Wu-Tang // The Saga Continues

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[TEXTO] Moisés Regalado 

Desde Iron Flag que RZA, produtor dos Wu-Tang Clan e mentor da sua filosofia, mostra sinais de cansaço no que toca à criação de beats e conceitos. Desde então, essa tem sido a origem de inúmeras divergências entre membros, motivando pausas estratégicas que chegaram a apontar para o fim. Contra todas as expectativas, e tendo em conta o histórico controlador de RZA, The Saga Continues é totalmente produzido por Mathematics, DJ e produtor que há muito está próximo da família. Sem ignorar as características essenciais da sonoridade Wu-Tang, conseguiu renovar o que parecia confinado ao passado e ao alcance de um só homem, que substituiu com classe.

Este projecto acaba por ser uma surpresa, também porque reforça aspectos que até agora não tinham sido devidamente materializados. Redman, parte do universo alargado de Shaolin desde Blackout! e presente na discografia do grupo desde The W, conquistou finalmente o estatuto de afiliado: “Lesson Learn’d” apresenta “Inspectah Deck e Reggie Noble, que volta em “People Say”, com direito a vídeo, para brilhar sozinho; ao lado de Method Man, o MC aparece em “Hood Go Bang!”, também escolhido para single e promovido em simultâneo com “If Time Is Money (Fly Navigation)”, solo de Mr. Mef.

 



O mais metódico dos rappers é outro dos pontos altos. Principal portador da bandeira preta e amarela nos dias que correm, destaca-se essencialmente pela métrica e pelo flow, ao nível dos melhores de sempre. Não há como negar que trouxe um rap superior ao dos restantes intervenientes e que merece tal destaque mas, sublinhe-se, também beneficiou do eclipse generalizado dos seus irmãos de armas.

Quem também atingiu o auge individual após o do colectivo, neste caso com Boot Camp Clik, foi Sean Price. Igualmente reconhecido pela técnica ímpar com que desafiava o microfone, é quase estranho que nunca tenha colaborado activamente com o Clan, descontando algumas posse cuts em edições de segunda linha. Afinal, o background, o imaginário e a estética tinham semelhanças relevantes. E as comparações com Method não seriam de todo forçadas.

Apesar disso, e como disse o próprio em “Like You“, “Wu-Tang Clan ain’t nothing to fuck with/Boot Camp Clik ain’t nothing to Wu-Tang”. Assim sendo, torna-se curioso que, depois de falecer em Agosto de 2015, “Pearl Harbor” seja a terceira faixa partilhada com mestres das 36 Chambers (em Loyalty Is Royalty, novo de Masta Killa, no póstumo Imperius Rex e, precisamente, em The Saga Continues). Por outro lado, e segundo palavras do próprio neste novo featuring, “I fucks with Wu-Tang and a couple of new niggas/I don’t weirdo with queer clothes”. Será que as melhores crews dos anos 90, que nunca primaram pela proximidade, se uniram agora por amor às raízes?

 



Não deixa de ser revelador, no mínimo, que as qualidades maiores se resumam a surpresas mais ou menos inesperadas, contrastantes com o previsível desleixo dos outrora actores principais. Raekwon, próximo do seu melhor, pecou por defeito – entra apenas em “Fast And Furious”. Ghostface Killah e RZA, os únicos que se parecem ter esforçado minimamente, não sobressaíram. É por isso que os novos protagonistas dizem que The Saga Continues é oficial, enquanto o círculo conservador insiste na ideia de que este é um compilation album.

Porque só importa quem está, fluidez e equilíbrio são as palavras de ordem com apontamentos negativos que não chegam para diminuir a tarefa levada a cabo por Mathematics. E, apesar dos resultados medianos, há que valorizar as tentativas de RZA e Ghostface, bem como as execuções de Method Man e Redman, mais certeiras que quaisquer outras.

 


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