NERVE // AUTO-SABOTAGEM

review nerve auto

[TEXTO] Diogo Pereira

A loucura sempre fez parte do hip hop português, desde o horrorcore de Fuse à mais recente paranóia dos Enigmacru, e a NERVE, o primeiro rapper neurótico português (um “rapper nervoso a cuspir inquietações”, como lhe chamou Ricardo Miguel Vieira), cuja obra tanto evoca membros das franjas mais alternativas e experimentais do rap americano como Aesop Rock ou Sage Francis como humoristas com tendência auto-depreciativa como Woody Allen e Rodney Dangerfield, que acaba de lançar o seu mais recente EP, Auto-Sabotagem, após um hiato de três anos desde o seu último álbum, o aclamado Trabalho e Conhaque ou A Vida Não Presta E Ninguém Merece A Tua Confiança.

Por isso a pergunta que se impõe é: será ele o mesmo? E de que forma mudou? Pois bem, boas notícias para os fãs do “sacana nervoso”: Tiago Gonçalves ainda não mudou. Os seus dotes líricos continuam imaculados, e o seu estilo continua inconfundível, estilo de contradições e dicotomias onde o rasca e o erudito, o coloquial e o literário, continuam a conviver lado a lado em alegre harmonia, sem nunca destoar.

Psicologicamente, NERVE (ou a sua persona artística, ou sujeito poético, se quisermos ser mais rigorosos) também continua o mesmo: o mesmo ego exacerbado, a mesma bipolaridade, dividido (ou melhor dizendo, dilacerado) entre o auto-engrandecimento via egotripping e a auto-depreciação lamuriosa, embora esteja muito mais confiante desta vez, fruto de anos de labuta e reconhecimento do público.

 



NERVE, cuja auto-proclamada atitude é “não estou aqui para ensinar ninguém, estou aqui para me tentar perceber”, continua introspectivo, auto-centrado, cerebral, como sempre foi. Continua a evocar Aesop Rock na sua fraseologia delirante, embora o seu flow se mantenha muito mais constante e seguro. E continua a mergulhar-nos no mundo fascinante (embora insalubre e claustrofóbico) que é o interior da sua cabeça (ou o pouco que sai cá para fora e está apto para consumo).

Tematicamente, também não há nada de novo. O rapper volta a debruçar-se sobre o insustentável peso do trabalho (citando o título português do célebre filme de Mike Judge) e a vil indústria musical, embora deixe de fora as canções de (des)amor, como “Nós e Laços” ou “Pedragelo”.

Também continuam as referências à cultura popular (um pouco de tudo desde o massacre de Columbine até Michael Jackson e Zoidberg), a sonoridade agro-industrial, os jogos de palavras e as figuras de estilo, o flow por vezes meio desalinhado, fora da batida, a voz processada e pejada de efeitos, que parece ao mesmo tempo meticulosamente planeada e imprevisível e solta, a complexidade das letras, por vezes indecifráveis, os refrães hipnóticos e repetitivos (o de “Plâncton” é particularmente viciante), o humor negro e cartoonesco à Eminem e a imaginação delirante do já citado Aesop Rock. E sem esquecer as auto-citações (um verso de “Deserto” remete-nos para “Queimar Pontes”, do EP Água do Bongo, e o botão de “Plâncton” parece o mesmo de “Sacana Nervoso”), bem como os habituais diálogos com interlocutores imaginários com voz do próprio.

A música também continua a mesma: uma mescla de tons industriais e drones com batidas sujas, pesadas, esparsas e metálicas (muitas delas a fazer lembrar o áspero “Ventolin”, de Aphex Twin), envoltas em fumo, teclas carnavalescas, baixos ominosos e a adição de gravações de campo sinistras, como o som de uma garrafa de vidro a roçar numa parede e o de um para-brisas seco.

 



De fora estão os loops de jazz e blues e o boom bap do seu álbum de estreia, e a afinidade com o lado mais industrial da eletrónica é aqui cimentada por meio de uma sonoridade marcadamente áspera, fria, estéril, artificial, minimalista, feita inteiramente a partir de máquinas (tirando o saxofone tenor de Mestre André, aka Notwan, que assume um papel preponderante (figura em quatro das seis faixas), conferindo à música uma qualidade etérea, assombrosa, melancólica e sinistra, sobretudo no final de “Loba”), semelhante à que ouvimos em Trabalho e Conhaque.

No que a estados de espírito concerne, se em Eu Não Das Palavras Troco A Ordem estava mais paranóico e menos depressivo, em Trabalho e Conhaque estava mais depressivo e menos paranóico, aqui está, segundo as palavras do próprio, menos paranóico e mais colérico, o que se reflecte na violência e imagética de algumas das letras.

A sua voz também não mudou, embora acuse a maturidade de alguém que se aproxima dos 30. O seu flow aqui está lento e confiante.

Continua a olhar o ouvinte (tanto os detratores como os fãs) de cima, e a proclamar a sua superioridade intelectual.

 



E continua capaz de urdir bonitas rimas, como:

“Um porco estupor que o tupor encalacrou

Vida voltou ao meu corpo morto, o monstro alastrou”

Ou:

“Idade, feitas contas, metade queimada a criar

Espero espremer a mente e morrer hidratado

Antes de parar de pingar”

Ou ainda momentos de pura e singela poesia como estes:

“És breu novato

Média carga simbólica.

Claro caso de cara de pau talhado de árvore hipócrita

Farsa por um fio, que eu, Eduardo de cara estóica

Corto com metódica mão de tesoura”

 

“Só peço abrigo ameno no Inverno

E arejado no Verão e isolar-me da povoação

Não tarda trintão

Deprimente tritão de tridente a tentar manter água quente

Tanto como o manto do pastor que tosquia o rebanho cristão”

 



No final de “Deserto”, afirma “Rima já foi mais complexa/Ando a tentar ser mais claro”, denunciando uma aparente mudança no estilo, mas a verdade é que a complexidade, as metáforas, as rimas internas, os jogos de palavras, as aliterações, as anástrofes, e a riqueza do léxico, continuam aqui evidentes. Como esta melíflua sucessão de aliterações:

Em como sou tudo quanto no canto conto

Serei tanto se sei que quando vocifero

Em verso que se contém lúcido”

E esta belíssima piada:

“Potenciais investidores podem bem morrer à espera

Que eu reduza o risco

Corro atrás do meu com as mesmas pernas

Com que fujo ao fisco”

Em suma, a escrita de NERVE continua (usando também uma aliteração) vívida, visceral e visual, criando imagens poderosas na mente de quem o escuta e evidenciando um claro domínio da língua. Talvez seja por isso que nos diz, em “Chibo”, sou o último que adora escrita.

Em “Conhaque”, perguntava-se:

“Será que hoje devo encarnar um complexado de orgulho ferido ou um megalomaníaco de nariz endeusado?”

Neste novo EP, parece estarmos definitivamente na presença do segundo. Auto-Sabotagem sabe mais a um gesto de vaidade do que um statement artístico ou um regresso a sério de um dos mais respeitados rappers portugueses contemporâneos. O tom é eminentemente ostentatório (desta vez com muito mais confiança e sem a auto-depreciação de trabalhos anteriores, que surge raramente), dividindo-se sobretudo entre o battle rap e o egotripping, territórios familiares ao rapper. De facto, o ego de NERVE parece estar a assumir contornos lovecraftianos — “Deserto”, que abre o EP, conta-nos a chegada de um ser sobrenatural, um monstro, sedento de sangue (“Lúcifer em carne viva”, o mesmo que está na capa).

E também, como é apanágio na presença de grandes egos e grandes artistas, se começa a adivinhar a construção (ou reiteração, já que tudo isto é familiar, e nada é novo na sua obra) de uma personagem, uma persona pública, com parecenças dúbias com a verdadeira pessoa, esbatendo a linha já ténue entre realidade e ficção, à semelhança do que Eminem fez com Slim Shady. Como se pode ouvir em “Breu”, declaração de intenções que fecha o EP:

“Numa de viver e morrer em cena

Culpado do que de mal ou bem me aconteça

No decorrer da viagem

É a minha auto-sabotagem”

 



Mas talvez este capítulo seja mais carregado, mais exagerado, mais barroco, tendo em conta a violência e excentricidade das letras (pejadas de referências a súcubos, empalações, vampiros, mortos-vivos e filmes snuff) — às vezes parece que estamos a ouvir o Fuse de Informação ao Núcleo — e o imaginário demoníaco que figura no grafismo negro e vermelho da capa e no vídeo de “Chibo”. E talvez isso prefigure uma incursão definitiva de Nerve pelo horrorcore, estilo que namorou no passado, mas que nunca adoptou definitivamente. O que podemos afiançar é que NERVE continua fiel a si mesmo, e acrescentou novas matizes à sua paleta, o que vai agradar aos fãs e deixar água na boca para mais.

 



O seu ego inflado e a suprema confiança nas suas capacidades líricas, que exibe sem pudor, a par de canções mais introspetivas e sérias como “Loba” e “Simone”, nas quais aborda o estado da indústria musical e a difícil relação com os seus fãs, demonstram uma clara maturidade, de um artista experiente, com obra feita, a lidar com o sucesso e as suas vicissitudes.

Por isso, a auto-sabotagem do título pode ser lida da seguinte forma: aparentemente, NERVE está a tornar-se cada vez mais denso, sombrio, ensimesmado e complexo (e interessante), mais underground e alternativo, sabotando qualquer hipótese de alcançar o sucesso das massas (algo que, em verdade, nunca quis), bem como a sua independência financeira, e, pelo caminho, transformando-se num artista de culto. Tudo indica que sim, a julgar por “Loba”, invetiva em que amaldiçoa a indústria musical, e não fosse este um disco feito sob o signo da independência e auto-suficiência (foi inteiramente produzido, escrito, ilustrado, gravado, misturado e cantado pelo próprio). E a confirmação pode ser encontrada em “Chibo”: Nada importa, aqui na toca eu estou OK. Bem como todos os seus fãs, na toca com ele.

 


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