Rosalía // El Mal Querer

[TEXTO] Rui Miguel Abreu

O impacto de El Mal Querer, segundo álbum da catalã Rosalía, terá forçosamente uma leitura diferente na sua Espanha natal e nos principais mercados pop do mundo, sobretudo o britânico e americano, aqueles que verdadeiramente oferecem tracção comercial aos maiores fenómenos mundiais. Mas, e esta parte importa-nos a nós, os que nos quedamos do lado de cá da fronteira e olhamos para a Espanha de Pedro Almodóvar, do Real Madrid e Barcelona, do Reina Sofía e do Guggenheim de Bilbao, El Mal Querer também terá uma leitura particular em Portugal, diferente da de “nuestros hermanos” ou de americanos e ingleses.

Em Espanha assiste-se agora à inversão de um processo que se desenrola há décadas. O cante, o toque e o baile flamenco são aspectos de um património complexo que a Andaluzia impôs no mundo. E as experiências de aproximação do flamenco a outros universos musicais, do jazz ao rock, há muito que geram entusiasmantes híbridos, de Paco de Lucia às Las Grecas que Gaslamp Killer samplou em “Kowboyz&Indians” de Gonjasufi. Mas esses foram impulsos nascidos dentro do próprio flamenco. Rosalía representa algo de diferente. Sendo catalã, não pode reclamar uma natural e cultural relação com o flamenco, uma tradição que estudou e para a qual revelou óbvias aptidões confirmadas pelo sucesso de Los Ángeles, trabalho editado pela Universal em 2016.

Quando, em finais de Maio último, Rosalía se reposicionou no universo da música com “Malamente” (primeiro resultado da sua nova ligação à Sony), mostrando no YouTube um vídeo assinado por Canada que mais do que ilustrar uma música oferece um autêntico manifesto artístico (que já soma mais de 30 milhões de visualizações…) a polémica, como demos conta por aqui, estalou, com a cantora a ser acusada de apropriação, não apenas por integrar elementos da tradição flamenca na sua arte, mas também por ir buscar inspiração visual à moderna cultura cigana, trazendo para o seu universo estético icónicas representações da cultura do tuning ou de uma noção de moda muito particular, misturando religião, tauromaquia, skate e camionismo numa estonteante tradução cinemática do que a sua música quer agora representar.

A mais progressiva imprensa espanhola já desvalorizou essas polémicas e percebeu que Rosalía é o futuro. Escreve Blas Fernadez para o Málaga Hoy, a partir da Sevilha que se encontra no coração da tradição flamenca, que “as estéreis polémicas sobre questões tão absurdas como o presumível delito de apropriação cultural que sucede de aproximar-se do flamenco ou usar expressões ‘en calé’ sendo ‘paya y catalana’” não conseguiram no entanto obstar a que lhe fosse reconhecido “o respeito que mostra pelo género”. “Não é pouco”, afiança o crítico andaluz. Não é, de facto.

 



Em Inglaterra e na América, Rosalía será, certamente, olhada como mais uma agente na imposição de uma ideia de pop latina moderna que agora terá nesta inovadora abordagem do flamenco um argumento extra para adicionar ao já efervescente caldeirão onde borbulham propostas de reggaeton ou funk brasileiro: Rosalía, como Anitta ou Luis Fonsi, como Bad Bunny ou J Balvin, será mais uma prova de que o inglês já não é a plataforma exclusiva de acesso ao topo das tabelas.

Ok, e por cá? Somos um país de brandos costumes e as polémicas raramente extravasam as caixas de comentários no Facebook e quase nunca se manifestam pelo ângulo da apropriação cultural: brancos que rimam em crioulo ou que produzem kizomba e gente do Minho que canta fado de Lisboa seriam possíveis exemplos. Felizmente nada disso sucede e os únicos pontos de discussão parecem decorrer da atenção que algumas “minorias” parecem ter conquistado, com a “afro Lisboa” a alimentar alguma comichão por parte de previsíveis resistentes.

Mas, estou então a tentar explicar, olhar para o que Rosalía está a fazer com o flamenco implica também olhar para o que gente como Conan Osiris, Pedro Mafama ou Stereossauro está a fazer com o fado. Tomar uma cultura como fonte de inspiração doutra cultura, como ponto de partida para um gesto de reimaginação do futuro, como, mais importante ainda, marca de identidade não exclusiva é, afinal de contas, do que se trata. Nada contra a preservação museológica dos géneros, nada contra quem segue a tradição como um dogma, nada contra quem olha para o fado – ou para o flamenco – como um conjunto apertado de esquemas e regras, de tiques e fórmulas, de modos e estilos. Tudo a favor de quem queira ver mais além, de quem ousa transformar e reinventar e alterar e adulterar. Criar, no fundo.

Aqui, do lado de cá da fronteira, percebemos bem o que Rosalía está a querer fazer com El Mal Querer porque crescemos com Variações e Heróis do Mar nos ouvidos e soubemos aplaudir quem adora bolos, mesmo quando pontualmente também não resistimos a umas boas pataniscas de bacalhau.

Assunto arrumado.

E El Mal Querer justifica toda a atenção que está a receber? Toda essa e muito mais, certamente.

 



O trabalho de El Guincho, o tipo que há 10 anos lançou o promissor Alegranza, revela, a um tempo, respeito pela tradição flamenca, com um rigor reverente no tratamento das vozes e no protagonismo concedido ao cante de Rosalía, mas também vontade de invenção tomando as palmas como argumento adicional de coloração rítmica, acrescentando graves no lugar de tacões sobre madeira, adicionando elementos electrónicos de elegante efeito nos arranjos. Mas também sons extra-musicais, de facas ou de poderosos motores de motos, de sirenes, elementos que acrescentam autenticidade e drama urbano a El Mal Querer.

Estruturada como uma história em 11 capítulos, esta segunda aventura de Rosalía combina palavras da sua própria lavra com recurso a alguns poemas em domínio público, assumindo-se assim a ligação directa aos clássicos do flamenco. Rosalía, inteligentemente, não abdica da carga dramática tradicional do género que aqui abraça e as histórias que canta combinam sofrimento e sangue, redenção e fé, paixão ardente, ciúme, amor e raiva. E a sua voz, misto de inocência e sensualidade, levemente rouca e algo grave, é uma ferramenta que usa de forma extraordinária, mas em que El Guincho não teme interferir pela via dos efeitos, do Auto-Tune até, conferindo-lhe assim uma dose extra de modernidade que remete para muito do mais desafiante r&b que se vai fazendo.

Já se conheciam os extraordinários “Malamente” e “Pienso En Tu Mirá” e o lançamento recente do álbum foi acompanhado pela estreia de mais um capítulo desta história que também é visual, o tema “Di Mi Nombre”, desta vez com assinatura de Henry Scholfield e belíssima coreografia de Charm La Donna, outra via para a interacção com o legado histórico do flamenco pela via da reinvenção. Mas o álbum, que tem apenas cerca de 30 minutos (o padrão de duração da era do vinil parece mesmo estar de volta…), tem muitos outros pontos altos, com pequenas maravilhas ao nível da produção. Há um sample de Arthur Russell em “Que No Salga La Luna”, a faixa que, logo após a abertura do álbum com o hit “Malamente”, pretende deixar claro que a opção de Rosalía pela modernidade não se fica a dever a falta de capacidades para interpretações mais conformes com os cânones: é um festival de vozes e de palmas, com Juan Mateo, Las Negris, Lin e Nani Cortés e ainda Las Melli a rodearem Rosalía de uma luxuriante e dramática moldura humana.

 



“De Aqui no Sales”, o capítulo 4 que no alinhamento surge depois da também já bem conhecida “Pienso en tu Mirá”, é outra pequena fonte de maravilhamento, com acelerador e derrapagem, com motores de arranque e ruídos de escape a fornecerem a primeira base da voz de Rosalía, antes de uma combinação de subgraves e palmas servir de força propulsora para um espantoso trabalho de sequenciação de fragmentos de voz. Segue-se um “lamento”, com as palavras tradicionais de “Reniego” a serem embaladas pelas cordas da Orquestra Sinfónica de Bratislava. E depois de um interlúdio em que se recorre à voz da musa de Pedro Almodóvar, a actriz Rossy de Palma, surge “Bagdad”, a “apropriação” de Rosalía e El Guincho do clássico r&b da década passada “Cry Me a River”, um dos mais brilhantes produtos da parceria de Justin Timberlake e Timbaland. É um gesto algo arriscado, mas de que Rosalía se desembaraça com total elegância.

Restam “Nana”, um tema tradicional que El Guincho transforma quase tratando a voz acapella de Rosalía como se de matéria de um mellotron se tratasse, dando-lhe uma espectral dimensão que arrepia e comove em igual medida;  “Maldicion”, outro tema tradicional, com Rosalía a ser emparelhada com esparsas notas electrónicas e castanholas; e, finalmente, “A Ningun Hombre”, com Rosalía a declarar que vai tatuar as iniciais do seu amado na pele, em mais um showcase da sua extraordinária voz que parece ser abençoada por essa dupla qualidade de ter a tessitura perfeita para o cante, mas ser igualmente ideal matéria moldável para esculpir através da mesa de mistura e dos efeitos.

É um pouco assim, Rosalía, uma figura suspensa entre a tradição e o futuro, entre a pureza acústica e a sobrenaturalidade electrónica, entre a inocência e o pecado, a felicidade e o drama, a luz e a escuridão. El Mal Querer consegue a dupla proeza de ser algo de absolutamente novo, fundo e de uma beleza a toda a prova, mas também a promessa de novos caminhos, de novas possibilidades que poderão inspirar não apenas outros artistas que em Espanha não queiram deixar de assumir que têm o flamenco no seu ADN enquanto procuram outras sonoridades, mas também quem, por exemplo em Portugal, queira tomar as suas próprias marcas de identidade cultural como peças num jogo de lego limitado apenas pelo alcance da imaginação.

 


Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
Rui Miguel Abreu