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Solange quer sentar-se à mesa com os grandes

[TEXTO] Alexandre Ribeiro [FOTO] Direitos Reservados

 

A família Knowles é reconhecida internacionalmente pela filha mais velha do casal Mathew e Tina Knowles, a rainha da pop Beyonce, mas lá em casa existe outro diamante em bruto que exige A Seat at the Table. O novo trabalho de Solange Knowles traz um elenco de luxo: Lil Wayne, Q-Tip, Sampha ou Andre 3000 são sinal de paragem obrigatória. É uma obra que apela à urgência de se olhar para a cultura negra. Uma consciencialização necessária do desastre iminente que seria ter Donald Trump na presidência dos Estados Unidos da América ou da contínua violência policial.

Ainda não conhece o percurso de Solange? Seja feita a sua vontade. Solange Knowles nasceu no dia 24 de Julho de 1986,em Houston, Texas e cedo cruzou caminho com as artes, mais concretamente dança e teatro. Foi parte das Destiny’s Child como dançarina  e chegou a substituir Kelly Rowland durante uma tour em que a banda abria para Christina Aguilera. Sempre na sombra da irmã, a artista foi criando o seu caminho sob a alçada do seu pai, que também era o seu manager.

 


a seat at the table


Solo Star, o álbum de estreia, foi sintomático dos seus 16 anos: pouca liberdade criativa, execução produtiva do pai – que se guiava pelo sucesso (em grupo) de Beyoncé – e a produção de autênticos monstros da música como Timbaland ou The Neptunes. Uma sonoridade sintética a mostrar pouco da sua real valia. O tempo de espera até ao sophomore album levou-a pelos caminhos da televisão e cinema, tendo entrado em filmes como Johnson Family Vacation e Bring It On: All or Nothing.

A artisdta casou-se em 2004 e teve o seu primeiro e único filho com Daniel Smith, tendo-se divorciado ainda antes do lançamento do seu segundo trabalho de originais, Sol-Angel and the Hadley St. Dreams. O amadurecimento no som de Solange Knowles revelou-se notável: o som sintetizado com foco nos hits pop de Solo Star deu lugar a uma cantora com vontade de escrever grandes canções r&B e soul, honrando obras maiores como What’s Going On, de Marvin Gaye. Mas não se enganem: os convidados não foram menos extraordinários, contando com Lil Wayne e Bilal para dar voz e CeeLo Green ou Mark Ronson para a produção. A menina dava lugar à senhora e o início da construção de uma carreira à procura de honrar a música negra, a cultura negra e a família, claro, estava a revelar-se em toda a sua intensidade.

 



De 2009 a 2012, Solange procurou a independência das majors. True foi o trabalho seguinte no seu acervo discográfico e foi lançado pela Terrible Records, casa de artistas como Blood Orange, Le1f, Twin Shadow ou Kindness, um conjunto interessante de criadores/artistas/cantores que ergueram obra a olhar para um lado mais alternativo da música pop, hip hop e r&b. As referências à pop dos anos 80 e 90 – algo procurado por Dev Hynes na sua obra a solo -, muito devido à instrumentação à base de sintetizadores com o sabor nostálgico dos anos 80, deixaram pegadas ao longo das sete faixas em que se tornava evidente a busca por uma colocação entre um passado longínquo e um futuro a ser desvendado por guias como Frank Ocean, The Weeknd, Sampha ou Kelela, por exemplo.

Os últimos dois nomes mencionados são dois dos convidados deste novo trabalho. A Seat At The Table concentra em si vários pontos-de-vista interessantes: a irmã mais nova de uma super-estrela que tem que viver eternamente com as comparações, a mulher negra num país que teima em ostracizar os seus e os demónios próprios de alguém que, desde cedo, tenta viajar por caminhos seus. E quem melhor do que a própria para nos explicar isso: “Acima de tudo, eu defini que ia fazer um álbum sobre auto-descoberta e empowerment e independência. A ideia de teres que compreender totalmente de onde és – quando eu digo isto, eu quero dizer nas mais variadas formas, não apenas a tua história, mas algumas das heranças e traumas da família que foram passadas para ti, a tua existência na totalidade. Eu defini que iria criar uma obra que reflectisse isso. Eu tinha uma grande ânsia por fazê-lo. E, obviamente, uma grande parte disso é a minha identidade enquanto mulher negra”, explicou Solange Knowles em entrevista à Stereogum.

 



O título da review  da Rolling Stone encaixa na perfeição no álbum: “A Seat at the Table Walks Softly, Speaks Radically”. A revolução silenciosa de uma artista que não precisa de “gritar” para se fazer ouvir e que tem “Africa” de D’Angelo, o MTV Unplugged 2.0 de Lauryn Hill ou o piano e as trompas de Warren Campbell em “We Major” de Kanye West como referências que ajudam a entender a sumptuosidade e elegância da instrumentação escolhida para este trabalho que demorou quatros a ser concluído.

Também foi nos artistas negros que Solange viu potenciais “adjuntos” para dar vida ao terceiro álbum: Lil Wayne e Q-Tip – únicos repetentes do trabalho anterior -, Sampha, Andre 3000, Kelela, Kelly Rowland ou BJ The Chicago Kid trouxeram o melhor da América Negra para as canções e ninguém ficou aquém do que lhes foi certamente pedido, muito pelo contrário, todos parecem superar-se aqui, ir um pouco mais longe, sinal da forte inspiração e motivação oferecidas pela artista que inscreve o seu nome na capa.

As comparações com Beyoncé são dissipadas quando comparamos as obras das irmãs, ambas lançadas este ano. A actual rainha da pop deambula entre estilos em Lemonade, mas sempre a pensar no som que vinga no presente, enquanto a irmã mais nova se concentra em criar canções mais orgânicas com breve passagem pelo passado de Marvin Gaye, Lauryn Hill ou D’Angelo. Em termos de temática, o empowerment feminino é foco principal, mas Beyoncé aborda-o do ponto de vista de mulher magoada pelo homem e Solange, pelo contrário, fala do seu ponto-de-vista, relações interpessoais à parte.

Solange Knowles declarou-se independente e assumiu o seu papel como mulher negra numa América que proclama a liberdade acima de tudo, mas sempre a fechar os seus numa redoma de racismo e violência constante. Ela parou de pedir o lugar à mesa: ela conquistou-o.

 


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