Wu-Tang Clan // Iron Flag

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[TEXTO] Rui Miguel Abreu

Algo se passa no campo de treinos dos Wu-Tang… Os três primeiros álbuns do grupo demoraram sete anos para serem editados e no entanto Iron Flag é o segundo trabalho em dois anos… Mais complicado ainda: The W não era grande coisa e levou muita gente a pensar que os Wu, como grupo, já tinham sido. Mas Iron Flag é impressionante. Como nos primeiros álbuns, os nove cavaleiros do Apocalipse (aqui reduzidos a 8 porque ODB ficou “retido” algures) dão-nos a estranha sensação de que cada faixa não demorou mais de meia hora a fazer e que todas as vozes foram gravadas ao primeiro take. E numa era onde cada beat é clinicamente montado e as rimas são ponderadas em cada palavra, sabe bem voltar a sentir que o hip hop pode ser uma música imediata e urgente. Gravado há poucos meses (há referências de Ghostface Killah ao 11 de Setembro em “Rules”), este álbum mostra-nos RZA em forma e os grandes Method Man, GK, Inspecta Deck, GZA ou Masta Killa arrasam-nos com versos contundentes como “The rhyme came from the pressure of heat/Then it was laid out, on the ground to pave streets”. E essa é a principal sensação: a de que os Wu-Tang são um pequeno exército, saído das ruas para tomar de assalto a nossa imaginação. Com beats que na sua simplicidade regressam às origens (citando, fundamentalmente, o funk, mesmo que pela via da Rua Sésamo como acontece em “Uzi…”) e rimas feitas de fogo e gelo. Destaques possíveis neste grande álbum? O party stomper “Uzi (Pinky Ring)” ou o lunático “Soul Power” com a participação do grande Flavor Flav…

Os Wu-Tang recuperam com classe a pertinência e a contundência, reagrupando-se em torno de uma bandeira que há muito carregam com alma: a do hip hop real, feito de trocas quase telepáticas entre MCs que transparentemente recolhem prazer da actividade de fazer com que cada bombo e tarola carregue a palavra certa, enquanto o “tshck, tschk” dos pratos orienta a respiração e o baixo conduz os batimentos cardíacos. E mesmo que à sua volta, no universo do hip hop, só restem destroços, estes guerrilheiros de elite sabem o que há a fazer, como explica Masta Killa em “Soul Power”: “I walk through the valley of death, the hotstepper/Holdin red pepper, everybody on reach/I need a beat to expand, the mind guide the hand/Pen stroke, excellent quotes of literature/Nights over Egypt, black as Arabia.” Word up!

 


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Texto originalmente publicado na revista Op. em 2002.

Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
Rui Miguel Abreu