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Ilustração: Riça

Techno, house, hauntology e outras ondas.

Oficina Radiofónica #22: Telectu / Zandvoort & Uilenbal / Niagara

Ilustração: Riça

A Oficina Radiofónica é a coluna de crítica de música electrónica do Rimas e Batidas. Música Electrónica? Sim. Techno e footwork, house e hauntology, cenas experimentais, ambientais, electro clássico e moderno, drum n’ bass e dubstep, dub e o que mais possa ser feito com sintetizadores e caixas de ritmos, computadores e osciladores e samplers e sequenciadores e outras máquinas que façam “bleep”, “zoing”, “boom” e “tshack”.


[Vítor Rua & Ilda Teresa Castro] Telectu – Belzebu – Live at Café Oto – 2019 / Asoka Miau House Productions

Em Junho de 2018, Vítor Rua, com a ajuda de António Duarte, assinalou com um concerto no Teatro Maria Matos a reedição por parte da Holuzam de Belzebu, álbum dos Telectu originalmente lançado em 1983. Esse regresso aos palcos dos Telectu, no que o próprio Vítor Rua descreveu como uma espécie de “versão de câmara” do duo originalmente criado com o já desaparecido Jorge Lima Barreto, motivou mais uma série de apresentações, incluindo as que se realizaram no Lux e no Theatro Circo, esta última no âmbito da programação de 2018 do Festival bracarense Semibreve.

Exactamente um ano depois da primeira apresentação, Vítor Rua voltou a interpretar Belzebu, em Londres, no prestigiado Café Oto, um dos principais hubs da mais aventureira e exploratória música daquela cidade, desta vez na companhia de Ilda Teresa Castro (com quem também se apresentou noutros espectáculos na Madeira, Açores ou Madrid), artista plástica e produtora de música electrónica que já tinha lançado Ecceidade na etiqueta de Vítor Rua (que agora também assume a edição deste álbum ao vivo). Fiel à ideia de tratar os pioneiros registos dos Telectu como reportório passível de fiel e reverente reinterpretação, com a tal postura de “câmara”, Rua tratou a matéria originalmente registada no arranque dos anos 80 como partitura para estas novas apresentações. E o mesmo sucedeu em Londres, com Ilda Teresa Castro a introduzir, em laptop, subtis variações em relação às bases criadas nos concertos anteriores por António Duarte (que usa sobretudo instrumentos de época).

Presente continua a estar o drone que a reedição cuidada da Holuzam recuperou, respeitando a intenção original dos Telectu não plenamente realizada na primeira edição da já extinta editora Cliché. E presente também está toda a profundidade do “guitarrismo” de Vítor Rua, músico que hoje terá, certamente, recursos técnicos bem mais amplos do que aqueles de que dispunha quando assinou o segundo álbum dos Telectu, há 37 anos, mas que ainda assim respeita o espírito intrínseco das peças resistindo ao que poderia ser um compreensível desejo de “actualização”.

O “minimalismo repetitivo” que então norteava as explorações do duo de Rua e Barreto continua a servir de principal bússola nestas leituras contemporâneas da obra. E neste bem-vindo registo ao vivo comprova-se que música pensada, executada e registada há quase quatro décadas continua a possuir a capacidade de se colar ao presente como se o tempo fosse, afinal de contas, uma mera e fugidia ilusão. A verdade é que Rua é um dos mais inquietos, irrequietos e fascinantes criadores deste tempo, um homem que devotou a sua vida a estudar as regras apenas para as poder quebrar quando está em palco, um verdadeiro guitar hero que sob a excentricidade da sua postura pública esconde, afinal de contas, uma seriedade profunda e uma aparentemente inesgotável capacidade de concentração no tipo de pensamento criativo que as suas obras exigem. Valores que sobressaem escutando a gravação desta apresentação em Londres perante uma plateia conhecedora do lugar que os Telectu justamente ocupam na história da mais aventureira música electrónica europeia das últimas décadas.


[Zandvoort & Uilenbal] Folk Triumfator / Nightwind Records

O imparável Danny Wolfers – aka Legowelt, aka Zandvoort (etc…) – continua a expandir o seu catálogo pessoal com aquela que é já a sua terceira edição dos últimos seis meses, depois de Tips for Lifee Secrets After Dreams(ambos creditados a Legowelt). Desta vez, o novo lançamento, pensado para coincidir com mais um dia em que o Bandcamp abdica de comissões nas vendas realizadas na sua plataforma, é creditado à dupla Zandvoort & Uilenbal (este último alter ego do músico e produtor holandês Jimi Hellinga) e surge disponibilizado apenas em formatos digitais para download numa generosa modalidade “name your price” (sendo previsível a sua posterior edição, muito provavelmente em cassete).

Trata-se do segundo registo desta dupla, depois de Geruis Uit Somberdorp, trabalho lançado na Nightwind de Wolfers em 2016 (em suporte digital e em cassete, lá está). Hellinga é descrito nas notas de lançamento de Folk Triumfator como um “especialista em música medieval” e a dupla que criou com Wolfers como “um projecto académico paramusical” que se apropria de instrumentos históricos como o medieval “hurdy gurdy” (ou, em português, sanfona), o harmónio Victoriano do século XIX, o “thumb harp” amplificado (ou mbira ou, uma vez mais em português, kalimba) e o Mixtur-Trautonium alemão (trautónio) de meados do século passado. Esses instrumentos são depois conjugados com o “arsenal habitual” de instrumentos electrónicos contemporâneos para a criação do que as notas de lançamento descrevem ainda como “ambiental obscuro e hardcore com montes de drone medieval e influências de jazz espacial para alucinar as mentes”, fórmula que nos conduz até um espaço em que “o tempo e as opiniões deixam de existir”.

Ambiental, de facto (e não deixa de ser fascinante, mesmo depois de tantos exercícios nestes domínios “arrítmicos”, que Wolfers, um verdadeiro defensor de uma certa pureza techno em tantos dos seus projectos, explore com tamanho afinco e regularidade estas vertentes que se desenvolvem de costas voltadas para as pistas), mas igualmente cinemático e inquietante no plano melódico e harmónico.

Wolfers e Hellinga, ou, melhor dizendo, Zandvoort & Uilenbal, oferecem-nos aqui uma banda sonora alternativa para o thriller medieval O Nome da Rosa, enquanto exploram esta ideia ancestral da automação na música, trazendo para o centro das suas peças os timbres singulares dos instrumentos referidos, efectivamente propondo uma espécie de “música antiga de câmara” para o universo da electrónica, cruzando os diferentes pulsares do ar que faz vibrar cordas ou membranas, com a sinuosidade voltaica dos teclados analógicos e o rigor matemático dos zeros e uns do processamento digital, numa delicada filigrana tímbrica em que se torna difícil perceber de onde – e até, mais importante, de “quando” – são os sons que escutamos.

No tema título, o apropriadamente “pastoral” “Folk Triumfator” que parece conter no seu ADN sónico ecos recolhidos nas Highlands escocesas, escuta-se claramente a alma mecânica da sanfona, que no entanto surge perfeitamente casada com a cadência grave de uma sequência analógica e com a mística névoa electrónica que rodeia o arranjo, instantaneamente sugerindo-nos imagens de misteriosas colinas verdes envoltas em densa neblina onde se escondem insondáveis mistérios. Com ficheiros de 24 bits a 48khz, esta é uma luxuosa sessão de massagem aural e espiritual a que não podemos nem devemos escapar.


[Niagara] Pais & Filhos / Príncipe

Lançado ontem – para já apenas em formatos digitais no Bandcamp da Príncipe, mas com planos para distribuição noutras plataformas de streaming a curto prazo e, como é apanágio da etiqueta, em vinil “mais tarde no ano” – o novo álbum dos Niagara é um breve (cerca de 30 minutos…), mas fascinante exercício de intensa exploração e descoberta que marca o regresso do trio ao catálogo lisboeta dois anos depois de Apologia.

É verdade que o espírito inquisitivo e verdadeiramente exploratório de Alberto e António Arruda e de Sara Eckerson não lhes permite o “luxo” da imobilidade instigando-os a percorrerem vastos territórios musicais em busca de estímulos que lhes alimentem as ideias e as realizações musicais abundantes que lhes têm expandido a discografia a um ritmo assinalável (cinco álbuns e dezena e meia de EPs desde que se estrearam em 2011, com mais de metade dos títulos concentrados nos últimos 4 anos).

Neste novo álbum, não há um “centro” evidente. Nas notas de lançamento, explica-se que as “faixas resultam de horas infindas de improvisos ao vivo” em que o grupo implementa diferentes processos criativos esperando assim obter igualmente diferentes resultados musicais. Pode concluir-se que a nossa surpresa ao escutar uma nova guinada no caminho dos Niagara seja tão genuinamente franca quanto a dos próprios membros que, claramente, não estabelecem planos que lhes guiem os passos antes de encetarem cada uma das suas jornadas.

Afastados do por eles já bem mapeado terreno da pista de dança, os Niagara propõem aqui uma cartografia mais emocional, ensaiando, logo num primeiro momento, um intrigante cruzamento entre um plano melódico quase new-age e o que soa a uma implosão rítmica que nos dá uma camada de propulsão fragmentada, altamente abstracta. O momento seguinte funciona, de certa maneira, como o inverso, com a percussão que soa orgânica e tradicional (no sentido Giacometti do termo…) a assumir a dianteira e a traduzir movimento, enquanto em segundo plano e em contraponto há um drone em loop que parece traduzir imobilidade. “Tília”, sugerem os próprios Niagara nas notas de lançamento, “remete os ouvintes para o território de Forbidden Planet, não apenas por causa do tom sci-fi vintage, mas também porque se enreda no mesmo tumulto psicológico que o filme de 1956 explora”. De facto, o filme de culto de Fred M. Wilcox, em parte baseado no clássico drama The Tempest de William Shakespeare, teve no pioneiro score electrónico a cargo de Louis e Bebe Barron, o perfeito equivalente “musical”: um conjunto de pulsares e ruídos de absoluta novidade analógica que há quase 65 anos traduziam uma ideia de incerto futuro que então se começava a impor na geração dos baby boomers.

O tríptico “Ano-B”, “Ano-C” e “Ano-A” (por esta ordem, mas entrecortado ainda por um tema de título “46 x 92m”), esclarecem-nos ainda as já referidas notas, “florescem da mesma raiz e usam todos percussão acústica para acrescentarem uma vida mais orgânica à natureza líquida da música”. São três passagens de crescente abstracção em que os elementos percussivos são usados para pintarem a difusa paisagem em que rapidamente somos mergulhados, uma espécie de música exótica para o século XXII, plena de mistério e de ecos de estranhas formas de vida. Como se acabássemos de chegar a um planeta distante e ousássemos os primeiros passos fora da cápsula em terreno perfeitamente desconhecido.

“46 x 92m”, o tal tema que interrompe o fluxo do já mencionado “tríptico”, é um exercício de “quarto-mundismo” que nos sugere uma actualização de algumas ideias que se produziam no Japão digital dos anos 80, quando o DX-7 da Yamaha tanto servia para traduzir novas ideias de espaço como para evocar orquestras de gamelão. É uma vívida tela de tropicalismo pintada em cores de VHS que apetece deixar em repeat do nascer ao por do sol.

“Há algo a acontecer”, dizem-nos, em jeito de conclusão, os Niagara. Há, de facto. E não temos que perceber exactamente o que é para nos deixarmos ainda assim arrebatar.

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