Carlão // Entretenimento?

[TEXTO] Miguel Santos

“Tu se me disseres assim, ‘Samuel, faz um beat para mim’, eu não sei o que é que hei-de fazer. Há muitos rappers que me podem dizer e eu, ‘Ok, eu sei qual é a tua cena’. Eu a ti não consigo, não consigo dizer qual é a tua cena. És imprevisível.”

Durante o segundo episódio do videocast de Na Mira, Sam The Kid descreveu desta forma o seu convidado, Carlos Nobre. Aos 43 anos de idade, Carlão é um artista que já viveu, respirou e criou muita música. Depois de uma caminhada de sucesso como o principal letrista e um dos vocalistas dos Da Weasel, o músico continuou a serpentear pela arte sonora primeiro com Os Dias de Raiva, uma ode ao hardcore e à música com distorção, depois com Algodão através da palavra declamada e derramada por cima de batidas esparsas, e, depois de um hiato, como membro dos 5-30, juntamente com Fred Ferreira e Regula, num registo dividido entre o canto e o rap. Em toda a sua polivalente caminhada pelo mundo da música, há algo que tem sido constante: o amor pela palavra.

As palavras escolhidas por Carlão demonstram um dom especial para a escrita. Há uma inspiração característica, os traços de um verdadeiro poeta que se escapam por entre os versos. E agora como Carlão, isso não é excepção: em 2015 lançou Quarenta, um álbum onde abraça o patamar das quatro décadas com honestidade e uma pujança de jovem. Muitos dos instrumentais são mais digitais, mais “seguros” para uma primeira aventura (quase) em nome próprio e no EP Na Batalha, lançado no ano seguinte, isso também acontece. Em Entretenimento?, o novo longa-duração, vemos Carlão mais abrangente na sua abordagem sonora, num conjunto de músicas mais diversificado em que nunca se esquece de “ostentar as suas entranhas”, como diz em “Entretenimento”.

A faixa-título abre o álbum com muita qualidade, com um beat abafado e uma guitarra arranhada a lembrar Da Weasel, e Carlão fala sobre o seu valor enquanto artista e sobre as suas inseguranças, culminando numa mudança súbita de batida e uma espécie de solilóquio pensativo, um intervalo introspectivo em que a dualidade do resto da música se volta a verificar:

“Sou só uma lenda na minha cabeça
Sou só uma lêndea na tua cabeça”

Ouve-se mais guitarra do que em projectos anteriores, e a produção conta com nomes como Branko, João Nobre, xxoy. e Holly. Os convidados também são mais diversificados e nomes como Manel Cruz e António Zambujo trazem um pouco da sua alma para o universo de Entretenimento?: em “Bebe Mais um Copo”, Zambujo acompanha perfeitamente o discurso fúnebre e saudoso e as mudanças de intensidade de Carlão na sua entrega recatada. As palavras que o artista ainda não consegue dizer deixa-as para Zambujo e para o refrão cantado a bom som. Em “Repetido”, Slow J produz e participa num tema tenso, um banger de guitarra distorcida e uma letra derrotista com mais um bom pormenor de Carlão a abrir o tema:

“A doutora receitou ar saudável
Gostava de agarrar mas não é palpável
Rodeado de alcatrão, no chão e pulmão
Brinco com a previsão de uma botija na mão”

“Na Margem”, de acordes de coração partido, continua a ponderação emocional de Carlão, seguida de “Foge de Mim”, deixando para trás uma relação acabada para descrever um homem que não a merece, sob uma batida acelerada, um tema enaltecido por um bom verso de Edi Ventura. Há também espaço no projecto para a celebração da vida: a sedutora “Contigo” com o seu refrão contagioso fala de um amor inquebrável, a sincera “Brilho” é um hino de luta contra as adversidades e a quente “Viver para Sempre”, uma produção de Boss AC de guitarra rebelde, é a esperança e o estado de espírito de Carlão, o de aproveitar a festa que é viver. Mas Entretenimento? não é só um projecto biográfico: é também um álbum onde Carlão discorre sobre o que observa em temas como “#Demasia”, uma música sobre uma sociedade cada vez mais focada na imagem, no embelezamento falso da sua realidade e numa busca incessante do próximo êxito viral:

“Entretenimento é rei
E todos prestam vassalagem
Quem morreu eu não sei
Mas gostei da homenagem”

“#Demasia” e “Cerejas, Só Isso” são dois temas que dão corpo à questão colocada no título, uma pergunta para Carlão mas também para os ouvintes. A capa do álbum faz referência a várias realidades, várias maneiras de ver o mundo e ver a arte que Carlão mostra, uma arte que neste trabalho ostenta influências diferentes e que aludem à versatilidade de Carlão, à sua capacidade para surpreender e para apostar no inesperado.“Escrevo torto em linhas directas, vandalizo banalidades” disse em “Tempo” de Sam The Kid. Com essa frase, Carlão fez uma descrição muito fiel do seu papel na música. Trilha o seu caminho sem nunca se cingir a uma só direcção e sem nunca se contentar com o banal, com o mundano, procurando sempre deixar um bocadinho de si nos projectos que apresenta. E em Entretenimento? vemo-lo mais concentrado nessa missão. O álbum termina com “Até já”, uma despedida confessional com direito a uma dedicatória a todos os que o ajudaram a construir este projecto. Até já, Carlão. Ficamos à espera da próxima “imprevisibilidade”.

 


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