Zacari // Run Wild Run Free

[TEXTO] Moisés Regalado 

Não se pode dizer que a sua contratação tenha sido completamente inesperada, principalmente depois de um punhado de colaborações com artistas da label, mas a estreia “a valer” de Zacari pela TDE é, em primeiro lugar, outro sinal da belíssima missão que Punch e companhia continuam a levar a cabo. Isso apesar de Zac não seguir propriamente o fio condutor da turma californiana, mesmo que o (luxuoso) plantel já conte com nomes como SZA ou SiR.

A produção imaculada de “Midas Touch” ou “Lone Wolf”, temas prontos para qualquer sistema de som, ou a entrega mais convencional de momentos como “Ten Outta Ten” não ajudam a disfarçar as marcas de uma L.A. mais virada para o mar do que para as periferias, com mais pranchas de surf e menos armas do que o costume. Se as farpas lançadas, como “I got the Midas touch/Everything I do, I turn to gold with the slightest touch” são dignas de qualquer MC, os ecos e o reverb que se vão fazendo sentir com fartura ajudam a lembrar que Zacari não é uma companhia qualquer — nem está numa companhia qualquer.

“You Can Do Anything” serve de introdução ao EP e apresenta Zacari como uma espécie de Michael Jackson desafinado, mais preocupado com o que canta do que em disfarçar o que não canta — e Derek Ali terá sido o seu Quincy Jones. Os beats de Run Wild Run Free são assinados por J-Louis ou Teddy Walton, habituados a circular nos estúdios da TDE, mas a presença de Derek “MixedByAli” continua a ser tão importante no exterior da cabine quanto a dos membros mais mediáticos junto ao microfone. Nem o CV recheado lhe deixa adivinhar os próximos passos e Run Wild Run Free volta a estabelecer que os grandes se distinguem, em última análise, entre os que criam e os que seguem.



O tom melancólico e introspectivo, os desabafos e as conversas de almofada (“Go ahead, make yourself look stupid/I don’t care what you think the truth is/I mean damn, how many times I gotta prove it?”), que andam de mãos bem dadas com os tais surtos de gabarolice como “Midas Touch”, até servem de aproximação entre Zac e alguns dos seus colegas na Top Dawg Entertainment, só que o novo disco de Zacari também veio para mostrar que isso não interessa assim tanto e vai-se desenrolando sem que nunca esteja completamente dentro ou fora da caixa.

Quinze anos depois da fundação, é de louvar que a TDE, com toda a dimensão que atingiu nos últimos anos, continue a ser uma incubadora para projectos alheios ao mainstream. Ainda assim, não deixa de ser estranho que, por um ou outro motivo, o sucesso dos seus artistas menos convencionais continue a pairar relativamente longe das luzes mais fortes. A modesta ambição deste EP com nome de filme não deixa adivinhar o futuro, mas diz Zac perto do fim, “To be or not to be ain’t even a question” — a ver vamos.


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