Dino D’Santiago: “Esta nova geração é bonita demais para ficar perdida nas tendências que os outros criaram”


[TEXTO] Alexandra Oliveira Matos [FOTOS] Hélder White [VÍDEO] Luis Almeida

A campainha não parava de tocar e os amigos de Dino D’Santiago entravam um a um. A mesa posta e uma panela de cachupa ao lume entusiasmavam, mas não tanto quanto a ansiedade do cantor para mostrar o seu Mundu Nôbu. Numa listening session especial e íntima bateram-se os pés ao primeiro soar dos batuques, balançou-se à voz suave do músico, agitaram-se os corpos ao baixo encorpado e abanaram-se as cabeças às adições electrónicas que dão força às raízes.

Cinco anos depois de Eva, Mundu Nôbu está aí para ser escutado e para ser selado por esta nova Lisboa que se sente cada vez mais. Paul Seiji carimba todas as músicas como a um passaporte de viagem a Cabo Verde, mas há contribuições de Rusty Santos, Loony Johnson, Branko e PEDRO. “Os ritmos são nossos desde sempre, mas com outra cor, ao invés de pegar, por exemplo, num instrumental ou numa visão mais americana e meter o crioulo só para dizer que é uma cena nova”, comenta Dino D’Santiago sobre este banho de ouro com que entrega agora o funaná lentu e o batuku dos seus pais. E acrescenta, “acho que é uma geração bonita demais para ficar perdida nas tendências que os outros criaram”.

Kalaf na produção executiva deu um arranjo a todas as letras e a mensagem do disco é quase toda ela para a mulher cabo-verdiana. “São essas mulheres invisíveis para a sociedade que erguem uma nação são elas que depois te dão aquela cachupa que te dá a força para o dia-a-dia, são elas que no embalar já nos dão o ritmo do batuku e te ensinam a respeitar o próximo acima de tudo”, assegura. E por falar em cachupa, fica a nossa sugestão gastronómica para ver e ler esta entrevista sobre Mundu Nôbu.

 



O que é que há neste Mundu Nôbu? O que é este Mundu Nôbu?

Neste Mundu Nôbu há todo um universo que se chama Dino D’Santiago. Pela primeira vez eu acho que encontrei mesmo o epicentro do que me representa quer dentro do que há de tradicional nas mensagens das canções, não se perdeu isso, mas ao mesmo tempo consegui trazer o elemento electrónico e mais etéreo que eu sinto que sempre faltou porque também não tinha encontrado uma forma não invasiva de introduzir no que eu respeito muito que é a forma como a música de Cabo Verde é feita. A forma como se exporta e o que se conhece da música de Cabo Verde, a textura é algo que é muito… toda a gente que ouve um acorde ou o ritmo percebes logo, só pela forma como misturam o som. Conseguir meter o batuku e o funaná neste mapa, neste universo mais electrónico foi um desafio que de início me custou a abraçar pelo receio dos conservadores. Depois de ter o respeito dos Bulimundo, dos Tubarões, como é que eu vou conseguir trazer o meu outro lado e não perder esse afecto? Felizmente foi bem construída a história e todos, os mesmos, continuam a sentir que não se perdeu a essência.

Eva já tem cinco anos. A demora foi por esse motivo?

Foi precisamente por isso. O “Nôs Funaná” chegou à versão número 27! Foi encher até perceber o que podíamos tirar para se sentir essa bandeira que estávamos a carregar do funaná lentu, um género que se ia perdendo no tempo — os Bulimundo foram os grandes embaixadores — porque até lá só se conhecia muito o funaná mais rápido, principalmente na Europa. Conseguir recuperar o funaná lentu que o meu pai trouxe — eu só me consegui aperceber o quanto o funaná lentu mexia comigo quando eu começava a compor, o compasso que sentia era sempre desse funaná lentu — e perceber que o disco seguiu essa orientação sem que nada se perdesse para mim é quase missão cumprida. Foram cinco anos que valeram a pena, cada tempo esperado. Chega ali um momento em que começas a desesperar, as pessoas começam a pedir para deixares de tocar e para te concentrares. Mas, no meio de tantas viagens entre Nova Iorque, Coreia do Sul, Brasil, deu para absorver tanta coisa para depois chegar a este Mundu Nôbu.

O Paul Seiji foi uma peça fundamental neste disco. Como é que foi todo o processo com ele?

Eu acho que nós vamos ter de dar um passaporte português ou um passaporte de Cabo Verde ao Paul Seji. Sabes aquela pessoa que chega e de uma forma bem humilde e muito elegante abraça a tua cultura fazendo-te relembrar como é que a deves sentir? Até nesse detalhe, na forma como ele vibrava. Ele fez um exercício incrível que foi: eu a andar nas ruas de Santiago e quando parava num sítio, por exemplo no espaço do Caco Alves — um músico que acompanhou a Cesária Évora durante muitos anos –, eu chegava e começavam a tocar o “Nôs Tradison” e eu ia para o palco, começava a cantar e o povo todo cantava comigo e ele começou a observar todos esses sinais e começou a escrever a minha história. Ao escrever a minha história ele delineou então ali o disco: “este álbum vai basear-se no funaná lentu e no batuku, vamos pegar nas tuas raízes e dar a roupagem de que precisas, mas não percas, por favor, isso”. Daí gravarmos tudo acústico e depois ele dar essa roupagem. Precisavas de uma pessoa que fosse muito mais que um produtor, precisavas de uma pessoa que fosse músico e ele é um músico com formação de música clássica, mas hiper focado na cena electrónica. No início dos anos 90 ele foi um dos grandes impulsionadores do movimento da música electrónica em Londres e foi daí que o Kalaf e o Branko o conheceram, são grandes fãs, e daí podermos estar a trabalhar com ele. E ainda continuamos, pelo menos mais dois discos.

 



E o papel dos restantes elementos, o Rusty Santos, o Branko, o PEDRO, como é que foi?

O Rusty foi a pessoa mais ousada, o de Nova Iorque, foi o que chegou ali a Cabo Verde e percebeu que o funaná lentu é sensual e ele queria torná-lo ainda mais sexual ainda do que o fizemos. Deixámos que só ficasse mais sensual porque há aqui todo um lado histórico que eu gostava de respeitar nas minhas mensagens. Ele está muito ligado à música latina, o que está a acontecer com o trap triste, como eles chamam ao novo movimento do reggaetton, e ele queria aproximar esse universo ao meu do funaná lentu. Depois percebeu que eu queria uma mensagem mais de elevação e de auto-motivação do que propriamente sexual. Mas foi a pessoa que deu o clique para começarmos a pensar em singles.

Depois veio o Branko numa fase terminal do disco, em que eu ia mostrar o disco, e ele nesse processo, ao ouvir o álbum e tendo ali o Paul Seiji, sugeriu ouvirmos uns beats. E aparece-me com o beat do “Nova Lisboa”. O beat ia para alguém e eu escutei e “qual é a ideia”, começou-me logo a vir o flow. Deu-me o mic, independentemente de o beat ficar para mim ou não, e o flow como está na canção saiu do início ao fim de uma só vez. Depois foi só enviarmos para Berlim para o Kalaf. As partes em crioulo ficaram, o “qual é a ideia” ficou logo, “nova Lisboa” ficou logo, depois foi só o Kalaf começar a polir a narrativa e ficou o som do álbum. Assim chegámos a uma segunda fase em que começámos a rever o álbum e a despir as coisas, começar a tirar elementos e deixar a coisa compacta — a voz à frente e tudo o resto só para enfeitar a voz. Foi decisivo.

Depois entra o “Sta. Catarina”. O “Sta. Catarina” foi na primeira abordagem do Paul Seiji e o PEDRO quando ouviu disse, “por favor, deixem-me fazer uma versão deste tema”. No dia seguinte chegou com essa versão louca, percurssiva. Penso que ele nem sequer acelerou o BPM, mas parece que até acelerou pela forma como utilizou os elementos de percussão e beat. Foi uma mais-valia enorme. É o som que a minha mãe ouve! É incrível porque a história faz-te dançar, mas é trágica. Fala sobre o vulcão de Sta. Catarina que entrou em erupção precisamente na altura em que se festejava as festas de Sta. Catarina no Fogo e eu estava a festejar na Assomada. Ferro Gaita ia tocar no Fogo e eu ia tocar ali. A letra sou eu a explicar que Sta. Catarina evocou o vulcão porque nós começámos a esquecer os nossos valores, de onde viemos e estamos a querer seguir um mundo todo moderno, mas sem perceber qual é que é a nossa essência. Foi uma chamada de atenção.

Que sonoridades novas trouxeste para este álbum?

O “Sô Bô”, o “Nôs Funaná”, o “Sta. Catarina” e o “África di Nôs” é onde tem o sumo do que pode ser novo. Ou seja, ao invés de irmos procurar inspiração daquilo que nos vem da música anglo-saxónica, dos Estados Unidos e daquela África francófona, utilizarmos uma célula rítmica que é nossa, lusófona, herança destes anos todos que Portugal nos ofereceu de uma forma inicial trágica, mas hoje somos uma herança positiva desse movimento. São 200 milhões de falantes da mesma língua. Poder pegar nesses ritmos que é o funaná lentu, que já estava a desaparecer, e dar essa nova cor é permitir que as novas gerações possam… porque não pegar num corridinho e dar uma roupagem contemporânea, porque não pegar num semba e transportar para este universo minimal que sinto do trap. Acho que essa foi a grande ferramenta deste álbum, a novidade está nesse sentido. Pegares em algo que é o ritmo e dares a tua visão mais moderna desse ritmo não mudando a essência da mensagem. A grande novidade do disco é mesmo essa. Os ritmos são nossos desde sempre, mas com outra cor, ao invés de pegar, por exemplo, num instrumental ou numa visão mais americana e meter o crioulo só para dizer que é uma cena nova. Acho que podemos ir muito além disso e tenho ali trinta ritmos para explorar. Sinto-me bem por saber que possa levar isto ainda a outro nível.

A nível de mensagem, das letras, já falaste um pouco da “Sta. Catarina”, mas nas restantes canções o que quiseste transmitir?

Existe claramente um foco na importância da mulher, neste caso cabo-verdiana, na sociedade crioula. A mulher cabo-verdiana muitas vezes é mãe e pai, avô, avó. Sofre-se muito da natalidade precoce e do abandono, e tu vês aquelas mulheres mesmo assim a conseguir educar seres para este mundo novo com tudo o que têm para dar. Olhar para essas mulheres como um pilar de uma sociedade. São essas mesmas mães, como a minha foi, que estão nos restaurantes na copa, que estão a limpar o metro antes de nós no dia seguinte irmos para o metro e encontrarmos tudo limpinho, no aeroporto a deixar as nossas casas de banho todas limpas. São essas mulheres invisíveis para a sociedade que erguem uma nação, são elas que depois te dão aquela cachupa que te dá a força para o dia-a-dia, são elas que no embalar já nos dão o ritmo do batuku — eu fui embalado ao ritmo do batuku nas costas, desde puto que eu sentia essas cenas — e te ensinam a respeitar o próximo acima de tudo. A minha homenagem é clara à mulher nesse sentido, daí ter a Nha Balila naquele testemunho do “Nôs Funaná”, daí ter a minha avó como a minha única convidada vocal no disco — todos os outros são os produtores, o Loony Johnson, o Seiji, o Rusty, o Branko, o PEDRO e o Kalaf, claramente.

Há mais para além disso, há também o “Nôs Crença” e o “África di Nôs” são temas de pura intervenção numa sociedade em que deixámos de ser escravos físicos e passámos a ser escravos mentais. É um alerta também nesse sentido, para acreditares no que sentes e no teu propósito maior da vida ao invés de te deixares levar pelas correntes e te influenciares tanto pelo que te dizem e isso ter tanta força que tu deixas de ser um Eu para passares a ser um Nós.

 



Deste quase nome e banda sonora àquilo que hoje em dia se sente em Lisboa, a esta nova Lisboa como lhe temos chamado. No fundo a tua “Nova Lisboa” é uma bandeira para a nova Lisboa que se vive hoje. O que sentes em relação a isso?

Eu hoje ao cantar o “Nova Lisboa” parece que estou a cantar uma coisa que pertence a toda a gente, não é a minha canção. Eu sinto isso quando começo a ouvir o pessoal “qual é a ideia… vem sente, sente esta nova Lisboa” [canta]. Eu sinto mesmo que as pessoas estão a sentir que nós fazemos parte de uma geração que realmente faz parte desta Lisboa ecléctica, desta Lisboa multicultural e que recebe o próximo sem saber que está a receber porque ao fim ao cabo ele já esteve cá. Acho que todas as grandes cidades se deviam espelhar na cidade de Lisboa para perceber como é que se consegue comungar as várias culturas sem que haja assim tanto separatismo. Porque nós falamos de separatismo, mas nem temos a noção. Eu acho que uma pessoa que vive em Lisboa e diz que Lisboa é uma cidade que separa as culturas nunca saiu de Portugal para perceber o quão guetizada está a sociedade realmente. Chegas a Nova Iorque e percebes claramente: aqui é o sítio dos latinos, aqui é o sítio dos negros, aqui é a China Town. Londres igual, Paris igual, apesar de serem cidades em que vendo de cima vês tudo misturado, mas não há uma aculturação. São várias culturas que estão dentro do mesmo pacote, mas que no fundo não se juntam. Nós em Lisboa chegas a um Na Surra e vês que é precisamente o oposto, vais a um Time Out ver um concerto, chegas a uma noite da Príncipe. E já nem falo de culturas, mesmo entre turistas e os que cá vivem já está tudo misturado. Reclamam os que têm de reclamar, usufruem os que conseguem usufruir. Acho que somos uma sociedade que consegue usufruir desta nova Lisboa e espero mesmo que muita gente venha cá e consiga registar isso para perceber o quão especiais nós somos para conseguirmos também nós próprios valorizarmos mais isso.

Queres que este Mundu Nôbu resida nessa nova Lisboa?

Sim, quero que o selo seja mesmo este selo desta Lisboa e que marque esta nova geração. Acho que é uma geração bonita demais para ficar perdida nas tendências que os outros criaram. A nossa Lisboa tem capacidade para criar a tendência e que se torne uma tendência universal.

E em palco o que podemos esperar?

Levo duas vozes que serão instrumentistas também e um multi-instrumentista para ajudar também a dar a parte orgânica que eu preciso sempre ao vivo. Juntamente com a máquina, o elemento electrónico, e aí misturando cenas visuais de coisas que eu gosto de pintar. Felizmente com este disco tive a oportunidade, desafiado pela editora, de ilustrar cada canção, pintá-las, tê-las em timelapse para depois poder usar quando necessário. Acho que vai ser um concerto em que me vou divertir bastante e poder deixar uma mensagem positiva acima de tudo.

 



Lembro-me de uma vez em entrevista ao Rimas e Batidas teres falado do Ronaldo, do Mourinho e da Selecção como sendo o orgulho dos portugueses, achei graça. Orgulhas-te também deste álbum como Portugal se orgulha desses elementos?

Orgulho. Eu tenho entrado em várias personagens: deixa ver o Dino que vive em Trás-os-Montes como é que ouviria este disco? E o Dino que vive em Évora? E o de Quarteira? E nesses vários Dinos eu gosto do disco. Se calhar por ser o primeiro disco que fiz tão não meu, só meu. Entreguei algo em bruto e eles souberam acarinhá-lo e vesti-lo de tal forma… Esse eles é mesmo o Paul Seiji e o Kalaf. Souberam dar o banho que eu precisava neste disco. E felizmente estou com uma editora que soube perceber essa visão e não quis um Dino que tivesse de ser “tens de ter um single e tens de ter”. Não. Acompanharam e querem transportar esse meu mundo, essa descoberta de pegar em ritmos da minha cultura e trazê-la para este Mundu Nôbu, abraçaram a causa. Estou mesmo feliz porque ouço este disco em várias personas e fico sempre contente com o resultado final. Há uma cena bué injusta com os discos que é: tu gravas o disco e o processo é tão longo que depois quando vais para ouvir já estás tão farto que só queres ouvir outras coisas. Com este disco não me aconteceu isso e isso deixou-me bué feliz. Isto é um álbum que eu vou querer ouvir como ouvia o Voodoo do D’Angelo, como ouvia o Uprising do Bob Marley. Este felizmente é meu.

A maioria ainda não ouviu o disco, mas estão há mais tempo dois singles cá fora [a entrevista aconteceu na quarta-feira, dia 17 de Outubro]. Que mensagens tens recebido?

Tenho tido um grande feedback e é fixe teres feedback de pessoal que comunga da mesma profissão. Por exemplo, o Slow J num momento em que estivemos no estúdio dele — eu, ele, o Moullinex, o Fumaxa, o Papillon –, recebi o master nesse dia e ouvimos todos juntos. Eles permitiram-me isso, ouvir com um bom sistema de som e quando terminou o Slow J disse: “fogo, se eu tivesse esse disco já não precisava de estar tão preocupado”. É o maior elogio de alguém que tu vês da nova geração, que tu admiras, e sabe o quanto dá trabalho fazer um álbum. Ele disse mesmo: “se calhar não vais conseguir outro momento assim, mas já tens um”. Depois o Virgul, o Nelson Freitas, fui juntando vários amigos e todos dizem que está uma obra bonita. Isso deixa-me muito feliz porque notas que não é aquela coisa gratuita por ser teu amigo. Por acaso estes meus amigos não são mansos [risos] nessa abordagem. Têm uma visão séria, sabem que isto é a nossa vida e quanto mais verdadeiros formos mais crescemos.

Falavas lá atrás nesta entrevista de dois álbuns novos. Já estás a preparar alguma coisa ou agora vais só dar concertos?

Neste processo eu já comecei, já estou a desenhar novos sons. Depois de ter surgido o “Nova Lisboa” houve uma viragem. Quero mais temas em português, quero também um em inglês porque chegas a um público que eu também quero que perceba, mas mantendo a génese rítmica focada nos nossos sons.

 


Alexandra Oliveira Matos

Alexandra Oliveira Matos

Questionar é o verbo pelo qual orienta o olhar. Licenciada em jornalismo na Escola Superior de Comunicação Social, mestre em continuar a aprender.
Alexandra Oliveira Matos