Os 10 melhores álbuns internacionais de 2018

[ILUSTRAÇÃO] Riça

Se ainda não perceberam em 2019, nós voltamos a clarificar: as rimas e batidas que “ouvem” por aqui não se resumem ao rap. Se a selecção nacional teve Conan Osiris, Dino D’Santiago e Pedro Mafama, as escolhas internacionais agruparam o furacão espanhol Rosalía, a sobre-humana Janelle Monáe e o celestial Kamasi Washington.

Quando se tratam de versos e instrumentais, não olhamos a lutas internas entre trap e boom bap, underground e pop ou complexo e simples: o que importa são as ideias, a execução daquilo a que cada artista ou banda se propõe e a forma como as canções reagem ou interagem com o passar do tempo. Room 25, DAYTONA, Swimming, ASTROWORLD, KIDS SEE GHOSTS, CARE FOR ME e Veteran são exemplos disso na colheita de 2018.

 


[NONAME] Room 25 (1º lugar)

Room 25, o tão esperado álbum de estreia de Fatimah Warner, traz uma voz segura aos inibidos e pacifistas, àqueles que se escondem nas luzes ofuscantes da festa, e que são abafados pelas colunas em alto som. Aqui, Noname pega num período metamórfico da sua vida e transforma-o numa quase epopeia de som, rimas e personalidade. Ela é um enigma que se apresenta como um verdadeiro livro aberto, e os detalhes que escolhe partilhar com a sua audiência são tão seus como universais. Ela é tímida por natureza, sim, mas quando fala, fá-lo mais alto do que qualquer outro rapper ou DJ que encontramos quando ligamos a rádio.

– Miguel Alexandre

Noname // Room 25


[PUSHA T] DAYTONA (2º lugar)

O que é, afinal de contas, um MC? Sob muitos aspectos, a resposta a essa recorrente pergunta pode resumir-se numa palavra: DAYTONA. É que Pusha T mostrou aqui, em singelos 21 minutos divididos por sete canções, que agarrar o microfone, gerir a respiração, imaginar curvas e elipses para desenrolar o fio de palavras, polvilhar o discurso de farpas, seleccionar as metáforas, pensar as rimas e, sobretudo, construir com minúcia cada mensagem é uma arte muito bem defendida por quem nada mais faz, como é o seu caso, que não seja jogar xadrez com a língua em cima de tabuleiros de cadências rítmicas. Pode pensar-se que o ex-Clipse só sabe, porém, rimar sobre vender droga e comprar coisas bonitas com os lucros daí resultantes. Mas isso seria como dizer-se que o Turner só sabia pintar barcos sobre mares revoltos.

E depois há Mr. West nas batidas. Kanye nunca poderá ser descartado: por mais Maga hats que enfie naquela cabeça desequilibrada, a verdade é que ele sabe muito bem como criar a moldura perfeita para que os seus MCs favoritos possam pintar os vívidos quadros a que se propõem com cada verso (por muito desastrado que seja a escolher capas…). E é assim em DAYTONA: um concentrado de rap que não há forma de diluir. Há que tomar assim mesmo.

– Rui Miguel Abreu

Pusha T // DAYTONA


[MAC MILLER] Swimming (3º lugar)

Antes de acontecer o pior no dia 7 de Setembro de 2018, Swimming já era o melhor disco de Mac Miller. Da elegância nos arranjos à escrita cada vez mais refinada, o artista de Pittsburgh, Pensilvânia, apresentou uma maturidade, honestidade e segurança dignas de um veterano, reunindo os talentos de J. Cole, Blood Orange, Jon Brion, Thundercat, John Mayer, Steve Lacy, Dâm-Funk, Snoop Dogg, Flying Lotus, Pomo ou DJ Dahi nos créditos do disco.

Malcolm James McCormick encontrou-se musicalmente antes de partir e deixou-nos uma belíssima (e honesta) obra que reflecte sobre o lado menos bonito da vida, mas sempre com um sorriso na cara. Fica a sensação de que o melhor estaria ao virar da esquina…

– Alexandre Ribeiro 

Mac Miller // Swimming


[ROSALÍA] El Mal Querer (4º lugar)

Não é apropriação é reinvenção, não é plástico é nervo, não é espanhol é universal. El Mal Querer é o futuro a resolver-se no presente, é um planeta sem barreiras ou fronteiras, é uma nova língua a reclamar uma global dimensão pop, é uma tradição a dizer-nos que não está fechada e que admite sair da redoma para conversar com o som que sai das colunas portáteis de toda uma nova geração.

Rosalía estudou o flamenco, retirou dele as lições do drama, da teatralidade que se pode imprimir na voz, e ao mesmo tempo manteve os ouvidos abertos à natural modernidade para que a sua data de nascimento remete. Com El Guincho ao seu lado, desconstruiu depois o cante e o toque (e até o baile, como se percebe no vídeo de “Di Mi Nombre”) descarnando-os até à sua essência para depois, através da magia do estúdio, os reimaginar como algo vindo não do passado, mas do futuro.

– Rui Miguel Abreu

Rosalía // El Mal Querer


[TRAVIS SCOTT] ASTROWORLD (5º lugar)

ASTROWORLD foi um momento definitivo para o trap e para um dos seus ícones. Travis Scott orquestrou um estrondo psicadélico alimentado a 808s e auto-tune, e mostrou porque é que é um dos nomes do momento no mundo da música. O rapper conjura um espaço sonoro com o auxílio de uma série de colaboradores que trabalham para um objectivo musical comum. O álbum está repleto de bangers alternados por alguns temas mais confessionais mas todos esses momentos têm uma estética característica que reconhecemos como sendo a do nativo de Houston, e é um projecto que mostrou uma e outra vez que o trap continua a ser uma força dominante na música popular norte-americana.

– Miguel Santos

Travis Scott //ASTROWORLD


[KIDS SEE GHOSTS] KIDS SEE GHOSTS (6º lugar)

Mesmo não sendo consensual nos debates entre a — cada vez maior – massa associativa do hip hop, há muito de formidável para apreciar no primeiro disco feito por Kanye West e Kid Cudi em parceria, que há vários anos vinham a expressar uma paixão mútua que, inevitavelmente, acabaria por gerar um encontro em estúdio. Até aqui, as colaborações foram muitas nos projectos a solo de ambos os artistas. O momento conturbado que atravessaram nas suas vidas pessoais juntou-os para um trabalho essencialmente a duas cabeças mas à boa maneira americana: Pusha T, Mos Def, Ty Dolla $ign, Andre 3000, Mike Dean ou Justin Vernon fizeram parte de um luxuoso encontro entre pesos-pesados. Não façam confusão: Kids See Ghosts é um álbum pop, mas dotado de camadas, texturas e pormenores que impressionam e não deixam indiferentes os públicos dos mais variados espectros musicais.

– Gonçalo Oliveira

Kids See Ghosts // Kids See Ghosts


[KAMASI WASHINGTON] Heaven and Earth (7º lugar)

Trata-se de uma das presenças mais assíduas nas listas que destacam o melhores álbuns de 2018. Heaven and Earth, do saxofonista Kamasi Washington, tem sido desde o primeiro dia aplaudido pela crítica especializada. Não só pelo virtuosismo instrumental que nele podemos encontrar, com o anfitrião e a sua equipa de luxo a percorrerem uma estrada que finta muitas vezes os contornos mais tradicionais do jazz, procurando por diversas vezes dar-lhe uma nova estrutura, mas também pelo cariz conceptual da obra, que se divide em duas importantes metades. A primeira, Earth, representa o mundo do qual Kamasi Washington faz parte, o espaço exterior, palpável. A segunda, Heaven, traduz o mundo como o autor o vê, intrinsecamente, a sua própria interpretação do que o rodeia. E é assente nesta interessante dicotomia que Heaven and Earth, o segundo álbum do artista norte-americano – a estreia deu-se em 2015 à boleia de uma impressionante epopeia de três horas intitulada The Epic –, nos relembra que, enquanto seres humanos, vivemos muitas vezes no limbo que medeia as realidades interna e externa, delimitados pelas balizas do físico e do psíquico, do corpo e da mente, da terra e do céu. Um álbum para continuar a degustar no decorrer de 2019.

– Manuel Rodrigues


[SABA] CARE FOR ME (8º lugar)

Uma das pérolas mais valiosas da nova geração de Chicago é Saba, rapper que se mostrou ao mundo ao lado de Chance The Rapper e soube aproveitar essa luz para construir um sólido percurso a solo. Em CARE FOR ME, os seus versos introspectivos pintam histórias de luta contra demónios internos (agigantados pela morte do seu primo John Walt), o combustível indesejado mas necessário para criar canções — “PROM / KING” arrepia… — que nos tocam no âmago

– Alexandre Ribeiro

Saba // CARE FOR ME


[JPEGMAFIA] Veteran (9º lugar)

Não se enganaram aqueles que, logo em Janeiro passado, apontaram Veteran como potencial sobrevivente numa prova de endurance contra o tempo. 11 meses passaram e a música de JPEGMAFIA perdurou nos nossos ouvidos, que lhe prestaram uma ainda maior atenção quando, em Março, surgiam no radar um par de passagens do norte-americano pelo nosso país — deleite que rapidamente passou a decepção.

Apesar de não se tratar de um primeiro disco, foi em Veteran que Barrington DeVaughn Hendricks expôs toda a sua genialidade, aliando uma estética suja, bruta mas nada descuidada a uma forte aptidão para dominar as ferramentas digitais do sound design, conseguindo assim um objecto artístico de culto, mas com as credenciais exigidas por um público indie/alt-pop, que não demorou a abraçar a sua música, fazendo dele um fenómeno de escalas consideráveis. Denzel Curry, artista de “milhões” e em plena fase de auto-redescoberta, viu nele uma fonte de inspiração e aproveitou-se da sua frescura em “VENGEANCE”, do seu mais recente TA13OO.

– Gonçalo Oliveira

JPEGMAFIA, o veterano urbano voltou


[JANELLE MONÁE] Dirty Computer (10º lugar)

“I am not America’s nightmare, I am the American dream”: “young, black, wild and free” — assim se afirma Janelle Monáe em Dirty Computer — um dos mais importantes testemunhos artísticos de resiliência de 2018, um ano em que o extremismo ganhou forças alarmantes por todo o mundo. Os dirty computers na distopia imaginada pela norte-americana são todos aqueles que, mesmo arriscando a sua própria aniquilação, rompem barreiras e desafiam mentalidades tacanhas. Dirty Computer é feminino, sensual e sexual, um grito de libertação envolto numa pop luxuriante, com Prince a espreitar a cada canto, e trouxe finalmente Janelle Monáe ao pódio de prestígio que sempre mereceu.

– Vera Brito

Janelle Monáe // Dirty Computer

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