Noname // Room 25

[TEXTO] Rui Miguel Abreu

Na reveladora entrevista que concedeu à norte-americana Fader, Fatimah Warner demonstra desarmante franqueza quando não teme alienar boa parte da sua base de apoio ao dizer que muitos dos seus fãs estão equivocados ao olharem para ela como a antítese de Cardi B: “Não sou. Sou apenas a Fatimah”.

A artista que assina Noname (era Noname Gypsy até perceber que a comunidade cigana poderia sentir-se ofendida) é de facto diferente porque é única: na aparência de “girl next door” pode ler-se a projecção de uma normalidade invulgar num mundo que já só se encara através de filtros, sejam eles aplicados no Instagram ou nas interacções sociais reais de todos os dias; na resistência à exposição mediática – Noname dá poucas entrevistas, tem presença residual nas redes sociais, não faz vídeos… – será possível entender uma inabalável determinação de fazer o que tem a fazer, mas de acordo com as suas regras, no seu timing, com as suas ideias; e na sua decisão de ser completamente livre, sem depender sequer de qualquer tipo de acordo com alguma plataforma de streaming, como fez o seu camarada Chance The Rapper, entende-se um respeito desmedido pela sua própria personalidade criativa: “Não me agrada ter que esperar que alguém aprove para onde posso levar a minha ideia”, explicou a Rawiya Kameir da Fader, deixando claro que pagou todas as despesas de produção de Room 25 do seu próprio bolso. Diz ela, a propósito dos arranjos de cordas que embrulham a caixinha de música que é  “Window” ou o remate final homónimo, o tema “no name” com Yaw e Adam Ness: “Essas merdas são caras como o c******. Alguém tem que orquestrar todas as partes e depois é preciso contratar tipo 12 pessoas para esta grande cena orquestral”.

Noname mantém-se resolutamente independente porque tem dado passos cautelosos desde que surgiu no mapa da modernidade urbana norte-americana com alguns versos em Acid Rap, trabalho do seu conterrâneo Chance The Rapper, artista que depois permitiu que brilhasse um pouco mais ao convidá-la para Coloring Book. A atenção decorrente desse trabalho deu-lhe amplitude para desenhar uma auspiciosa estreia com Telephone, mixtape de 2016 que a levou para a estrada onde acumulou o suficiente para investir neste Room 25. A cautela, nestes dias de trappers que não escondem querer ouro no pescoço, parece ela própria uma qualidade incomum para se ter em 2018…

Noname mudou-se de Chicago para Los Angeles, encontrou pares numa nova geração de comediantes que orbitam clubes como o The Comedy Store enquanto congeminam projectos para a Netflix, HBO ou Comedy Central. Essa ligação parece fazer sentido, escutando-se um álbum em que a protagonista não demora a expor-se, nua, diante do mundo que lhe queira prestar atenção, sem aparente noção de embaraço que a trave, mas ainda assim sem temer espetar o dedo no olho da sua audiência:

“Maybe this the album you listen to in your car
When you driving home late at night
Really questioning every god, religion, Kanye, bitches
Maybe this is the entrance before you get to the river
A heaven before the heathen no reason for you to like me
Maybe this your wifey just wanting a clean divorce
The baby ain’t really yours, this really for babies teething
And chicken wings under-seasoned
Y’all really thought a bitch couldn’t rap huh?
Maybe this your answer for that, a crack era
The Reagan administration that niggas are still scared of
Nah actually this is for me
This one for TT at the lake serving the mac and the cheese
This one a small apology for all the calls that I screened”

E isto tudo no mesmo tema em que ainda lhe sobra fôlego para declarar, sem filtros mesmo, a inteligência do seu sexo:

“Fucked your rapper homie, now his ass is making better music
My pussy teachin ninth-grade English
My pussy wrote a thesis on colonialism
In conversation with a marginal system in love with Jesus”

Fatimah Warner foi criada pelos avós em Chicago, donos de um negócio de jardinagem. Foi protegida dos perigos da grande cidade, nunca rendeu na escola, leu muito pouco, quase não escutou músicas enquanto crescia, passava o tempo a ver televisão. Percebe-se, no entanto, que tem vindo a estudar, criando um híbrido de rap, canto e spoken word que tem ecos de Gil Scott Heron e Erykah Badu, de Saul Williams e de Solange, de Common e, obviamente, de Chano: “Muitas pessoas acham que eu rimo como o Chance. Fazem muito essa comparação. Não acho que soe como o Chance, mas quando comecei a rimar se calhar soava porque ele era o único rapper com quem eu andava e estávamos sempre juntos”. Mas algures entre o ter crescido artisticamente em modo isolado e o seu processo de descoberta do mundo, Noname ergueu uma distinta personalidade artística, com uma voz singular – ela descreve-se como monocórdica, ideia logo desmentida à segunda faixa de Room 25, a espantosa “Blaxploitation”… – carregada de pequenas nuances de modulação, um bálsamo numa era de grandes vozes que não escondem os superlativos instrumentos com que foram dotadas.

E depois há a escrita: desarmante e mordaz, autocrítica e honesta, transparente e inteligente e de fino recorte lírico. Espreitem “Regal”. Primeiro o refrão:

“Make my wrong turn right, make my fists turn heaven
May the lord be with me, make me look like reverend
Make me look like regal, Southside abandon
I swear I look so regal, I swear I look so regal”

Depois o verso:

“Oh my baby got to know me, I’m looking like I’m the homie
I’m tatted from head to shoulder, I’m colder when he don’t hold me
I’m warmer inside the casket, basket atop my head
Africa’s never dead, Africa’s always dying
No more apples or oranges, only pickles and pacifists
Twitter ranting for martyrdom unified as capitalists
Give ’em death be gone, give ’em Teflon Don
Give ’em Rice-A-Roni politics to bear more arms
And watch the bears come out”

Punhos que viram céu, uma África nunca morta, mas que está sempre morrendo, já chega de maçãs e de laranjas, bastam pickles e pacifistas… As palavras são fundas porque Noname não teme mostrar que anda em busca de um lugar no mundo, em busca de si mesma. Por isso se chama, de resto, Noname… E este Room 25 está carregado de dúvidas e inquietações, de espantos e incertezas, que sublinham a humanidade real e palpável desta artista.

Mas se as qualidades da escrita que espelham as da pessoa real são inegáveis, o mesmo poderia não acontecer com a segunda, mas igualmente importante, parte da equação: a música. Só que também aí Room 25 oferece uma lufada de ar fresco. Tendo em conta a exposição que foi coleccionando não apenas ao lado de Chance, mas também de Mick Jenkins (“The Truth” ou “Angles” ), Saba (“The Church”/ “Liquor Store”), Jamila Woods (“Vry Blk”) e Jesse Boykins III (“Into You”), não seria difícil Noname construir um álbum recheado de produções de uma certa elite moderna e poderíamos facilmente ouvi-la a adornar trabalhos de Kaytranada, BadBadNotGood ou talvez até de Kanye West

Ao invés disso, Fatimah tem trabalhado de perto com Phoelix, produtor de Chicago que também já assinou trabalhos para Saba e Jamila Woods e que é dono de um som particular. Multi-instrumentista, com uma veia jazz muito saliente, Phoelix prova ser o parceiro perfeito para a entrega particular de Noname. “Prefiro música ao vivo. Penso que a minha voz soa melhor sobre produção com instrumentos reais, porque muitas vezes estou a falar quando gravo. (O meu estilo) é muito monocórdico e calmo”, explica ainda na já referida entrevista à Fader, “Os instrumentos reais dão-me mais espaço”. Talvez as tais deliciosas nuances que Noname revela na sua interpretação, com subtis pérolas de gestão de tempo na entrega, por exemplo, expliquem o encaixe numa produção que Phoelix explica que “flui como água”. Um bom exemplo é “Ace” em que Noname divide atenções não apenas com a esparsa produção de Phoelix, mas também com as vozes de Smino e Saba, velhos aliados e companheiros de aventura nos férteis terrenos de Chicago em que a (neste caso) rapper demonstra que sabe torcer frases, dobrar sílabas e usar o flow como um pincel com que pinta uma extraordinária imagem, provando pertencer à mesma divisão de um iluminado como Saba enquanto, ali mesmo ao lado, Smino brilha no momento r&b do refrão.

Room 25 está condenado a figurar em lugares cimeiros de listas que distingam o melhor que 2018 nos ofereceu porque brilha por méritos próprios, sem necessitar de um contexto ou de uma vaga de fundo, sem se apoiar em contribuições de nomes de uma qualquer elite artística, sem surgir embrulhado em grande campanha de marketing, servido por vídeos brilhantes ou carregado por um qualquer poder político urgente, com a força de alguma mensagem que aglutine o mundo. É apenas Noname a dizer quem é, ao que vem, nos seus próprios termos, no seu próprio tempo. E isso é tão precioso. Em 2018 ou em qualquer outra altura.

 


Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
Rui Miguel Abreu