Bad Bunny: um fenómeno latino à boleia do trap

[TEXTO] Vera Brito [FOTO] Direitos Reservados

Bad Bunny ofereceu neste Natal o derradeiro e ansiado presente aos seus fãs: o seu primeiro disco, X 100PRE, ficou disponível em streaming na noite de consoada e após uma primeira audição, ainda que algo superficial por entre fatias de bolo rei e azevias, acreditamos que o porto-riquenho não vai parar de somar milhões em 2019 — milhões de fãs, de visualizações, de streams e, claro, milhões de dólares. Benito Antonio Martínez Ocasio, nome de baptismo, não exagera quanto canta que lhe “sobran los billetes de cien” em “Estamos Bien”. Um artigo da Billboard, de Setembro passado, dava conta de Bad Bunny ter somado em 2018, até à data do artigo, um total de 16 milhões de dólares nas suas digressões La Nueva Religion Tour Pt.I e Pt. II, isto sem contabilizar os restantes concertos que se seguiram até final do ano.

Numa altura em que praticamente já se fecharam todas as listas de discos do ano e se comparam agora opiniões distintas fazendo balanços, aproveita-se também o momento para trazer de volta a premente questão dos últimos anos: estará ou não a morrer o formato álbum? Se por um lado basta-nos olhar para as listas deste ano, fartas de grandes discos dentro dos mais variados géneros, para defender que o “álbum” continua sólido como sempre, por outro não podemos ignorar casos como o de Bad Bunny que, em menos de dois anos, se tornou num fenómeno do trap latino à escala mundial, sem nenhum disco editado até há poucos dias — o álbum pode até não estar a morrer, mas as regras que ditam o lançamento e o sucesso de um artista garantidamente mudaram.

 



Como é que tudo isto aconteceu a Bad Bunny? Este conejo malo, que hoje ostenta Gucci e Louis Vuitton, de penteado milimétrico, óculos felinos e verniz nas unhas (não nos surpreenderia se em breve se aventurasse no mundo da moda e criasse a sua própria marca, como a Golf Wang de Tyler, The Creator), vivia até há dois anos uma vida simples de estudante universitário durante o dia, frequentando um curso de comunicação, e trabalhava à noite num supermercado. De origens humildes, o pai camionista, a mãe professora, viviam todos, mais os seus dois irmãos, no pequeno bairro Vega Baja de Porto Rico. Desde cedo revelou um interesse pela música, em entrevistas confessou que era ainda adolescente quando começou a fazer as primeiras experiências até que, mais tarde, e incentivado por amigos, a Internet lhe abriu o mundo, e através do SoundCloud chegou às pessoas certas conseguindo um contrato com a Hear This Music (o singleDiles” seria o seu primeiro grande sucesso) e o resto foi, como se costuma dizer, história, mas uma história escrita a velocidade galopante que fez com que Bad Bunny seja hoje um dos artistas com quem todos parecem querer colaborar.

Entre as colaborações mais sonantes contam-se sobretudo a ao lado de Cardi B num dos grandes hits do Verão passado, “I Like It”, onde participou também o colombiano J Balvin, conhecido artista com quem Bad Bunny já partilhou outros singles. E depois houve também a colaboração de Drake, em “MIA”, faixa que Bad Bunny não deixou de fora de X 100PRE e na qual o canadiano não consegue convencer ninguém com o seu espanhol limpinho e insípido, sem o salero do sotaque do porto-riquenho. No videoclipe Drake parece até aquele convidado que acabou na festa errada e fica-nos a dúvida de quem no final terá tirado mais partido da colaboração…

Depois de tantas ilustres colaborações seria de esperar encontrar em X 100PRE muitas outras, o que curiosamente não aconteceu. À parte de uma remistura de Diplo e da participação de El Alfa e de Drake, Bad Bunny parece querer afirmar-se sozinho num disco que aponta em muitas direcções distintas. Trap, reggaeton, r&b, dancehall, tudo parecem saídas válidas para o porto-riquenho, que tanto é capaz de se revelar um pinga-amor e um romântico incurável, como um bad boy de ambições menos honestas, como a de querer ser un bichote — entender o fenómeno Bad Bunny passa também por enriquecer o nosso “portunhol” com calão porto-riquenho cheio de palavras estranhas como “bichote” ou “perrear“, ou até adicionar novas ao nosso português como “amorfoda”, já que Bad Bunny diz ter-se inspirado na língua de Camões para dar este título a uma das suas canções.

 



Com uma agenda já bastante composta para o início de 2019 numa digressão norte-americana na qual irá seguramente esgotar praticamente todas as datas, à semelhança da anterior, é possível esperar que aconteça também uma digressão europeia, o que nos faz pensar no que aconteceria se Bad Bunny anunciasse um concerto por cá?

Arriscamos dizer que dificilmente esgotaria uma sala: reconhecemos que é um caso de popularidade extraordinária na América latina e que se exportou com facilidade para os Estados Unidos, seguindo a corrente clara da diáspora que Trump tanto quer erradicar, mas parece-nos que ainda não atingiu a Europa da mesma maneira. No entanto, é possível que a nossa previsão esteja completamente errada, convém relembrar um outro fenómeno que passou também este ano por cá e esgotou, em menos de 48 horas, a bilheteira do Coliseu dos Recreios, obrigando a uma mudança para a Altice Arena para saciar a febre da procura de bilhetes: Russ, que regressa já no próximo MEO Sudoeste, era, até ao anúncio do seu primeiro concerto por cá, uma incógnita de bilheteira e um nome que levou muita gente a uma pesquisa no Google que lhes explicasse que pessoa era esta capaz de esgotar assim, em poucas horas, um Coliseu.

Por isso, talvez seja melhor deixarmos em aberto as nossas apostas quanto a um possível concerto do autor de X 100PRE por cá. Afinal, os fenómenos são cenários imprevisíveis: Bad Bunny é a prova disso.

 


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