NERVE // “Trabalho & Conhaque” ou “A Vida Não Presta & Ninguém Merece a Tua Confiança”

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Sam the Kid, Valete, NERVE: o que têm em comum estes três nomes? Além do talento – muito diferente de caso para caso –, são deles, nos dias que correm, os álbuns que mais ansiosamente têm sido esperados pelo público. E a espera é já de há muito, muito tempo. Anos, para ser preciso. Tanto Serviço Público (Valete) como Pratica(mente) (Sam the Kid) foram editados no longínquo ano de… 2006, e, quanto a NERVE, a sua estreia nas lides discográficas, parece que não, foi já em 2008, ano da obra-prima Eu Não das Palavras Troco a Ordem (ENPTO), um dos melhores primeiros álbuns do hip hop português – ou, atalhando caminho, simplesmente um dos melhores álbuns do hip hop português.


 

 


Sete anos passaram (culpa da “filha da procrastinação”, como se ouve em “Conhaque”), sete anos em que o mundo mudou muito e, com ele, o da música e o do hip hop português (e, claro, o do próprio NERVE, pois, desde ENPTO, “a vida aconteceu”, como o próprio disse ao ReB). Talvez a principal manifestação dessa mudança – e que faz a síntese de todas as outras (de resto não exclusivas do hip hop, como é o caso da partilha global e em tempo real de música) – seja o facto de, hoje, Portugal ser um país onde o hip hop se impôs definitivamente como género popular (embora sem correspondente penetração no mercado discográfico), ocupando cartazes de todo o tipo de festivais e inclusive alterando a génese original de alguns deles (caso do Sumol Summer Fest). Se, em 2010, Presto dizia, em “Não Pára” (A Essência, Mind Da Gap, 2010), “Parece que o hip hop já passou de moda / Aleluia!, que é um ciclo que se renova”, cinco anos volvidos somos forçados a constatar que, como todas as modas, a do hip hop voltou. E isto é de afirmar sem complexos ou lamentações, pois a massificação e a mediatização, por mais irritantes que possam ser e efeitos nefastos comportar, não apagam nunca o que de melhor e mais talentoso se vai fazendo, ao mesmo favorecendo a pluralidade, a visibilidade e, claro, elevando a fasquia.

Deixa melhor não poderia haver para se falar de “Trabalho & Conhaque” ou “A Vida Não Presta & Ninguém Merece a Tua Confiança”, álbum que, mesmo antes de ser editado, tinha já atingido um estatuto de quase mito, tamanha a contra-informação em seu redor (leia-se anúncios de lançamento e respectivos adiamentos, mitologia alimentada, de resto e com muito prazer, pelo próprio NERVE) e a curiosidade aguçada pelo lançamento da compilação Palha, Paus e Pérolas (2014) e, no mesmo ano, do EP Água do Bongo (2014), conjunto de excrementos, de “restos” (porque NERVE, se bem se recordam, deixa sempre “o melhor para o fim”…), do qual saiu essa bela e existencial canção de dor de corno que é “Pobre de Mim”.

A primeira curiosidade de quem parte para a escuta de Trabalho & Conhaque”… é esta: qual o lugar de NERVE hoje? Isto é: onde e como se insere NERVE no panorama do hip hop português passados sete anos do lançamento de ENPTO? Sete anos pródigos no florescimento de rappers e grupos mais novos que ele, sete anos em que o trap (e o novo bling-bling a ele associado – porque é que 50 Cent foi tão atacado na sua altura e A$AP Rocky e afins são colocadas numa redoma de charme e swag?!) conquistou o mundo? Sete anos em que se consolidaram no hip hop português nomes e estéticas tão díspares como, por exemplo, os de Capicua, Virtus, GROGNation, ProfJam, Mike El Nite, Jimmy P? Em que lugar fica, no meio disto tudo, NERVE e o seu idiossincrático hip hop (e se o hip hop sempre foi, por natureza e por defeito, indie nos meios, NERVE foi, no seu aparecimento, associado à imagética urbano-depressiva que também passou a enformar a coolness indie), ele que, ao contrário dos nomes atrás referidos, raros ou mesmo nenhuns concertos tem dado (aspecto sublinhado pelo próprio em “Lenda”) e cujas colaborações primam pela discrição?


 


Historicamente, os grandes impérios (do romano ao americano) foram sempre obrigados a optar, perante a mudança, por uma de duas: ou endurecer as suas linhas programáticas, re-legitimizando a sua presença e força, ou tentar adaptar-se e flexibilizar-se, mas correndo sempre o risco, neste último caso, do desaparecimento (se bem que também exista uma “terceira via”, a famosa via viscontiana de Burt Lancaster em Il Gattopardo: “É preciso mudar para que tudo continue igual”). Na música, também é mais ou menos assim, pelo que a primeira coisa que se oferece dizer sobre “Trabalho & Conhaque”… é que, num tempo em que a apologia da “heterogeneidade”, do “crossover de influências”, enfim, do “ecletismo” (tique pós-modernista por excelência) ganhou honras de parangona artística, NERVE seguiu o primeiro dos caminhos acima referidos: manteve-se exactamente igual a si próprio, com as mesmas virtudes e os mesmos defeitos, o que, no caso, é sinónimo de génio, idiossincrasia, autorismo (nas letras, nos instrumentais, mas também no próprio artwork do álbum, como já acontecia em ENPTO) e de uma inconfundível tendência para a autofagia. Diferenças? Bom, a maior diferença de relevo para ENPTO é mesmo a sonoridade global do álbum, mas a isso ir-se-á mais adiante.

Esta afirmação da manutenção de uma linha própria – talvez não tão consciente assim, na medida em que, segundo o próprio NERVE, a ideia deste álbum existia já antes do próprio ENPTO… – manifesta-se, desde logo, ao nível das colaborações. Quer dizer… ao nível da falta delas. Ao contrário da maioria dos álbuns de hip hop que por hoje são editados, Trabalho e Conhaque”… é um álbum exclusivamente rimado, do princípio ao fim, por NERVE, naquela que é uma declaração de labor, autorismo e amor à arte, à sua arte, como quem quer preservar um território só seu e intocável, imune à contaminação exterior (com as digníssimas excepções de José Mário Branco e Mário Viegas, o primeiro amiudadamente samplado ao longo de todo o álbum). O que não deixa de ter, também, um certo sabor de provocação, como quem diz: “achavam mesmo que, passados sete anos, eu precisava de convidados para voltarem a escutar a minha música”? Isso não prejudica, no entanto, as produções de terceiros (Notwan, já creditado em ENPTO; Pedro, o Mau e VULTO., em Água do Bongo; ou Keso, que, entre outras, produziu já para NERVE a magnetizante “Inconcebível”), a voz – muito subtil, quase inaudível – de Joana Amores e o acordeão de Nathanael Sousa em “Conhaque” (instrumento tão bem incorporado no beat que até custa a acreditar que não seja mais vezes chamado para os terrenos do hip hop).

E, de facto, NERVE não precisa de colaborações, pois, estes anos volvidos, o seu imenso talento mantém-se intocado, sendo isso que lhe permite adornar o seu trabalho com doses cavalares de egocentrismo, megalomania (em “Lenda”, mas até na própria comunicação com os fãs) sem que isso nos cause incómodo. Isso e o facto de sabermos que, por detrás dessa máscara (do “Andy Kaufman” a que NERVE alude em “Subtítulo”), há um tipo esquivo (“esquizoide”, nas suas palavras), introspectivo, complexado (a meias com a tal megalomania, como é audível em “Conhaque”), noctívago (conferir sample inicial de “Monstro Social”), mais ou menos misantropo – afinal, um tipo como muitos de nós, mas, no caso, dotado de um particular talento para escrever canções e que faz do seu muito desalinhado hip hop o meio de expelir a sua visão cáustica, sarcástica e auto-depreciativa de si, do mundo e da própria arte (“Se eu fizesse o pino / a arte ressuscitava / E um urinol voltava a ser um urinol” – Duchamp e dadaísmo, em “Monstro Social”, dizem alguma coisa ao leitor?).


 


NERVE abre “Trabalho e Conhaque”… com uma rockalhada memorável, como se lhe ouvíssemos as esporas de cowboy a chocalhar no faroeste e abrir as portas do saloon à patada. É a forma de nos introduzir à “Cidade Perfeita”, terra dessas almas que criaram o ar condicionado para nos fazer sentir bem fechados em jaulas. É, também, o modo de nos apresentar a consolidação da sonoridade mais trash que já vinha de ENPTO (“E.N.P.T.O.”, “A Semente do Mal”, “Lápis de Cera”) e igualmente reconhecível no EP Água do Bongo. Ao contrário de ENPTO, este é, porém, um álbum onde os samples de jazz e de soul ficam praticamente à porta (com a excepção de “Nós e Laços”), sendo trocados pela electrónica, predominantemente industrial, suja e rude, cujos riffs de guitarra eléctrica e os baixos nos trazem à memória, de alguma forma – por mais estranho que isto possa soar –, o industrial rock/metal dos Marilyn Manson anos 90 (isto no que à sonoridade diz respeito, pois na atitude “apunkalhada” e niilista, a proximidade não tem nada de estranho), mais precisamente o de Antichrist Superstar (e se os Manson sempre tiveram uma costela metal, então, a afinidade torna-se ainda mais sugestiva quando se ouve, em “Subtítulo”, essa terrorífica linha: “Aquilo que eu já gritei nesta casa dava para dez álbuns de black metal”). A isto se juntam os mil e um efeitos e sub-efeitos saídos de um sintetizador manipulado com mestria e a utilização frequente de teclas sinistras e clownescas, como aquelas que compõem a marcha fúnebre que é “Monstro Social”.

NERVE sempre esteve meio zangado, de costas voltadas, com o mundo, e foi isso que o tornou adorável e objecto de uma legião de fãs (“Alguns estranhos abordam-me e nem se identificam / só chegam e dizem que se identificam”, NERVE a parodiá-los). Em “Trabalho & Conhaque”…, essa zanga atinge o expoente máximo, espécie de revolta contida no dia-a-dia que só vê a luz do dia no momento em que NERVE desabafa ao microfone. Esta amargura tem o reverso negativo de, comparativamente com ENPTO, “Trabalho e Conhaque”… ser um álbum mais sério – ou, dito de outro modo, muito menos humorístico, javardo ou chavasqueiro, com excepção de “Surpresa” (muito ironicamente, NERVE informa, no início da faixa, que, “Tirando esta, todas as faixas do álbum são a brincar”). Onde estão as graçolas ora inteligentes ora carrasqueiras de, por exemplo, “Conselhos Por Segundo” ou “Sacana Nervoso” (ou ainda, para recuperar o EP Promoção Barata, 2006, de “À Conversa Com…”)? E embora NERVE sempre tenha sido conhecido pela auto-reflexividade, pela neurose, este é, outrossim, um álbum que, definitivamente, fecha a janela do quarto e isola o seu criador, na medida em que são poucas as faixas (caso de “Trabalho”, “punkalhada” electrónica de um precário na era dos “colaboradores” e dos “procedimentos de qualidade”) em que NERVE se desliga de si mesmo e descreve o que está para além dele, o “exterior” (nem que seja fazendo egotrip, por exemplo). Essa capacidade de “sair” de exclusivamente si próprio (da tal janela do quarto) estava presente nos seus trabalhos anteriores, aliás com excelentes resultados, em faixas como “Vizinho de Cima”, “Alter-Ego” (essa inesquecível festa de super-heróis em que a Jean Grae também era convidada), “O Serviço” ou “Sujo”. Aqui, porém, tudo é “interior”, circular.

A propósito desta exacerbada “interioridade”, impossível não falar num dos temas em que o talento letrista de NERVE mais se notabiliza. Em departamento sempre espinhoso como é o dos assuntos do coração, destaca-se uma assinável mudança lírica, naturalmente influenciada pelo próprio crescimento de NERVE. A inocência, a ilusão, a sofreguidão amorosa de ENPTO dá lugar, aqui, ao cepticismo, ao pragmatismo e mesmo ao desprezo. Para se perceber o que se acabou de dizer, oiça-se, por esta ordem, uma canção como “Pedragelo” (ENPTO), “Cubo de Rubik” (2010, não editada mas citada “visualmente” no clipe de “Subtítulo”) e, finalmente, “Nós e Laços” (trocadilho semelhante ao que Sam the Kid empreendeu em “Dúvida”, com os 5-30). Na primeira, um tipo despedaçado a pisar voluntariamente os vidros debaixo dos seus pés descalços enquanto soluça por um “laço” que se desfez; na segunda, a constatação da inevitabilidade da quebra desse laço e o início de um certo distanciamento, de uma certa frieza e relativização do outrora tido por absoluto; por fim, o mesmo tipo que, de tanta ferida lambida, endureceu e agora odeia todo o tipo de laços, que o enojam, que os rejeita por (sub)conscientemente ter medo de se dar – por, enfim, ter medo de criar laços que um dia poderão, como no passado… deslaçar-se. “Eu perdi-me por amar demais”, sintetiza um NERVE agora alérgico a esses laços potenciadores de perdição e dor. Cobarde, dirão alguns; inteligente, outros pensarão. Todos sabemos onde está a virtude, o equilíbrio, mas NERVE é o primeiro a reconhecer o fracasso nessa demanda. Neste sentido, “Nós e Laços” pode ser vista como o perfeito avesso de “Pedragelo” e, nem por acaso, “Adeus pedragelo” (exemplo, entre outros, de auto-citação, como já acontecia em ENPTO, que citava explicitamente fragmentos de Promoção Barata) é a sentença com que NERVE se despede.



“Trabalho & Conhaque”… não será uma novidade em termos daquilo a que NERVE habituou os seus fãs, não inovando praticamente nada – com excepção da sonoridade global do álbum, como já sublinhámos – nos temas e na abordagem aos mesmos. Se isso acaba por ser, de alguma forma, desapontante (sobretudo, como já referido, pelo fechamento em demasia em si mesmo), a virtude é o reverso desse mesmíssimo defeito: em tempos de constante necessidade de inovação, onde todos querem “esbater as fronteiras”, NERVE mantém-se fiel à sua marca autoral (flow mutante e inigualável, imaginação sem limites, etc.) e isso, só por si, é motivo de regozijo para os seus ouvintes, daqueles verdadeiro admiradores que sabem todas as músicas de trás para a frente e não apenas um ou dois hits, como acontece com muitos rappers mais mediáticos do que ele. É certo que quem já não era um apreciador da música de NERVE antes deste álbum, provavelmente o continuará a não ser, mas isso não é coisa que o preocupe muito, ou mesmo nada (conferir novamente a entrevista ao ReB), pois que aos holofotes NERVE preferirá sempre – para nossa felicidade – a sua identidade artística: “Na minha faixa etária / Os meus compatriotas entregaram a espada, saltaram borda fora faz tempo / Mil vezes o mar gelado e os tubarões do que ficar a ver navios a afundarem…”.

Francisco Noronha

Jurista, investigador universitário e crítico de música e de cinema em diversas publicações. Autor do programa de rádio "Regresso ao Futuro" (Antena 3, Rimas e Batidas). obosforo.blogspot.com.