NOS Primavera Sound 2.0? Sejam bem-vindos ao novo normal

[TEXTO] Alexandre Ribeiro [FOTO] Pedro Mkk

Uma semana depois da revelação do cartaz do NOS Primavera Sound, a poeira assentou: as más reacções, que provavelmente foram tantas como as boas, já se evaporaram na estratosfera, deixando-nos com um alinhamento, sem exagero, absolutamente delicioso.

Por aqui, a valorização da diversidade é importante, e uma das grandes “heranças” que o hip hop nos deixou: toda a música é válida e em cada pedaço de som existe uma pérola que pode inspirar outra tão boa ou melhor. Às vezes escava-se menos, outras vezes tem que se mergulhar profundamente, mas a viagem é sempre recompensadora quando existe abertura para a surpresa no disco menos óbvio.

Nos últimos anos, o Parque da Cidade recebeu alguns dos mais entusiasmantes artistas da actualidade e em 2019 não será diferente. E começamos logo pelos cabeças-de-cartaz: Erykah Badu, a rainha do neo-soul, e Solange, uma das suas herdeiras, representam o melhor do rap, soul e r&b — no caso da primeira, a sua obra inteira fala por si, enquanto a segunda atingiu o seu ponto mais alto com A Seat at the Table, o seu mais recente longa-duração. O mais polémico, J Balvin, transita directamente do MEO Sudoeste, sinal dos tempos em que vivemos. E a pop latina, cada vez mais dominante nos principais mercados, assume-se como uma força a ter em conta. A ideia do “novo normal” não é descabida: os três vídeos mais visualizados do ano passado pertenceram a Ozuna, Bad Bunny e Balvin. A globalização também se faz em espanhol…

 



A super-estrela colombiana já colaborou com Pharrell Williams e Rosalía — o furacão espanhol que também vai passar pelo Porto — e mereceu uma remistura de Beyoncé ao seu maior hit, “Mi Gente”. E a rainha, reconhecendo a transversalidade da canção, convidou-o para subir ao palco na sua memorável actuação no Coachella 2018. Não é para todos, diga-se. E não será certamente o mais revolucionário dos músicos, mas o objectivo é unir em vez de separar: “Si el ritmo te lleva a mover la cabeza/ Ya empezamos como es/ Mi música no discrimina a nadie/ Así que vamos a romper”. Não é Nick Cave à chuva, mas também é capaz de molhar…

Saindo dos três nomes que encabeçam o cartaz mais esperado da temporada, a qualidade não se perde: James Blake traz Assume Form, o seu novo álbum; Danny Brown, se tudo correr bem, também trará o seu próximo disco — mas não ficaríamos mal servidos com Atrocity Exhibition; Mura Masa é um dos compositores mais talentosos da nova geração inglesa; a femme fatale Kali Uchis isolou-se” para criar uma obra onde vai a todo o lado com uma aura magnetizante; Sons of Kemet XL e Nubya Garcia vêm mostrar a frescura do jazz britânico; JPEGMAFIA, o filho mais atinado dos Death Grips, lançou um dos 10 melhores álbuns internacionais de 2018 para a equipa do Rimas e Batidas; o estónio Tommy Cash criou um universo musical e visual muito particular em que define novos limites para o que é (ou não é) rap.

Não esquecendo Stereolab, Jorge Ben Jor — lenda da música brasileira, autor de discos incontornáveis, muitos deles “reciclados” por Racionais MC’s, IAM, Sango, Black Eyed Peas e DKVPZ –,  Neneh Cherry, Modeselektor, Yves Tumor, SOPHIE, Kate Tempest, Mykki Blanco, Low, Helena Hauff, Yaeji, Peggy Gou, JASSS e a comitiva nacional: a actuação de Allen Halloween no Parque da Cidade será, certamente, um dos momentos mais simbólicos do festival; ProfJam, um visionário com grandes ambições, terá o verdadeiro teste-de-fogo, e já com o seu álbum de estreia cá fora; Dino D’Santiago apresentará o seu Mundo Nôbuque já chegou à Rolling Stone. E ainda temos Surma, Violet e Photonz, nomes portugueses que já têm uma pesada bagagem internacional.

 



De Barcelona para o Porto “perdemos” Future — que não deixou saudades depois de uma passagem desastrosa pelo Super Bock Super Rock –, FKA twigs, NAS, Cardi B, Janelle Monáe, Pusha T, Loyle Carner, Dâm-Funk, Georgia Anne Muldrow, Rico Nasty, 070 Shake, Jon Hassell e Iglooghost, mas o balanço final não deixa de ser positivo.

Numa altura em que o abraçar da diferença é uma bandeira, devem existir poucos festivais que realmente escolhem artistas sem olhar a géneros. Em três dias, vai ser possível ouvir reggaeton, jazz, electrónica experimental, funaná, hip hop, pop, rock e música popular brasileira, um autêntico desafio a todos aqueles que se auto-intitulam eclécticos. Se tivermos sorte, os nomes mais desejados não vão “chocar” nos horários e teremos direito a uma viagem sonora que reconfortaria o mais exigente dos melómanos.

Em 2018, o Rimas e Batidas assistiu a concertos de J Balvin no MEO Sudoeste e de JASSS nos Jardins Efémeros, e agora encontramo-los no mesmo cartaz, uma junção teoricamente improvável que, como algumas teorias, só precisava de ser contestada. Por aqui, o “novo normal” é o pão nosso de cada dia — e isto não é dito com qualquer tipo de bazófia. Para alguém que está sempre à procura de um rasgo de genialidade, frescura e emotividade, não importa se encontra isso no nome mais popular da praça ou no músico completamente desconhecido que acabou de tocar para 10 pessoas na sala mais refundida da cidade. Verdadeiramente meritório é nunca fechar a porta a nada, mesmo que quem entre não fique para sempre. E é isso que o NOS Primavera Sound tem feito a cada edição.