Os 10 melhores álbuns nacionais de 2018

[ILUSTRAÇÃO] Riça

Já estamos na segunda semana de 2019, mas a nossa cabeça ainda não saiu de 2018. As listas, apesar de nem sempre fazerem justiça a todos — porque são contidas e limitadas implicando que haja sempre quem fique de fora –, servem para rever a matéria dada e perceber (ou tentar, pelo menos) onde estamos, o que fizemos e para onde vamos.

Tal como em 2017, o Rimas e Batidas deparou-se com variedade e novidade: se trocássemos The Art of Slowing Down por Deepak Looper, Where The Sidewalk Ends por Man with a Plan, Karrossel, Karma por [caixa], Nídia é Má, Nídia é Fudida por Mundu Nôbu ou Pruridades por Inter-Missão, o nível manter-se-ia o mesmo.

No entanto, Adoro Bolos e Tanto Sal, projectos de Conan Osiris e Pedro Mafama, respectivamente, surgem sintonizados numa frequência que até aos seus lançamentos era praticamente desconhecida. Estarem nesta selecção é prova de que o desbravar de novos terrenos, o apontar ao futuro, o risco e a invenção, são qualidades que também podemos e devemos reconhecer à classe de 2018.

 


[PAPILLON] Deepak Looper (1º lugar)

Nos tempos que correm, as barreiras sonoras esbateram-se e os artistas tendem a piscar o olho a mais do que um género musical. Fora dos GROGNation, mas acompanhado de perto por Slow J, o produtor-executivo de Deepak Looper, Rui Pereira saiu do casulo e demonstrou que existem ideias solitárias que merecem ser exploradas com maior afinco.

Em 13 faixas, Papillon foi de cantor a storyteller, da alegria à tristeza profunda, mas, mesmo quando saía fora de pé para experimentar (e fê-lo sempre com noção de para onde estava a ir), nunca perdeu o eixo. Pelo caminho, o artista de Mem Martins reclamou o seu lugar no actual panorama nacional.

– Alexandre Ribeiro

Papillon // Deepak Looper



[CONAN OSIRIS] Adoro Bolos (2º lugar)

Adoro Bolos será caso de estudo para o futuro e um exemplo clássico do famoso efeito “primeiro estranha-se, depois entranha-se”. Por aqui no ReB, em abono da verdade, não estranhámos um álbum que sabíamos não nascer de geração espontânea, que apostava no cruzamento de coordenadas que o bom senso diria não se poderem misturar e numa carga poética séria, mas num primeiro momento difícil de descortinar.

Depois, a rodagem das canções, nos nossos ouvidos e nas gargantas de todos os que juntaram a voz ao coro, deixou claro que neste Adoro Bolos há substância, há ideias, há matéria com que se poderá construir algo de novo. E sem vídeos, sem concessões na forma como se apresenta ao vivo — um álbum feito no iPhone pode perfeitamente dispensar a norma da banda que continua a imperar –, sem disfarces ou vergonhas, Conan Osiris ascendeu a um pódio onde, para sermos justos, mais ninguém cabe.

– Rui Miguel Abreu

Conan Osiris // Adoro Bolos


[Dino D’Santiago] Mundu Nôbu (3º lugar) 

É impossível fazer uma lista de melhores álbuns do ano sem incluir Mundu Nôbu de Dino D’Santiago. A frescura que este trabalho trouxe não passou indiferente a ninguém pela introdução indiscutível do mundo electrónico numa sonoridade cabo-verdiana que já reconhecíamos não só na música de Claudino Pereira, mas também de outros artistas que vão beber às raízes. Impensável tirar da equação o, espantem-se, londrino Paul Seiji que em poucos meses absorveu as batidas daquelas ilhas do Atlântico e o sentimento que carregam trazendo um bass que vai directo ao peito quando ouvimos qualquer uma das 10 faixas do álbum. Claro que a receita desta cachupa rica também guarda segredo nas temáticas que ganham forma na voz inconfundível de Dino D’Santiago. A bandeira que cada letra carrega fazem com que se sinta Cabo Verde até num dialecto que nem todos sabem traduzir. Sem esquecer, claro, que a segunda faixa deu nome à finalmente descarada “Nova Lisboa”. Um trabalho sem ainda par comparável que se faz de trabalho de equipa e muito jogo de cintura.

– Alexandra Oliveira Matos

Dino D’Santiago // Mundu Nôbu


[COLÓNIA CALÚNIA] [caixa] (4ºlugar)

“O melhor disco do ano que ninguém vai ouvir”, provocávamos nós quando escrevemos sobre este [caixa]. Claro que há gente a ouvir. Há gente a ouvir porque há gente, como Secta e Metamorfiko, a fazer. O que eles fazem, no entanto, pode não se encaixar com o que a grande maioria quer escutar, o que não lhes retira, muito pelo contrário, qualquer tipo de validade.

Aqui, MC e produtor valem-se de uma infinita coragem, aquela que nos impele a avançarmos caverna adentro, mesmo quando o silêncio é sepulcral e a ausência de luz faz disparar todos os alarmes da imaginação. Nada é fácil dentro desta [caixa]: nem as palavras, nem as cadências com que elas nos são entregues, nem as metáforas, nem as batidas que as amparam, nem nada. Não é suposto ser fácil, na verdade, apenas bom. E [caixa] é óptimo.

– Rui Miguel Abreu

COLÓNIA CALÚNIA // [caixa]


[DAVID BRUNO] O Último Tango em Mafamude (5º lugar)

Se David Bruno não é o artista mais completo à escala nacional, é sem dúvida seguro afirmar que anda lá muito perto. É da sua cabeça que partem grandes ideias, que fazem a ponte entre a música e o imaginário visual, que tanto enriquecem cada lançamento que assina — seja enquanto dB, ao lado de Logos no Conjunto Corona ou como David Bruno, o alter-ego que criou este ano para editar mais um belo pedaço de arte.

O Último Tango Em Mafamude é uma viagem pelo submundo do populismo português, que faz uso do brejeiro e do corriqueiro sem nunca roçar o vergonhoso. Um disco também ele servido em vídeo, que facilmente nos transporta para um universo low life e regionalista que ainda hoje reside em algumas zonas mais distantes dos grandes centros urbanos. Musicalmente, David Bruno reformula o boom bap instrumental, não abdicando de uma linha narrativa — tal como Sam The Kid nos ensinou em Beats Vol.1 –, repleto de uma linguagem que é nova, que cria uma imagem totalmente oposta à que o hip hop se tem ligado desde sempre, roçando o pimba e o bimbo sem nunca perder o lado cool da coisa.

– Gonçalo Oliveira

David Bruno // O Último Tango em Mafamude


[CONJUNTO CORONA] Santa Rita Lifestyle (6º lugar)

A surpresa é cada vez menor mas a relevância mantém-se a cada novo lançamento do Conjunto Corona. Se dB continua a ser o chef, não há como ignorar, uma vez mais, o que acontece nesta cozinha quando Logos mete as mãos na massa. O “universo foleiro” para que nos abrem as portas continua a despertar o lado mais voyeur de quem vive na normalidade das grandes cidades e, numa altura em que a diversidade e os rótulos abundam em igual medida, fica provado que o rap do Porto e o rap português, tantas vezes reduzidos a preconceitos, também passam pela rotunda de Santa Rita.

– Moisés Regalado

Conjunto Corona // Santa Rita Lifestyle


[NERVE] Auto-Sabotagem (7º lugar)

Tiago Gonçalves colocou-se à prova no seu mais recente EP. À partida, Auto-Sabotagem tinha tudo para se tornar num parto problemático: NERVE vinha de um excelente disco e o público, num mercado tão agressivo como é o actual, não se iria deixar iludir por um qualquer placebo.

Auto-Sabotagem pode, por isso, destacar-se como a afirmação plena por um dos artistas hip hop de maior culto em Portugal. Na dificuldade de superar T&C/AVNP&NMTC, NERVE conseguiu manter-se no nível do seu último longa-duração, desta vez alterando a óptica na escrita das letras, agora que se posiciona entre a elite do rap nacional — lugar que lhe era destinado à nascença.

Para complicar mais a tarefa, impôs a si próprio a direcção artística de, vá lá, uns bons 95% de todo o disco, que contou com complementos de Notwan ao saxofone em alguns dos temas e DWARF na masterização. Letras, voz, instrumentais, gravação, mistura, ilustração e design são todos assinados por NERVE, naquele que é o seu registo mais solitário e exaustivo até à data.

– Gonçalo Oliveira

NERVE // AUTO-SABOTAGEM


[PEDRO MAFAMA] Tanto Sal (8º lugar)

No momento actual, medo é uma palavra que parece não existir no dicionário português, abraçando-se todos os projectos que prometem novidade. Tanto Sal, o segundo EP de Pedro Simões, é mais um passo certo num percurso que ainda agora começou. E, mais importante, deu-nos “Jazigo”, umas das “43 músicas portuguesas que marcaram 2018”.

Este é o Portugal de DJ Marfox e Amália Rodrigues, do centro e dos subúrbios, um país que só agora está a começar a entender que todos os credos fazem parte do ADN nacional.

– Alexandre Ribeiro

Pedro Mafama // Tanto Sal


[MIKE EL NITE] Inter-Missão (9º lugar)

Novo disco para Mike El Nite, novo passo de gigante para a Think Music e vice-versa. No palco ou nos bastidores, as caminhadas de ProfJam e Mike têm sido praticamente inseparáveis e é bonito ver que a sincronia de rotas continua a dar frutos tão entusiasmantes como este. A beleza continua a viver na simplicidade — um dos patamares mais difíceis de atingir — e, perante obras com tão bom semblante, não há como temer o futuro. Inter-Missão cumprida.

– Moisés Regalado

Mike El Nite // Inter-Missão


[MINUS & MRDOLLY] Man with a Plan (10º lugar)

Man with a Plan de Minus & MrDolly é uma beat tape, mas, ainda que possa parecer um mero conjunto de instrumentais soltos, mostra porque é que é um dos melhores deste ano através da ambição que demonstra em juntar mundos: ouvimos em certos momentos elementos que remetem para nomes tão distintos como Thievery Corporation ou Orelha Negra. É um projecto suave e descontraído que nunca perde a “tensão” do hip hop e dos seus breaks de bateria assertivos que remontam à golden age e a grandes nomes do boom bap instrumental como Pete Rock ou Large Professor. Perfumado em vários momentos pelo scratch de DJ Spot, a sonoridade chillout/lounge de Man with a Plan nunca se torna aborrecida e ouve-se bem em qualquer altura.

– Miguel Santos

Minus & MRDolly // Man With a Plan

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Escolhas de: Alexandre Ribeiro, Rui Miguel Abreu, Alexandra Oliveira Matos, Sebastião Santana, Vasco Completo, Ricardo Farinha, Luis Almeida, Miguel Santos, Miguel Alexandre, Rui Correia, Gonçalo Oliveira, João Daniel Marques, Vera Brito e Manuel Rodrigues.

ReB Team

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