Dino D’Santiago // Mundu Nôbu

[TEXTO] Alexandre Ribeiro

Nos últimos anos, uma das principais missões invisíveis (e até involuntárias…) de selos como a Enchufada ou Príncipe foi trazer novidade e impolidez ao universo português que se deixou embevecer por um grupo de artistas que trouxeram para o centro (ou mainstream) géneros como a kizomba, por exemplo, mas com uma filtragem industrial que afastava o produto final da sua raiz, deixando-o insípido. No entanto, a persistência de rádios e telenovelas teve, olhando com algum afastamento, um efeito positivo: cimentou algumas bases, mesmo que “desfiguradas”, para que o resto fosse abraçado sem grandes lutas.

As editoras anteriormente mencionadas, tal como os Buraka Som Sistema, são agentes óbvios na trama desta história, mas existiu outro interveniente importante no caminho que nos trouxe até aqui: Carlos Nobre Neves. “Os Tais” de Carlão e “Nova Lisboa” de Dino D’Santiago têm três anos de diferença e um nome em comum: Branko. Em 2015, o autor de Entretenimento? abraçou o zouk bass — na altura nem todos conseguiram digerir isso, tendo em conta o seu passado — e mostrou as potencialidades de um som que ainda não tinha sido devidamente explorado pela música pop nacional, pelo menos de forma tão refinada e elegante, diga-se. Anos depois, Carlão, motivado pela sua própria experiência pessoal com João Barbosa, insistiu que o cantor de Quarteira mostrasse o disco ao membro-fundador dos BSS, algo que iria alterar profundamente o resultado final.

Esta sucessão de acontecimentos culminou num longa-duração intitulado Mundu Nôbu que, cerca de três meses depois do seu lançamento, soa cada vez mais a um clássico da música lusófona, um arrojado empreendimento de actualização da música cabo-verdiana (e portuguesa também) que une a tradição e a modernidade juntando elementos de funaná, batuque, morna, coladera, zouk e kizomba a subtilezas electrónicas que, com a ajuda de uma produção superlativa, ajudam a arrumar tudo no seu sítio. É possível subtrair sem se perder nada.

Se Eu e os Meus, de 2008, procurava a soul e o hip hop (participações de Carlão, Sam The Kid e Valete) e Eva, de 2013, era um encontro com Cabo Verde e a tradição, Mundu Nôbu é a conquista definitiva de uma identidade criada entre Portugal, Cabo Verde e um pedaço de cada canto do mundo. E, para alguém que vive em constante rodopio, as duas mãos-cheias de concertos na Polónia, em Fevereiro, parecem o início natural para o domínio mundial. 

Na entrevista que deu ao Jornal i aquando da edição do disco, Dino D’Santiago dizia que Rusty Santos se apercebeu do potencial daquilo que se estava a criar ali e avisou: “vocês têm de exportar isto antes que o Drake leve”. Drizzy parece não estar para aí virado, pelo menos para já, mas perfilam-se outros “usurpadores”: Madonna (cada vez mais lisboeta e a cruzar-se constantemente com Dino e companhia) e Sango (revelou recentemente que o seu próximo projecto iria conter “kizomba vibez“) arrancam na linha da frente. 

Para construir este monumento de contornos tão delicados, Dino uniu a visão de Seiji ao dote de Kalaf para a escrita e chamou Branko, PEDRO, Loony Johnson, Rusty Santos, Toty Sa’Med e Tuniko Goulart para dar os acrescentos necessários. Destacar canções num alinhamento tão forte é algo injusto, mas “Nova Lisboa” (uma canção que merece ser estudada — o equilíbrio entre entrega, letra, composição e produção é assustador…), “Raboita Sta. Catarina” (não devem existir muitas faixas que falem sobre erupções vulcânicas — “causadas” pela perda de valores morais, atenção — a soar assim tão bem) e “Mundu Nôbu” (uma revelação espiritual, digamos assim) são exemplos máximos daquilo a que o seu autor se propôs, o resgate de pedaços do passado para esculpir o presente e abrir caminho para o futuro.

Na senda da rica herança musical de Cabo Verde (de onde retiramos nomes como Ferro Gaita, Bulimundo, Ildo Lobo, Cesária Évora, Bitori Nha Bibinha ou Os Tubarões) e depois de anos a acumular experiência em diferentes projectos nacionais, Dino D’Santiago assume-se em definitivo como uma das grandes vozes da lusofonia, e que vozeirão! Nu bai!