimar entrando quase imediatamente no afinado radar de MC Serch, membro dos míticos 3rd Bass, que no álbum de estreia dessa banda em que dividia responsabilidades com Pete Nice e DJ Richie Rich, The Cactus Album (1989), ofereceu a Zev Love X um espaço no clássico “The Gas Face”. Os KMD voltariam a marcar presença no segundo álbum do grupo, o igualmente memorável Derelicts of Dialect, de 1991, sendo desta vez devidamente creditados pelo trabalho de escrita e produção em “Ace in The Hole”.

Esta exposição e a efusiva recomendação de Serch convenceram o lendário A&R Dante Ross, executivo formado nas nascentes Def Jam e Tommy Boy, a recrutar os KMD para a Elektra. Ross foi o primeiro A&R contratado por uma major para supervisionar especificamente a construção de um catálogo de hip hop e nessa qualidade levou para aquela etiqueta comandada pela Warner artistas que ajudaram a definir a aura da Golden Age: Brand Nubian, Grand Puba, Pete Rock and CL Smooth, Leaders of the New School, Ol’ Dirty Bastard e, pois claro, os KMD, que para a sua estreia formal passaram a ser um trio com a entrada de Onyx The Birthstone Kid (Alonzo Hodge). E tendo em conta o grau de qualidade constante em todas as contratações de Dante Ross, não é difícil perceber o quanto ele valorizava o grupo que em 1991 se estreou com o álbum Mr. Hood, trabalho em que, aliás, os Stimulated Dummies (trio de produtores de que o próprio Ross era parte) assinavam um par de beats.

Como explicaria em 2005 num artigo de capa na revista Wire, o álbum teve uma gestação bastante simples: “Fizemos o disco todo à noite e o álbum era exactamente o que era: eu em casa da minha mãe a fazer beats, a cortar cabelos para ganhar alguns trocos, a trocar discos e essas coisas. Tempos felizes, sabes? Era a adolescência…” Ainda não o beatmaker com a personalidade vincada que mais tarde revelaria, nesta época Daniel Dumile limitava-se a alinhavar ideias básicas deixando ao seu irmão a responsabilidade de terminar e refinar os beats. Quando o álbum saiu, a Elektra no press release de apresentação, usando certamente a afinada pontaria de Dante Ross, descreveu-os como “Malcolm X a encontrar uma caixa de ritmos na Rua Sésamo”: resistência, imaginação, inocência e espírito lúdico num único grupo que se apoderou inclusivamente da polémica e decididamente racista imagem do Pequeno Sambo para o seu logótipo, demonstrando logo aí o seu combativo espírito militante.

No entanto, e apesar das estrelas parecerem na altura todas alinhadas, com o álbum Mr. Hood a registar um sucesso modesto, a tragédia abater-se-ia pela primeira vez na vida de Daniel Dumile: o seu irmão tentou atravessar a pé a Long Island Expressway e foi atingido por um automóvel, tendo logo aí falecido. Hua Hsu, no já mencionado artigo da Wire, coloca tudo em contexto: “Dumile ultrapassou uma barreira e as armadilhas estavam montadas: ‘Neste país, sendo pessoas originais, há muitas coisas a acontecerem numa determinada altura, quando se chega a uma certa idade, à idade adulta. Merdas estranhas.’ Os amigos de Dumile começaram a desaparecer – ‘assassinados, presos, cenas assim’. E um dia ele olhou em volta e tudo tinha mudado. Ele já não era um adolescente precoce com um contrato discográfico e bolsos relativamente bem recheados. Ele era um homem jovem. ‘Comecei a reparar que a minha gente estava a desaparecer – boa gente, não gente má. E agora eu sou o único sobrevivente da minha crew daquele tempo’.”



A Hsu, Dumile confessou ainda que buscou forças no exemplo dado por KRS One quando teve que enfrentar a morte de Scott La Rock, perda que colocou um ponto final nos Boogie Down Productions. Em vésperas da edição do segundo álbum dos KMD, a braços com a muito americana tragédia de ver os corpos negros que o rodeavam desaparecerem atrás de grades ou dentro de caixões, Zev Love X viu-se abandonado pela Elektra que se recusou a lançar Black Bastards, trabalho que seria ao longo dos anos alvo de diversas reedições (incluindo uma bem especial coordenada por Egon na Metal Face do próprio DOOM, em 2015), revelando-se como uma potente afirmação de negritude em visionária sintonia com as ideias que se haveriam de cristalizar mais tarde no movimento #BlackLivesMatter. Na base da atitude da editora dos KMD esteve um artigo escrito pelo colunista Tern Rossi da Billboard, atacando o selo por se atrever a permitir que um dos seus grupos usasse uma tão polémica imagem na capa de um disco numa era tão sensível – “Cop Killer” dos Body Count de Ice-T tinha abalado consciências, inspirado boicotes e acesos debates um par de anos antes. Pressionado para alterar a capa que ele mesmo tinha desenhado, Dumile não abdicou da sua liberdade de expressão e acabou por ver terminado o seu contrato. “Consegues imaginar algo assim?”, questionou DOOM no artigo da Wire. “Num espaço de seis meses foi como se tudo estivesse a transformar-se drástica e rapidamente, em todos os aspectos. Foi uma merda muito difícil. Na altura até pode nem ter parecido tão dramático, mas quando agora olho para trás vejo que foram mesmo tempos difíceis”.

Foi então que Zev Love X morreu e Daniel Dumile desapareceu.

Os detalhes desta fase da vida de DOOM, que decorreu entre a sua saída da Elektra em 1994 e o lançamento de Operation: Doomsday em 1999, são muito difusos. O artista da máscara raramente concedeu entrevistas e nas poucas em que foi um pouco mais fundo, como na peça da revista britânica que temos vindo a citar, revelou vagas informações, explicando, ainda assim, que viveu quase uma vida de sem abrigo nas ruas de Nova Iorque, procurando, apesar das dificuldades financeiras, trabalhar no material que haveria de render aquele que é, justamente, um dos mais celebrados documentos do complexo panteão de obras que definem o hip hop underground.

Dumile precisou de se reinventar, não apenas para se abstrair das tais armadilhas que atraem homens negros na América contemporânea, mas também para fugir às próprias normas de identidade erguidas pela cultura em que se movia. Nascia então MF DOOM, uma fantasiosa criação que cruzava o universo dos comics (Dr. Doom é um vilão que habita nas páginas da Marvel) com uma alcunha de infância derivada do seu apelido de família. MF significava, pois claro, Metal Face, uma simbólica armadura capaz de o proteger do mundo. Uma face dura para escudar este homem de uma realidade igualmente dura.

Operation: Doomsday saiu na Fondle ‘Em de Bobbito Garcia e impôs-se imediatamente como um molde para a geração do início do novo milénio que procurava desenhar nos subterrâneos da cultura uma alternativa ao hip hop altamente cromado que desfilava vídeos assinados por Hype Williams pelo topo das tabelas de vendas. Com samples resgatados ao tipo de discos que certamente se acumulariam nos dollar bins das lojas frequentadas pelos produtores, a estreia formal de MF DOOM parecia não tanto recusar o tempo em que nasceu quanto inventar um novo tempo, impondo aí um estilo de produção completamente desligado do zeitgeist: “Essa é a natureza do estilo de produção de DOOM”, explicou o vilão mascarado. “o óbvio/não óbvio, o que está no meio. Ser capaz de usar o que se tem para se fazer algo totalmente novo. Eu tinha poucos discos nessa altura. E pensei, ‘bem há algo de permeio que eu preciso de alcançar. Há infinitas camadas e dimensões é apenas uma questão de percebermos a quais podemos aceder’.”

DOOM também revelou a chave para se entender a sua particular forma de escrita: “Eu sou um escritor. Acontece apenas que o que escrevo é em forma ritmada e por cima de música. Por isso, para eu conseguir transmitir diferentes pontos de vista, tal como um escritor faria num romance, eu crio diferentes personagens”. Não podia ser mais claro. Há, de facto, uma dimensão literária na sua lírica, que tanto pode resultar vívida quanto obtusamente abstracta, quase sempre poética, invariavelmente original.



E DOOM criou, de facto, uma autêntica galeria de estranhos personagens. King Geedorah (nome que nos remete para o universo série B de Godzilla) assinou Take Me to Your Leader, álbum lançado em 2003 pela Big Dada, selo associado da britânica Ninja Tune. Depois da reinvenção (reencarnação?…) de Zev Love X em MF DOOM, o visionário produtor/MC da máscara de ferro alterou o eixo de rotação do planeta impondo desde Operation: Doomsday a surpresa como estratégia criativa, alimentando-se da mesma delirante imaginação que sempre inspirou outros outsiders, como Kool Keith, por exemplo. Neste álbum assinado por King Geedorah todos os beats são da sua criação, mas apenas dois temas contam com a sua inventiva capacidade de rimar. Ainda assim é um álbum brilhante: a visão do nosso planeta através do olho mutante de um alien sentimental que gosta de soul, filmes de série B e dramáticas texturas orquestrais. Para impor essa visão, DOOM oferece-nos loops da quinta dimensão, não teme processos e sampla “Message From a Black Man” e, sobretudo, conduz o seu exército de MCs com a frenética capacidade de um maestro em delírio absoluto.

Uma palavra sobre a ética sampladélica que DOOM elevou à condição de programa estético: só neste álbum, o produtor mascarado usou matéria dos Whatnauts e Phil Collins, Bob Sakuma, Daryl Hall & John Oates, Robert Cobert Orchestra, Roy Budd, Coke Escovedo, Jaques Morelenbaum, The 5th Dimension, Foxy e Kleer parecendo assim que todos os samples resultaram de um incrível budget de aquisição de vinil de para aí 20 dólares numa loja de discos de segunda mão (“2 dólares cada disco ou 20 discos por 20 dólares” –  sempre houve lojas assim). E isto, claro, para não mencionar o intrincado mosaico de excertos de filmes e clássicos de TV de série Z, de Invasion of the Astro Monster a Godzilla vs Gigan, de Fist of the North Star a The Stone Killer e Dawn of the Dead ou The Twilight Zone. Ou seja, um homem separado do mundo por uma teia de fantasia, memórias televisivas distantes e o tipo de “detritos” sem valor que a indústria musical foi depositando nas caixas que se amontoam no chão das lojas de discos usados. Alguém inteiramente diferente do “típico” criador hip hop que todos nos habituámos a aplaudir ao longo do último par de décadas.

Essa tal prática sampladélica, que DOOM aperfeiçoou sob a identidade Metal Fingers (outra variante para a sigla MF) rendeu 10 volumes da série Special Herbs, convenientemente agregados numa expansiva caixa lançada em 2011 (e, já agora, para os geeks do contexto, oportunamente merecedora de uma maravilhosa versão em cassetes). Ou seja, uma arca de tesouro recheada com beats de vocação lo-fi, bastante cinemáticos e só aparentemente básicos. A carga de dramatismo que impõe às suas produções tem a ver com as fontes que escolhe, velhos filmes de ficção científica e muita soul. E isso resulta em música poeirenta, carregada de alma, bounce e estilo porque DOOM tem uma identidade muito própria na maneira como programa, mantendo sempre o seu som bem deep e sujo, como se afastasse a sofisticação propositadamente. Mas os seus beats funcionam exactamente por causa disso.

Fez, por isso mesmo, todo o sentido que a dada altura tivesse gravitado para perto de Madlib com quem logrou criar mais um dos manuais mais reverenciados do cânone underground, Madvillainy, editado pela Stones Throw em 2004 e justamente distinguido como um dos primeiros grandes clássicos deste século. Beats de Madlib, snippets de séries clássicas de animação e a carismática voz de DOOM a fazer aquilo que só DOOM parecia fazer tão bem: free flows, rimas esquinadas pela lógica, carregadas de imagens que só devem fazer sentido naquela dimensão paralela onde existe um Super Homem Bizarro. E onde rappers com máscaras metálicas soam absolutamente normais.

DOOM foi um prolífico actor no “filme” que ele mesmo produziu, realizou e distribuiu: em 2003 vestiu a pele de Viktor Vaughn (referência ao nome real do vilão Dr. Doom) e lançou o álbum Vaudeville Villain, trabalho a que se sucedeu, de novo como MF DOOM, Mm… Food, álbum em que rimou sobre beats de companheiros como PNS, Count Bass D ou Madlib. Born Like This, de 2009, manteve a fasquia alta com matéria prima carimbada por J Dilla, Jake One ou Mr. Chop e guest verses de grandes como Raekwon, Ghostface Killah, Bumpy Knuckles, Madlib e J Dilla e até um tal de Charles Bukowski, um “obscuro” “MC” cujo cáustico drawl marca o arranque de “Cellz”.



Born Like This seria o ultimo trabalho de fôlego lançado em nome próprio por MF DOOM que, no entanto, se desmultiplicou em vários projectos colaborativos respondendo a solicitações que atestam bem a sua grandeza e o seu inegável estatuto de “MC favorito do nosso MC favorito”: depois do projecto Madvillain criado com Madlib, DOOM dividiu créditos em álbuns com MF Grimm (Special Herbs & Spices Volume One, de 2004), Danger Mouse (o álbum The Mouse and the Mask, de 2005, assinado como Danger Doom), Jneiro Jarel (Key to The Kuffs, de 2012, como JJ DOOM), Bishop Nehru (o álbum NehruvianDoom, de 2014, do projecto homónimo) ou, finalmente, Czarface (o trio formado por 7L & Esoteric e Inspectah Deck com quem assinou Czarface Meets Metal Face, já em 2018). Dado constante em todos estes diferentes trabalhos: a vincada e inalterável personalidade de um artista que nunca abdicou da sua visão, fosse qual fosse a companhia em que a cada momento se pudesse encontrar.

Sobre este último trabalho, discorreu-se com algum fôlego aqui mesmo no Rimas e Batidas, usando-se esse álbum de duas entidades que tanto devem ao espírito dos comics para uma reflexão sobre a ideia do artifício, tão cara ao próprio MF DOOM:

“A discussão sobre o que é ou não real no hip hop é provavelmente a mais estéril de todas. O hip hop começou por ser artifício: o sistema de som ligado ao candeeiro da rua para inventar a festa onde só existiam ruínas; o crossfader que soma dois breaks para colar uma ‘perfeita repetição’ que se estende até ao infinito; a agulha, o vinil e a mão certeira do DJ que através do scratch consegue transformar o gira-discos num instrumento; o microfone que permite traduzir a realidade em rimas, em metáforas, em punchlines; o tag que existe para criar uma nova identidade para o writer que obriga o comboio a levar-lhe a notoriedade até longe do bairro; os power moves com que o b-boy passa a vida a desafiar as leis da física e da biologia; o sampler que dá ao produtor o poder de alterar o tempo, a história, a estética, a narrativa…

Inventar, colar, transformar, traduzir, criar, desafiar, alterar: no código genético do hip hop está desde sempre impressa a noção de que a realidade só interessa como ponto de partida, como cenário, como tela em branco pronta a receber novas ideias, novas imagens, novos sons e palavras. Uma nova cultura. Querer fechar essa cultura na redoma da autenticidade – como Wynton Marsalis pretendeu ao querer impôr o jazz como música de reportório, como peça de museu que se admira, mas não se renova – é desde logo condená-la à extinção, remetê-la para um catálogo, para um arquivo que se consulta, mas que já não se altera. Um depósito de memórias já desprovido de vida.

Tanto Czarface – o duo 7L & Esoteric com Inspectah Deck dos Wu-Tang Clan – como MF DOOM compreendem a urgência da reinvenção, o poder da fuga, a força da máscara. Alheios ao presente — na verdade, até, alheios ao tempo –, os Czarface têm vindo desde 2013 a criar uma narrativa paralela, transformando o mundo num comic book. Em declarações à HipHopDX logo no arranque de 2013, Inspectah Deck sublinhou com traço grosso essa mesma noção quando defendeu que o projecto Czarface não tinha outros objectivos que não fossem ‘criar algo digno de se ouvir’. Ou seja, com essas simples palavras Deck recusou qualquer programa de oposição — a uma tendência dominante, ao debate mainstream vs underground, à dicotomia consciente/gangsta, à aparente necessidade de escolher entre as dimensões boom bap ou trap — e sugeriu uma bem mais simples possibilidade: ‘só queremos criar algo digno de se ouvir’, porque tem valor intrínseco e não porque se alinha com um qualquer ideário mais vasto. E isto, bem entendido, mesmo tendo em conta que metaforicamente o herói Czarface explodiu em cores nas páginas da imaginação do trio ‘para salvar o hip hop’. O que significa tudo e nada: ‘salvar o hip hop’ pode querer dizer, muito simplesmente, devolvê-lo ao plano da fantasia que é também o da inocência. Regressar à origem. Ao artifício.

DOOM tem feito basicamente o mesmo desde sempre: Operation: Doomsday de 1999 é uma autêntica pedra de roseta que nos permite ler todo o hip hop desalinhado/alternativo/experimental/independente deste milénio e cada novo capítulo da sua impressionante saga colaborativa — lançou projectos com MF Grimm, Madlib, Danger Mouse, Ghostface Killah, Jneiro Jarel, Bishop Nehru, Westside Gunn, cedeu rimas soltas a gente como os Molemen, Quasimoto (outro anti-herói com máscara, esta feita de hélio…), Prince Paul, Gorillaz, Oh No, Captain Murphy (aka Flying Lotus), Vast Aire ou os Avalanches, por exemplo — só deixa mais claro que Daniel Dumile é uma presença monolítica, que não se move um milímetro sequer ao encontro seja de quem for, que ergueu uma dimensão paralela em que habita solitariamente, alheio a qualquer movimentação no mundo real. É a máscara que o protege, que o transforma e que o transporta para essa dimensão. A máscara, aliás, é o artista: há uns anos a internet agitou-se, sem que isso tenha beliscado a credibilidade de DOOM, quando se percebeu que nalguns ‘concertos’ o MC/produtor se fazia representar por um familiar — a força do ‘adereço’ de metal subtraído ao universo dos comics era tal que bastava para impor a ‘presença’ do artista, mesmo que de facto ele tivesse preferido ficar em casa a ver reposições de obscuras séries B de ficção científica dos anos 50. O que é real, afinal de contas? Só o artifício.”

Adicione-se a esta vasta obra uma extensa lista de pontuais colaborações que levaram DOOM a acercar-se de gente tão distinta quanto Prefuse 73, Aesop Rock, The Herbaliser, Non Phixion, Prince Paul, De La Soul, Prince Po (outra pessoa, claro), Zero 7, Vast Aire, Gorillaz, Talib Kweli, Daedelus, Wu Tang Clan, Quasimoto, Dabrye, Shape of Broad Minds, DJ Babu, Thom Yorke e Jonny Greenwood, Oh No, Flying Lotus, Cannibal Ox, The Avalanches, Your Old Droog, Rejjie Snow, BadBadNotGood ou Westside Gunn, entre tantos outros dos mais avançados nomes desta cultura. Não serão muitos os artistas deste calibre que conseguirão elaborar lista tão impressionante. Mas DOOM foi capaz de compilar tal palmarés de forma natural, orgânica, como se cada um daqueles artistas visse nesse tipo de colaboração uma espécie de prémio para o seu próprio percurso, uma validação, uma medalha a que todos fizeram questão de limpar o pó quando o mundo descobriu que já não poderá voltar a contar com o anti-herói da máscara que insuflou fantasia, abstracção e real arte no plano das rimas e das batidas.

Ao comunicar a morte de DOOM apenas dois meses após a sua ocorrência, a família respeitou certamente a sua personalidade reservada. Desconhece-se o motivo de falecimento, mais um facto que sublinha a privacidade de um homem cuja vida foi emoldurada pela tragédia: não só perdeu o irmão no arranque da carreira como teve ainda que lidar com a morte do filho de 14 anos em Dezembro de 2017. Talvez, afinal de contas, a máscara servisse para esconder a dor.

Nos próximos anos, certamente, novos versos, novos beats de MF DOOM hão-de surgir. Fala-se há muito tempo num projecto longo com Ghostface Killah, por exemplo, numa sequela para Madvillainy, e em vários outros encontros de que poderão ter resultado trabalhos que talvez possam ainda vir a materializar-se. Mas mesmo que esses colectivos desejos não se tornem realidade, a verdade é que o legado de DOOM já tem fôlego suficiente para enfrentar a eternidade.

A máscara, enfim, nunca escondeu o homem, mas revelou certamente o reclusivo e reservado anti-herói das rimas e das batidas. Daniel Dumile Thompson pode ter morrido no passado dia 31 de Outubro, como revelou, através das redes sociais, a sua mulher, mas aquela máscara vai certamente continuar a viver por muitos e bons anos.


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